O que se passa em Chernobyl? Ucrânia diz que soldados russos foram contaminados, ONU garante que a radiação no local é "normal"

CNN Portugal , MJC
1 abr, 22:00
Tropas russas saídas da Bielorrússia conquistaram a zona da central nuclear de Chernobyl  (AP Photo/Efrem Lukatsky)

Na quinta-feira, as tropas russas desocuparam a antiga central nuclear e deslocaram os militares para outra região da Ucrânia. A informação de que alguns militares russos foram contaminados pela radiação não está ainda confirmada, afirma Rafael Grossi

"A situação geral da radiação à volta da central de Chernobyl é bastante normal. Houve um nível de radiação relativamente superior por causa do movimento de veículos pesados na altura da ocupação da central e o mesmo terá acontecido na saída [das tropas]", afirmou esta sexta-feira o diretor da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) das Nações Unidas (ONU), Rafael Mariano Grossi, após visitas à Ucrânia e à Rússia.

Grossi explicou que oficiais de Moscovo com quem falou não o informaram sobre porque é que as tropas russas abandonaram Chernobyl. A empresa estatal de energia ucraniana, Energoatom, disse que tropas russas receberam "doses significativas" de radiação por terem escavado trincheiras na zona de exclusão à volta da central, mas o diretor da AIEA afirmou que não tem qualquer confirmação de que tenha havido soldados contaminados.

Esta é também a convicção do major-general Carlos Branco: "Acha mesmo que os russos não saberiam os cuidados a ter ou iriam colocar em risco os seus soldados?", duvida, quando questionado pela CNN Portugal.

Na opinião deste especialista, está-se a dar demasiada importância à operação em Chernobyl, algo que, diz, "não passa de um fait-divers no meio desta guerra": "Quando um exército ocupa uma região tem de dominar os seus pontos estratégicos e a central, apesar de desativada, é um local importante. Agora estão a retirar daquela região e deixam a central, como é óbvio. Não havia um interesse específico na central". 

O que aconteceu neste último mês em Chernobyl?

A central nuclear de Chernobyl, localizada a norte de Kiev, não está ativa, mas ainda requer tarefas de controlo, análise e vigilância. Após ser ocupada pelo exército russo, em 24 de fevereiro, a antiga central tem sido motivo de preocupação para a AIEA, já que o pessoal que lá trabalhava ficou detido durante  quase um mês e sem descansar. 

As tropas russas desocuparam a central na quinta-feira. A Energoatom sugeriu que as forças russas deixaram Chernobyl por causa de preocupações com os níveis de radiação e que levaram consigo um número indeterminado de membros da Guarda Nacional da Ucrânia, mantidos em cativeiro desde 24 de fevereiro.  Ainda segundo a agência ucraniana, as tropas russas construíram fortificações, incluindo trincheiras na chamada Floresta Vermelha, a região mais contaminada da zona ao redor de Chernobyl, disse a Energoatom.

O diretor da central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, disse ser impossível determinar o grau de radiação a que as tropas russas foram expostas enquanto ocupavam o território, revela a CNN Internacional. Num comunicado divulgado no Telegram da Energoatom, a operadora pública das centrais nucleares da Ucrânia, Valery Seida, disse que "no território da própria estação, os ocupantes não cavaram nada, mas a poeira espessa levantada pela passagem de veículos e as partículas de radiação" que lá existem "podem ter entrado no corpo" das tropas russas "pelos pulmões", embora não tenha revelado o nível de exposição à radiação.

A confirmação foi feita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmytro Kuleba, que acusou a Rússia de se ter comportado de forma irresponsável durante as mais de quatro semanas em que ocupou as instalações, impedindo que os funcionários realizassem todo os trabalhos necessários em áreas contaminadas. "A Rússia comportou-se de maneira irresponsável em Chernobyl em todos os aspectos, desde não permitir que o pessoal da estação realizasse as suas funções até cavar trincheiras nas áreas contaminadas", disse Kuleba, sublinhando que o governo russo deve "responder às mães, às irmãs, às esposas daqueles soldados, porque eles colocaram as suas vidas em risco".

Kuleba disse que, com acesso renovado a Chernobyl, a Ucrânia trabalharia com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para perceber quais os danos causados pelas tropas russas enquanto controlavam o local, alertando ainda para o facto de os militares russos terem estado expostos a níveis perigosos de radiação.

Mais cauteloso, Rafael Grossi afirmou que a saída das forças russas da antiga central nuclear, desativada após o desastre de 1986, é "um passo na direção certa". O responsável disse que espera ir "muito, muito em breve" a Chernobyl, referindo que se seguirão mais missões de segurança nuclear na Ucrânia.

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