O que acontece às armas enviadas para a Ucrânia? Os EUA não têm a certeza (mas têm receio)

CNN , Katie Bo Lillis, Jeremy Herb, Natasha Bertrand e Oren Liebermann
20 abr, 19:41
Força aérea norte-americana embala armas para enviar para a Ucrânia

Os EUA têm poucas formas de localizar o abastecimento substancial de armas antitanque, antiaéreas e outro armamento que tenha passado a fronteira da Ucrânia, disseram fontes à CNN. Não têm como o fazer, em grande parte devido à falta de soldados norte-americanos no terreno e à fácil portabilidade de muitos dos sistemas mais pequenos que estão a atravessar a fronteira.

É um risco consciente que a administração Biden está disposta a correr.

A curto prazo, os EUA consideram a transferência de centenas de milhões de dólares em equipamento vital para os ucranianos conseguirem impedirem a invasão de Moscovo. Na terça-feira, um alto oficial da defesa disse que é, “certamente, o maior fornecimento recente a um país parceiro num conflito”. Mas o risco, dizem os atuais oficiais e analistas da defesa dos EUA, a longo prazo, é que algumas dessas armas possam acabar nas mãos de outros militares e milícias que os EUA não pretendiam armar.

“Temos informação fidedigna durante algum tempo, mas, quando entramos na névoa da guerra, temos praticamente zero”, disse uma fonte informada sobre os serviços secretos dos EUA. “Entramos num grande buraco negro e perdemos quase toda a noção do que se passa, após um curto espaço de tempo.”

Ao tomar a decisão de enviar milhares de milhões de dólares em armas e equipamento para a Ucrânia, a administração Biden teve em conta o risco de alguns dos carregamentos acabarem em lugares inesperados, disse um oficial da defesa.

Mas, neste momento, afirmou o oficial, a administração vê a incapacidade de armar adequadamente a Ucrânia como um risco ainda maior.

Como os militares norte-americanos não estão no terreno, os EUA e a NATO dependem fortemente da informação fornecida pelo governo ucraniano. Em privado, os oficiais reconhecem que a Ucrânia tem um incentivo para apenas dar informações que reforcem o argumento de que precisam de mais ajuda, mais armas e mais assistência diplomática.

“É uma guerra. Tudo o que eles fazem e dizem publicamente é destinado a ajudá-los a ganhar a guerra. Cada declaração pública é uma operação de informação, cada entrevista, cada aparição de Zelensky transmitida é uma operação de informação”, disse outra fonte familiarizada com a inteligência ocidental. “Não significa que estejam errados ao fazê-lo.”

Durante meses, os oficiais ocidentais e norte-americanos ofereceram relatos detalhados sobre o que o Ocidente sabe do estado das forças russas dentro da Ucrânia: quantas baixas fizeram, o seu poder de combate, a sua reserva de armas, que tipo de munições estão a usar e onde.

Mas, no que toca às forças ucranianas, os oficiais reconhecem que o Ocidente, incluindo os EUA, têm algumas lacunas de informação.

As estimativas ocidentais das baixas ucranianas são também incertas, de acordo com duas fontes familiarizadas com os serviços secretos norte-americanos e ocidentais.

“É difícil localizar sem ninguém no terreno”, disse uma fonte familiarizada com a inteligência.

Questões de visibilidade

A administração Biden e os países da NATO dizem estar a fornecer armas à Ucrânia com base no que as forças ucranianas dizem precisar, quer se trate de sistemas portáteis, como os mísseis Javelin e Stinger, ou o sistema de defesa aérea eslovaco, o S-300, que foi enviado na última semana.

Os mísseis Javelin e Stinger, as espingardas e as munições são naturalmente mais difíceis de localizar do que sistemas maiores, como o S-300, que foi enviado por via ferroviária. Apesar de os javelins terem números de série, há poucas formas de acompanhar a sua transferência e utilização em tempo real, dizem fontes familiarizadas com o assunto.

Na semana passada, os EUA concordaram em fornecer a Kiev o tipo de capacidade de alta potência que alguns oficiais da administração Biden consideravam ser um risco de escalada há poucas semanas, incluindo 11 helicópteros Mi-17, 18 canhões Howitzer de 155 mm e mais 300 drones Switchblade. Mas muito desse apoio ainda não está funcional e os Switchblades são drones móveis, de uso único, que provavelmente também seriam difíceis de localizar depois de serem usados.

“Não sei dizer onde estão na Ucrânia, nem se os ucranianos os estão a utilizar neste momento”, disse um alto oficial da defesa aos jornalistas, na semana passada. “Não nos relatam todas as munições que utilizam nem a quem e em que momento as estão a disparar. Podemos nunca vir a saber exatamente até que ponto têm utilizado os Switchblades.”

O Departamento de Defesa não assinala as armas que envia a unidades particulares, segundo o porta-voz do Pentágono, John Kirby.

Camiões carregados de paletes de armas fornecidas pelo Departamento de Defesa são recolhidos pelas forças armadas ucranianas, maioritariamente na Polónia, e depois levados para a Ucrânia, disse Kirby. “Depois, cabe aos ucranianos determinar para onde vão e como são atribuídos dentro do seu país.”

Uma fonte do congresso indicou que, embora os EUA não estejam no terreno ucraniano, têm instrumentos para compreender o que está a acontecer para além do que os ucranianos dizem. É de referir que os EUA utilizam, de forma extensiva, imagens de satélite e que tanto as forças armadas ucranianas como as russas parecem estar a utilizar equipamento comercial de comunicação.

Outra fonte do congresso declarou que os militares dos EUA consideram a informação que estão a receber da Ucrânia como geralmente fiável, uma vez que os EUA treinaram e equiparam os militares ucranianos durante oito anos, desenvolvendo relações fortes. Mas isso não significa que, segundo a fonte, não haja algumas lacunas, como, por exemplo, em relação ao estatuto operacional dos S-300 na Ucrânia.

Jordan Cohen, um analista de defesa e política externa do Instituto CATO, que se foca na venda de armas, disse que o maior perigo quanto à inundação de armas a ser canalizada para a Ucrânia é o que lhes acontece quando a guerra termina ou transita para algum tipo de impasse prolongado.

Este risco faz parte de qualquer consideração ao enviar armas para o estrangeiro. Durante décadas, os EUA enviaram armas para o Afeganistão, primeiro para armar os mujahedin, na sua luta contra o exército soviético, e depois para armar as forças afegãs na sua luta contra os talibãs.

Algumas armas acabaram inevitavelmente no mercado negro, incluindo mísseis antiaéreos Stinger, do mesmo tipo que os EUA estão agora a fornecer à Ucrânia.

Os Estados Unidos lutaram para recuperar os Stingers, após a guerra soviética no Afeganistão. Não os conseguiram encontrar todos e quando os próprios EUA invadiram o Afeganistão, em 2001, alguns oficiais temiam que estes pudessem ser utilizados pelos talibãs contra os Estados Unidos.

Outras armas acabaram por equipar os adversários americanos. Muito do que os EUA deixaram para trás, para ajudar as forças afegãs, tornou-se parte do arsenal talibã após o colapso do governo e dos militares afegãos.

O problema não é exclusivo do Afeganistão. As armas vendidas à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos acabaram por chegar às mãos de combatentes ligados à Al-Qaeda e ao Irão.

Existe o risco de um cenário semelhante acontecer na Ucrânia, reconheceu o oficial da defesa. Em 2020, o inspetor-geral do Departamento de Defesa divulgou um relatório que suscitava preocupações sobre o controlo da utilização final das armas enviadas para a Ucrânia.

Mas dadas as necessidades quase insaciáveis a curto prazo das forças ucranianas de mais armas e munições, o risco a longo prazo destas acabarem no mercado negro ou nas mãos erradas foi considerado aceitável, disse o oficial.

“Isto pode vir a ser um problema daqui a 10 anos, mas isso não significa que não deva ser algo em que pensemos”, disse Cohen, analista da CATO. “Mais de 50 milhões de munições. Nem todas vão ser utilizadas apenas para combater os russos. Eventualmente, essas munições vão ser mal utilizadas, intencionalmente ou não."

A ameaça russa

Os oficiais não estão muito preocupados que as armas caiam nas mãos dos russos, pelo menos, por agora. A fonte informada sobre os serviços secretos observou que o facto de a Rússia não ter conseguido assegurar grandes extensões de território ou forçar a rendição de muitas unidades ucranianas significa que essas armas ou foram utilizadas ou continuam em mãos ucranianas.

E, até agora, parece que a Rússia tem lutado para intercetar ou destruir as remessas de fornecimentos. Uma terceira fonte, familiarizada com os serviços secretos, disse que não parece que a Rússia tenha estado a atacar ativamente os carregamentos de armas ocidentais que entram na Ucrânia, embora não seja claro o motivo exato, especialmente porque os EUA têm informações que os russos querem e têm discutido fazê-lo, tanto publicamente como em privado.

Há uma série de teorias sobre o motivo de os carregamentos terem sido poupados até agora, acrescentou a mesma fonte, incluindo que as forças russas simplesmente não os conseguem encontrar, pois as armas e o equipamento estão a ser enviados em veículos não marcados e, frequentemente, são transportados à noite. Pode também acontecer que as forças russas estejam a ficar sem munições e não as queiram desperdiçar a atingir camiões aleatórios, a menos que consigam ter a certeza de que fazem parte de uma caravana de armamento.

Apesar de, na segunda-feira, a Rússia ter afirmado que destruiu um depósito “perto de Lviv”, que continha “grandes remessas” de armas fornecidas à Ucrânia pelos Estados Unidos e países europeus, a CNN não conseguiu confirmar a informação.

Mas, de um modo geral, a Rússia também não tem uma visibilidade perfeita da informação na Ucrânia, salientou esta fonte, e as suas capacidades aéreas sobre a Ucrânia ocidental, onde os carregamentos estão a chegar, são extremamente limitadas, devido aos sistemas de defesa aérea ucranianos.

Publicamente, o Pentágono diz ainda não ter visto tentativas russas de perturbar as transferências de armas ou os carregamentos que se deslocam dentro da Ucrânia.

“Os voos ainda se estão a dirigir para locais de transbordo na região e o movimento terrestre deste material ainda está a ocorrer dentro da Ucrânia. Todos os dias há assistência de segurança, armas, material e equipamento de apoio a chegar às mãos dos ucranianos”, disse Kirby, na quinta-feira.

“Vamos continuar a fazê-lo enquanto pudermos, o mais depressa possível”. Não temos visto quaisquer esforços russos para interditar esse fluxo. E, por isso, vamos continuar a fazê-lo”, acrescentou. “Vigiamos constantemente, todos os dias, e alteramo-lo e adaptamo-lo, conforme necessário."

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