O bluff ajudou: Ucrânia reconquistou em duas semanas o equivalente "a todo o distrito de Lisboa e mais qualquer coisa"

12 set, 18:00
Territorios controlados pela Ucrânia

Este pode vir a ser um ponto de viragem da guerra. Tudo depende agora de dois fatores

Passaram 200 dias desde que a guerra na Ucrânia começou e 15 desde que as tropas de Zelensky avançaram com uma contraofensiva. Nos últimos dias conseguiram reconquistar 30 localidades tomadas pela Rússia, cerca de 3.000 quilómetros quadrados de território. "Mais ou menos todo o distrito de Lisboa e mais qualquer coisa", explica à CNN Portugal o coronel Carlos Mendes Dias. Isto afeta a estratégia operacional geral da Rússia? Sim, de várias formas.

Do lado de Moscovo já foram admitidos recuos nas regiões de Balakliia e Izyum, em Kharkiv, mas com o objetivo de "fortalecer" o seu sistema mais a sul, em torno de Donetsk, uma das capitais dos separatistas pró-russos. Ainda assim, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, garantiu esta segunda-feira que a "operação vai continuar" até que "as metas originalmente estabelecidas sejam alcançadas". 

As tropas ucranianas já estão a colocar a bandeira do país nas localidades que conseguiram recuperar ao inimigo. Neste vídeo amador captado em Izium, as tropas de Zelensky assinalam a reconquista desta cidade na região de Kharkiv, onde a Rússia está a perder o domínio em largas faixas de terreno que até agora controlava.

Num outro vídeo, desta vez publicado pela NEXTA, um grupo de tropas ucranianas reconquistou a aldeia de Strilecha, também na região de Kharkiv, retirou a bandeira russa para colocar a bandeira da Ucrânia e utilizou a do inimigo como uma espécie de tapete.

Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, as forças ucranianas infligiram uma grande derrota operacional à Rússia, recapturando quase todo o Oblast de Kharkiv numa rápida contraofensiva. O sucesso ucraniano resultou de um "habilidoso projeto e execução de campanha que incluiu esforços para maximizar o impacto dos sistemas de armas ocidentais, como o HIMARS".

bluff como arma

É verdade que o armamento é importante numa guerra, mas Kiev utilizou aqui uma outra estratégia, antiga, para combater as tropas russas. Durante várias semanas ouviu-se Zelensky e outros representantes militares a revelarem, supostamente, quais seriam os próximos passos. Mas a contraofensiva que está a ser levada a cabo no terreno tem tido movimentações diferentes daquelas que foram sendo anunciadas e os russos não estavam preparados. Uma espécie de bluff

Na perspetiva do coronel Mendes Dias, estamos a assistir a duas operações militares - finta e penetrações múltiplas - cujos objetivos são diferentes. "A questão de Kherson é uma operação ofensiva de nome ‘finta’ e que pretende desviar a atenção do opositor para aquele sítio e fazer com que o opositor reaja de determinada maneira. O que é que a Rússia fez? Desviou 13 mil efetivos para o sul, incluindo 1.300 chechenos."

Com as atenções centradas a sul, as tropas de Zelensky atacaram a norte. "Deu-se um ataque deliberado em que se utilizou a forma de manobra penetração, isto é, penetramos para atingir um objetivo em profundidade, ou vários objetivos, tentando quebrar a contiguidade ou a continuidade defensiva do inimigo. Ou seja, alargamos a brecha e vamos conquistar objetivos na profundidade do inimigo."

Neste momento assistimos a "penetrações múltiplas" em Kupiansk, no leste, em Verliki Burluke, no norte, e em Izyum, no sul. Aqui, no sul, acredita o coronel Mendes Dias, "as forças ucranianas, na zona de Vuhledar, estão a concentrar força, a desminar". "Ao que me parece, se desencadearem uma ação aqui (...) podem atacar no sentido de irem à procura de Mariupol e Berdiansk - dois portos importantes que estão no mar de Azov." 

De acordo com a imprensa russa, citada no relatório do Instituto para o Estudo da Guerra, as forças russas definiram o rio Oskil, entre Kupyansk a Izyum, como a nova linha da frente após a retirada de posições no leste de Kharkiv.

Será um ponto de viragem?

Segundo o relatório do Ministério da Defesa do Reino Unido, o sucesso das forças ucranianas na expulsão das tropas russas da região de Kharkiv "tem implicações significativas para a estratégia operacional geral da Rússia" e para a moral das forças no terreno.

"A maioria das forças russas na Ucrânia provavelmente está a ser forçada a priorizar ações defensivas de emergência", pode ler-se no relatório, que acrescenta ainda: "A confiança já limitada que as tropas destacadas têm na liderança militar sénior da Rússia vai provavelmente deteriorar-se ainda mais".

Uma perspetiva que é partilhada pelo coronel Mendes Dias. Na ótica do comentador da CNN Portugal, esta contraofensiva pode, de facto, ser um ponto de viragem na guerra, desde que "o apoio Ocidental se mantenha, caso contrário não há meios". 

"A finalidade neste momento é condicionar fortemente as operações russas no Donbass e quebrar a contiguidade territorial conquistada pela Rússia. Se for quebrada a contiguidade territorial, pode ser um ponto de viragem."

No sul da Ucrânia, perto de Kherson, o Ministério da Defesa do Reino Unido revela ainda que a Rússia pode estar a lutar para trazer reservas suficientes através do rio Dnipro até à linha de frente na margem oeste do rio. "Uma ponte improvisada que a Rússia começou há mais de duas semanas permanece incompleta. A artilharia ucraniana de longo alcance provavelmente está a atingir os cruzamentos do Dnipro com tanta frequência que a Rússia não pode realizar reparações em pontes rodoviárias danificadas", conclui o coronel Mendes Dias.

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