Núcleo duro mais próximo, poder para os tecnocratas e a com a guerra no centro. O que mudou no governo russo?

15 mai, 09:00
Vladimir Putin na celebração do Dia da Vitória na Rússia (Maxim Shemetov/AP)

Afastou um dos seus aliados mais próximos, aproximou outros do seu ouvido, mas colocou a economia de guerra em cima da mesa. Putin mudou o governo e o mundo vai mudar com ele

Vladimir Putin entrou para o seu próximo mandato com muitas alterações, algumas delas surpreendentes. Com o seu futuro amarrado ao desfecho da guerra na Ucrânia, o presidente russo fez all-in, manteve os que lhe são leais, aproximou ainda mais o seu núcleo duro e afastou, sem castigar, o ministro da pasta mais importantes de todas. O que é que aconteceu ao governo russo?

A mudança mais sonante no executivo russo passa pelo afastamento de um dos seus mais fiéis ministros, Sergei Shoigu, por Andrey Belousov, um tecnocrata da área da economia, para gerir a complexa pasta da Defesa. A decisão, que apanhou muitos analistas de surpresa, é vista pelos especialistas como “um sinal claro” de que a Rússia vai preparar-se para um conflito de longa duração, que pode ir muito além da Ucrânia.

Mas Vladimir Putin não é conhecido por punir os seus aliados, principalmente os que sempre lhe foram leais, mesmo quando lhe deixam de ser úteis. Por isso, nomeou o antigo ministro para secretário do Conselho de Segurança Nacional russo, cargo que era ocupado há 16 anos por um dos homens do círculo íntimo do presidente, Nikolai Patrushev.

A amizade de Putin com Patrushev remonta aos anos 70, quando os dois trabalharam juntos na poderosa agência de espionagem soviética, o KGB. Anos mais tarde, havia de ser o próprio Patrushev a suceder Putin no cargo de diretor do Serviço Federal de Segurança (FSB), o mais alto da espionagem russa. Mas o verdadeiro poder do antigo espião está na capacidade que este tem de influenciar Vladimir Putin, o que lhe valeu durante muito tempo a suspeição de que viesse a ser o sucessor escolhido pelo presidente russo.

Com a decisão de trazer Patrushev para perto de si para um cargo de conselheiro afastado dos holofotes e das grandes decisões, o presidente russo parece ter afastado essa hipótese. O mesmo não se pode dizer do filho de Patrushev. Vladimir Putin promoveu Dmitry Patrushev, filho mais velho de Nikolai, de ministro da Agricultura para vice-primeiro-ministro.

Outro homem que fica mais próximo dos ouvidos de Vladimir Putin é o seu antigo guarda-costas e governador de Tula, Alexei Dyumin. Poucas pessoas tiveram uma ascensão tão meteórica como este homem que diz ter salvado o presidente de ter sido atacado por um urso, durante uma caçada. Depois de uma década encarregado de proteger o presidente, Dyumin foi nomeado vice-diretor dos serviços de informações militares russos (GRU) e é creditado como tendo sido fundamental para a ocupação da Crimeia, em 2014.

Um ano depois, Dyumin foi nomeado vice-ministro da Defesa e, em 2016, foi eleito governador da região de Tula. Agora, o homem que é um dos principais “suspeitos” para a sucessão de Vladimir Putin volta a estar nas imediações do presidente para o aconselhar na área da indústria da Defesa, uma área cada vez mais importante, uma vez que o destino do Kremlin joga-se no desfecho da guerra na Ucrânia.

Entre as mexidas que estão a ser vistas como “promoções” o nome de Maxim Oreshkin, outro possível “herdeiro” sobressai-se. O jovem economista de 41 anos conta com um vasto currículo tanto no governo como no setor privado. Passou pelo Banco Central russo, foi diretor do Rosbank, foi responsável pelo planeamento a longo-prazo do departamento de planeamento do Ministério das Finanças russo e ainda ministro do Desenvolvimento económico, entre 2016 e 2020. Desde esse ano, passou a conselheiro do presidente para a área da economia e agora será o vice-chefe de gabinete do presidente russo.

Em declarações à agência Reuters, uma fonte do governo russo disse sobre a condição de anonimato que “Oreshkin foi promovido”, Dyumin foi “trazido para perto” e Patrushev pai foi “pesadamente despromovido”.

Outras figuras altamente ligadas à guerra na Ucrânia e ao setor da Defesa mantiveram as suas posições no governo russo. Valery Gerasimov mantém-se como chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, Alexander Bortnikov permanece o líder do FSB e Sergei Naryshkin continua como diretor dos serviços secretos que operam no estrangeiro, o SVR. Além disso, Vikotr Zolotov e o general Dmitry Kochnev continuam como líderes da Rosgvardiya e do FSO.

Em quase todas as restantes pastas, Vladimir Putin mantém o núcleo duro que tem sustentado o regime ao longo dos últimos anos. Mikhail Mishustin mantém-se como primeiro-ministro, Sergei Lavrov permanece como ministro dos Negócios Estrangeiros e Vladimir Kolokoltsev como ministro do Interior.

As Finanças continuam nas mãos de Anton Siluanov e a Economia com Maxim Reshetnikov. Muda apenas o Ministério da Agricultura, que vai ter Oksana Lut como ministra, o Ministério da Energia, que substitui Nikolai Shulginov por Sergei Tsivilev e o Ministério do Comércio e da Indústria, que vai agora ser liderado por Anton Alikhanov.

“A importância da economia está a aumentar, a cooperação com o gabinete de ministros nesta área é mais intensa”, admitiu o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, enquanto comentava as mudanças que estão a acontecer no seio do Kremlin.

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