O que foi a União Soviética? Como se fez e desfez a URSS, a cujo fim Putin chama “desgraça”

1 mar, 22:00
Separador URSS

Durante mais de seis décadas foi o maior país do globo, com um território tão vasto que abrangia 11 fusos horários. Foi Estado socialista, Federação, ditadura e totalitarismo. Nascimento e morte de uma entidade chamada União Soviética

A Ucrânia e a Rússia foram parte integrante da União Soviética, cuja implosão em 1991 seria considerada por Vladimir Putin como “a maior desgraça do século XX”. Aquela que foi formalmente denominada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), ou União Soviética, foi a superpotência que durante décadas “dividiu” o mundo com os Estados Unidos da América (EUA). Por isso se dizia que vivíamos então num mundo bipolar, com duas grandes áreas de influência. Na semana passada, Putin precedeu a invasão da Ucrânia com um discurso convocando o ideário da “Grande Rússia” e remetendo para a História do seu país. O que foi, como se fez e desfez a União Soviética?

A sucessora do império dos czares “nasceu” em 1922 e implodiu a 26 de dezembro de 1991. Durante mais de seis décadas foi o maior país do globo: estendia-se dos mares Báltico e Negro até ao Oceano Pacífico e o seu território, de tão vasto, abrangia 11 fusos horários. Foi um Estado socialista, uma Federação, ditadura e totalitarismo. Ao todo teve sete líderes, a maioria dos quais não deixou marca especial na história do país.

Antes da União Soviética: o último czar

Nicolau II foi o último membro da longa dinastia dos Romanov. Também denominado de rei da Polónia e grão-duque da Finlândia, o czar Nicolau II governou a Rússia como o haviam feito os seus antecessores – de forma autocrática. Mas, tímido e indeciso, não tinha apetência para exercer o poder, que deixava nas mãos da polícia de estado e do exército, o que desagradava à população.

A industrialização criava uma massa operária significativa, cujas condições de trabalho e de vida eram, no mínimo, precárias, tal como o era a situação da população rural. A guerra com o Japão (1904-1905), de que a Rússia sai derrotada, agudizou a situação no país, que se viu a braços com várias revoltas. Em outubro de 1905, Nicolau II publicou um manifesto garantindo as liberdades individuais e prometendo eleições – indiretas - para o Parlamento (Duma), que se tornava o poder máximo do país, embora o czar mantivesse parte significativa dos poderes. Os anos entre 1906 e 1910 assistiram a uma série de conquistas por parte do proletariado russo, como a organização de sindicatos, a redução do horário de trabalho, a criação de seguros contra acidentes; uma série de reformas também ocorreram no mundo rural.

Em março de 1917, em plena I Guerra Mundial, a crise económica, manifestações, greves e a recusa da polícia e do exército em avançar sobre a população levaram Nicolau II a abdicar do trono. A Duma organizou, então, um governo provisório. Este não retirou o país da guerra, situação que foi explorada pelos partidários de Lenine, que planeia, a partir da Suiça, onde se exilara, a queda do executivo de Petrogrado (hoje São Petersburgo). Os sovietes tomam o poder no dia 7 de novembro de 1917, prometendo à população “paz, pão e terra”. O czar e a família são executados pelos bolcheviques em 1918.

A Rússia de Lenine

Vladimir Lenine foi o primeiro líder da União Soviética; foi ele quem liderou os bolcheviques no golpe de 1917 que levou à queda do governo provisório e quem estabeleceu o primeiro estado constitucionalmente socialista na Rússia.

A criação da nova entidade política não ocorreu de forma pacifica. Durante os seus sete anos de poder, Lenine teve de enfrentar a guerra civil entre o Exército Vermelho e as forças anti bolcheviques, sendo a Guarda Branca a maior fação. Em 1922, o equilíbrio de poder mudara e a vitória pertencia aos bolcheviques, Lenine pôde, então, unificar a Rússia com a Federação Transcauciana (Arménia, Azerbaijão e Geórgia), a Ucrânia e a Bielorrússia, criando assim a União Soviética.

A nova entidade tem como língua oficial o russo. Durante anos, registaram-se movimentos populacionais dentro da URSS, situação que no futuro complicou a vida de todas as repúblicas independentes: todas falam russo e todas têm população russa.

Estaline, a guerra e o terror

José Estaline sucede a Lenine no poder em 1924, e ficará à frente dos destinos da URSS durante 29 anos, tornando-se no homem que mais tempo esteve à frente dos destinos da União Soviética.

Desde o início, Estaline será implacável com aqueles que se lhe opõem e a sua “paranoia” política conduzi-lo-á à Grande Purga, durante a qual acontecem detenções em massa de supostos opositores, membros do Partido Comunista e até cidadãos comuns, que pouca sombra lhe poderiam fazer, e que são levados para campos de trabalho ou condenados à morte.

Foi um autêntico reinado do terror, para eliminar toda a oposição política.

Em 1939, os tambores de guerra começam a soar na Europa. Estaline, que não consegue fazer uma aliança com o Ocidente, assina a 23 de agosto um pacto de não agressão com a Alemanha nazi e, uma vez iniciada a guerra, a URSS de Estaline invade e anexa territórios de vários estados da Europa de Leste, incluindo regiões da Polónia, a Lituânia Letónia e Estónia.

No seu apogeu, a União Soviética é um território que abarca a Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Arménia, Geórgia, Moldávia, Azerbaijão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Turcomenistão e Uzbequistão. Todas estas repúblicas têm o seu partido comunista, que obedece ao de Moscovo; o mesmo acontece com os governos locais.

A União Soviética, que foi palco do mais sangrento teatro de guerra durante o conflito, acabaria por vencer a tropas de Hitler no seu território e foram também as forças soviéticas que, a 9 de maio de 1945, capturaram Berlim, a cidade que seria depois dividida entre os países que saíram vitoriosos da II Guerra Mundial.

Dois anos após o fim do conflito, já os aliados de então estavam desalinhados e davam início ao que ficaria conhecido como o período da Guerra Fria, isto é, um período de tensão entre os dois blocos em que o mundo se dividira: o Bloco Ocidental e o Bloco de Leste. O primeiro organiza-se e une-se na Organização do Atlântico Norte (NATO), a aliança militar criada em 1949 e que integra Canadá, Estados Unidos e países da Europa Ocidental, para velar pela segurança do Ocidente.

Nikita Kruschev e a crise dos mísseis

A morte de Estaline, em 1953, desencadeou uma renhida luta pelo poder, de que sai vitorioso Nikita Kruschev, o homem que participara nas purgas de Estaline e em quem este confiava.

Chegado ao poder, porém, este metalúrgico, que nascera numa aldeia russa perto da fronteira com a Ucrânia – república que bem conhecia porque a governara por ordem de Estaline –, decide denunciar e corrigir os erros do seu antecessor e fá-lo no seu “Discurso Secreto” ao XX Congresso do Partido, em 1956.

Kruschev inicia, de facto, um processo de desestalinização, que leva a uma época menos repressiva, e avança com uma série de reformas liberais na política interna. Apoiou de forma significativa o primeiro programa espacial soviético, então mais avançado do que o dos Estados Unidos.

Procedeu a grandes cortes orçamentais nas forças convencionais, mas foi durante o seu governo que ocorreu o período mais tenso da Guerra Fria que culminou com a crise dos mísseis, em 1962.

Nunca a paz esteve tão em perigo como então: Fidel Castro chegara ao poder há três anos e a URSS propôs-se instalar uma base de misseis em Cuba, o que Fidel aceitou. Ao ter conhecimento, o então presidente John Kennedy não hesitou e, ao mesmo tempo que avançava com um bloqueio à ilha, exigiu que os soviéticos retirassem os mísseis ou avançava com uma declaração de guerra. Após aturadas negociações, os soviéticos retiraram os mísseis de Cuba e os EUA retiraram os mísseis que tinham instalados na Turquia. A cedência de Kruschev valeu-lhe a perda do poder.

É com Kruschev que a Crimeia é “oferecida” à Ucrânia, em 1954, para criar uma unidade entre as duas repúblicas (Rússia e Ucrânia). É ainda durante o governo de Kruschev que é assinado o Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua, vulgo, Pacto de Varsóvia, capital polaca onde o documento é assinado pela URSS, a Polónia, a Albânia, a Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Roménia, República Democrática Alemã (RDA) a 14 de maio de 1955.

Esta aliança militar surge como reação à decisão da Alemanha Ocidental de integrar a NATO.

Brejnev e a Primavera de Praga   

Deposto Kruschev pela ala mais conservadora do poder, um nativo da Ucrânia é colocado na liderança da URSS: Leonid Brejnev.

Durante 18 anos será ele quem decide dos destinos da superpotência e do partido. Os assuntos militares e a política externa são da sua total competência. E quando se trata de política externa, Brejnev defende que a URSS tem o direito de intervir num país vizinho desde que esteja em causa a defesa do regime comunista.

Não surpreende, portanto, que os tanques soviéticos entrem na capital da Checoslováquia em 1968 para esmagar a “Primavera de Praga”, o movimento civil que procura liberalizar o regime comunista do país.

A acumulação de armas cada vez mais sofisticadas e o desenvolvimento de mísseis preocupam tanto os EUA como a URSS que acabam por assinar alguns acordos para reduzir o esforço na área da defesa. Em 1972, Brejnev recebe no Kremlin o presidente dos EUA, Richard Nixon com quem assina acordos de limitação de armas estratégicas. Sete anos depois, Brejnev assina um novo acordo com o presidente Jimmy Carter para a limitação de armas estratégicas, mas o Senado dos EUA recusa ratificar o documento.

Colocando em prática a sua doutrina de direito de ingerência, Brejnev envia as tropas soviéticas para o Afeganistão para consumar em definitivo um regime comunista no país.

Andropov: o KGB no poder

Após chefiar o KGB (os serviços secretos soviéticos) durante 15 anos, Iuri Andropov ascende a chefe supremo da URSS. Aliás, é o primeiro agente do KGB a chegar ao poder. O seu “reinado” é, porém, muito curto: dois anos apenas. E o seu legado é praticamente nulo.

Chernenko: a caminho do fim

Konstantin Chernenko esteve apenas um ano no poder (1984-1985) e tudo indica que quando tomou posse já estaria debilitado de saúde. Mas a URSS devia-lhe aquele cargo porque ele não se poupou a esforços para servir o país de forma irrepreensível, subiu todos os escalões, assessorou todos os grandes, em especial Brejnev.

O seu funeral foi considerado como um dos mais imponentes do país, organizado pelo seu sucessor Mikhail Gorbachev.

Gorbachev: o senhor perestroika

A escolha de Mikhail Gorbachev para a liderança da União Soviética foi considerada uma lufada de ar fresco e indiciava uma possível abertura da URSS ao mundo. A sua subida ao poder não foi pacífica, dado pertencer ao grupo dos reformadores, e não fora o chefe da diplomacia de Moscovo, Andrey Gromyko, e Viktor Chebrikov, chefe do KGB, a defendê-lo, provavelmente Gorbachev não teria sido o escolhido.

De origens russas e ucranianas, filho de uma família camponesa pobre, Gorbachev chega ao topo da pirâmide na URSS em 1985. Ao assumir o cargo, Gorbachev compromete-se a preservar o estado soviético e os seus ideais socialistas, mas também acredita na necessidade de reformas políticas. E essa necessidade torna-se mais óbvia após o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986.

A guerra no Afeganistão não estava só a exaurir os cofres de Moscovo, mas também a ceifar a vida de muitos jovens, o que leva Gorbachev a pôr termo ao conflito. Ao mesmo tempo, reúne-se por diversas vezes com o então presidente dos EUA, Ronald Reagan com quem discute a necessidade de limitar a proliferação das armas nucleares e o fim da guerra fria.

A nível interno, Gorbachev pôs em prática a “glasnost” (transparência), política que aumentava as liberdades de expressão e imprensa, e a “perestroika” (reestruturação) que tinha como objetivo descentralizar a tomada de decisões económicas para poder aumentar a eficiência da economia, procurou lutar contra a corrupção e defender a justiça social. O seu objetivo era conseguir uma revolução controlada: não queria acabar com o sistema, mas torná-lo mais eficiente.

Gorbachev vai mais longe na sua democratização da URSS e da sua relação com os países satélites ao decidir não intervir militarmente naqueles que, em 1989 e 1990, abandonam o regime comunista. Acontece, por exemplo, quando se desloca à Alemanha de Leste e deixa cair Honecker, contestado na rua por milhares que repudiavam o autoritarismo e a falta de liberdade, que queria a intervenção de Moscovo; Gorbachev ignora o pedido. A 9 de novembro de 1989, é anunciada uma nova lei sobre a mobilidade dos cidadãos e o estatuto da fronteira. O porta-voz do Governo, inquirido sobre a data da entrada em vigor da lei, afirma que ela entra em vigor imediatamente. Trata-se de um erro: a lei precisa de ser aprovada pelo Parlamento mas isso já ninguém quer saber, a multidão invade as ruas e avança para o Muro de Berlim e o governo não teve alternativa a não ser abrir as fronteiras naquela mesma noite. Um ano depois, acontecia a reunificação alemã.

Entretanto, um sentimento nacionalista crescente ameaçava o colapso da União Soviética, levando partidários marxistas-leninistas a tentarem um golpe de Estado contra o governo de Gorbachev em agosto de 1991, quando se encontrava de férias na Crimeia. O objetivo do golpe era impedir a assinatura, a 20 de agosto, do tratado da União que reforçaria o poder das repúblicas em detrimento do centro. Gorbachev recusou demitir-se como os golpistas exigiam e eles mantiveram-no preso mas, em Moscovo.

Boris Ieltsin, presidente da Rússia, denunciava o golpe e exigia a presença de Gorbachev na capital. Ieltsin conseguiu, assim, impedir o golpe mas não a dissolução da União Soviética, o que levou Gorbachev a demitir-se em dezembro de 1991.

A independência das repúblicas sucedeu-se a uma velocidade espantosa, com receio talvez de um novo golpe que as impedisse de se tornarem livres de Moscovo. As três repúblicas do Báltico (Estónia, Lituánia e Letónia) proclamaram a independência e aproximaram-se do Ocidente. A Ucrânia votou, a 1 de dezembro de 1991, pela independência. Representantes da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia, reuniram-se a 8 de dezembro em Minsk e declararam o fim da União Soviética e fundaram a Comunidade dos Estados Independentes (CEI) que incluiria mais tarde o Cazaquistão.

A Rússia de Ieltsin e Putin

A Rússia herdou todos os direitos e deveres da URSS, como seja o assento no Conselho de Segurança da ONU.

Boris Ieltsin foi o primeiro presidente da nova entidade, a que lhe sucedeu Vladimir Putin, o ex-homem forte do KGB. Durante algum tempo, Putin e Medvedev tiveram de alternar na presidência até que Putin conseguiu alterar a constituição e "eternizar-se" na presidência da Rússia.

A guerra da Georgia em 2008 e a anexação da Crimeia em 2014 aumentaram a influência da Rússia, que já tinha como aliado declarado a Bielorrússia. Nos últimos dias de fevereiro, Vladimir Putin “reconheceu” os territórios separatistas de Donetsk e Lugansk, na região de Donbass, na Ucrânia, como independentes. Declarou que “a Ucrânia é uma parte integral da nossa própria história” e “foi inteiramente criada pela Rússia comunista”. E invadiu o país, iniciando uma guerra que se depara com resistência ucraniana e produziu uma reação em bloco do Ocidente. Hoje, enfrenta a condenação de grande parte da comunidade internacional pela sua agressão gratuita à Ucrânia.

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