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Major-general

A Europa e as suas estranhas e curiosas dependências relativas ao gás natural proveniente do seu recém-declarado inimigo, a Rússia

24 jul, 14:18

A Alemanha é um dos países que melhor domina os processos tecnológicos de fissão e mesmo de fusão nuclear, encontrando-se inclusivamente na vanguarda no que toca ao controlo do processo de fusão nuclear a frio, para fins industriais e tendo em vista a produção de energia elétrica. No entanto, continua a encerrar centrais nucleares e a reabrir centrais termoelétricas alimentadas a carvão e insiste na produção de energia elétrica a partir do gás natural – hoje em dia, ambos muitíssimo mais poluentes e geradores de um aquecimento global não sustentável.

Algo parece não bater certo!

Em plena crise energética, da qual Vladimir Putin teima em retirar vantagens económicas e psicológicas intoleráveis, continuando, agora abertamente, a utilizar as exportações do gás natural russo para a Europa Ocidental como uma arma sancionatória no contexto de guerra. A Alemanha encontra-se ainda, de uma forma pouco compreensível e algo bizarra, empenhada numa transição energética para o gás natural, como fonte privilegiada da produção das suas necessidades domésticas de energia, designadamente a elétrica. Como sabemos este processo de produção de eletricidade está muito longe de ser um processo isento de emissões nocivas de compostos de carbono para a atmosfera, entre outros. É tudo menos verde – muito embora as taxas de emissão sejam significativamente inferiores às produzidas pelo carvão ou as ramas petrolíferas. Nada disto se percebe em termos ecológicos, em termos económicos, e menos ainda em termos da sua política de segurança externa. Sobretudo, sendo a Alemanha a maior potência económica da Europa e a terceira a nível mundial.

A Alemanha do SPD, ao que parece por uma questão ideológica e de política interna, encontra-se, ainda hoje, num processo de encerramento das suas centrais nucleares. Tanto quanto conseguimos apurar já terá encerrado várias e estará em vias de encerrar as poucas que ainda se encontram em funcionamento. Um processo encetado, depois de Fukushima, pela CDU de uma Angela Merkel insuspeita de quaisquer proximidades com o Kremlin. Um processo que, com uma perigosa guerra em curso, está a ser mantido por um partido que sempre se mostrou ser Russlandversteher (que compreendem a Rússia; lembremo-nos do caso do antigo Chanceler Gerhard Schröder, que aceitou associar-se ativamente à Gazprom...) alienando no processo os seus parceiros de coligação, os Verdes. Que pressões estará o Chanceler Olaf Scholz a sofrer? Tem medo de quê? Não verá as reações externas e internas que tudo isto induz?

A Alemanha é um país que tem outras soluções para suprir as suas necessidades energéticas imediatas, contínua, a meu ver, de forma pouco racional a apoiar e indiretamente a financiar o esforço de guerra russo.

Ao mesmo tempo, e neste capítulo, a alemã e Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que sempre pareceu firme e crítica de Scholz nesta e noutras frentes, vem propor aos outros países da União Europeia um esforço de poupança de 15% dos seus consumos de gás natural, para eventualmente estas poupanças poderem ser utilizadas pelos países mais dependentes do gás russo. Como sabemos esta proposta foi mal recebida designadamente pelos países do sul da União Europeia (a maioria dos quais depende pouco ou nada do gás proveniente da Federação Russa), entre os quais Portugal e, em meu entender, de forma inteiramente compreensível. Apesar de tudo, as reservas alemãs de gás natural – no corrente mês de Julho tem um stock de 149.28 Terawatts por hora, contabilizando assim reservas de 61.5% de reservas asseguradas que lhe permitem sobreviver o próximo Inverno sem grandes abalos... tendo ainda a hipótese de ir buscar gás natural a várias outras fontes. O que se passa?

Se olharmos para um quadro macro, a surpresa torna-se ainda maior. A título de exemplo comparativo, e porque existem outras soluções, a Inglaterra, decidiu aumentar a sua capacidade de produção de energia elétrica a partir de centrais nucleares, pois anunciou pouco depois do eclodir da guerra na Ucrânia que iria aumentar significativamente o número de reatores nucleares em funcionamento. Todos sabemos que nas atuais condições de segurança esta fonte de produção de energia elétrica pode ser considerada entre as mais limpas e por conseguinte contribui de forma decisiva para a tão desejada descarbonização do nosso planeta.

A Itália é outro bom exemplo de uma excessiva dependência do gás natural russo, sobretudo tendo em conta que a sua proximidade ao norte de África lhe abriu no passado, abre no presente e lhe abrirá no futuro uma fácil diversificação de fontes de fornecimento deste tipo de combustível fóssil: da Argélia e o Golfo da Guiné, ou/e à Venezuela, as alternativas abundam. Berlim não sabe?

Se não sabe, acabará por aprender à sua própria custa. Ao que parece e face às últimas declarações do Ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e outras caixas-de-ressonância habituais do Kremlin como Dmitri Medvedev‎, Razam Kadirov ou mesmo Igor Girkin, se quisermos lograr uma solução de paz duradoura na Europa, face ao incrementar da voragem expansionista russa, vamos mesmo ter de deixar de importar gás natural da Federação. Teremos de diversificar as fontes de abastecimento e muito provavelmente, desta vez sem tabus, colocar de novo em cima da mesa a opção pelo nuclear. A Sérvia do recém reeleito Aleksandar Vučić (um amigo de Moscovo) já o fez, com financiamento russo. A Hungria de Victor Órban quer do mesmo e quer continuar com uma boa relação com o cada vez mais sinistro Vladimir Putin...

Os alemães querem realmente pisar o risco? Parece que sim... E sem necessidade que se vislumbre para tal. Voltemos às alternativas. Adicionalmente a aposta definitiva e sem hesitações na produção industrial e em larga escala do hoje designado hidrogénio verde, conseguido através da hidrólise da água à custa da energia produzida em parques de grandes dimensões cobertos de painéis solares de última geração, é algo que terá de ser colocado o quanto antes em marcha. Este sim é um investimento seguro, conferindo à União Europeia verdadeira independência energética; contribuindo decisivamente e em simultâneo para a descarbonização do planeta. Como sabemos o resultado da combustão do hidrogénio é simplesmente água – (H2O) – sob a forma de vapor.

Trata-se de uma questão estratégica. A Europa, hoje, não pode continuar refém dos bons ou maus humores, das boas ou más vontades dos grandes produtores de combustíveis fósseis. E muito menos dos da Rússia. As soluções estão à vista. Felizmente os países da Europa do Sul têm suficientes dias de sol, durante o ano, para possibilitar a produção a preços competitivos e em quantidades satisfatórias de hidrogénio para substituir as dependências energéticas dos combustíveis fósseis no médio ou mesmo no curto prazo, assim exista a necessária vontade política! O conhecimento científico e a tecnologia aqui estão, disponíveis para acabar de vez com esta vulnerabilidade estratégica que condiciona fortemente a liberdade de ação política da Europa e que urge emendar de uma vez por todas. Beneficiar o infrator não é decerto uma boa ideia.

Chegou a altura de acordar.

A parada é alta, porventura a maior desde 1945. Não está só em causa a Europa, o “Ocidente alargado” e a ordem internacional vigente. Falta mais. Trata-se de uma questão de simples bom senso. As precauções a tomar neste plano parecem-me óbvias. Olhemos a questão do avesso: continuar a engordar desmesuradamente a economia e as finanças de uma unidade geopolítica que acabamos de classificar como inimigo no recém-aprovado Conceito Estratégico da NATO, em Madrid não é seguramente uma boa estratégia. Continuar agora, a várias vozes, a tentar empurrar responsabilidades para os Estados sul e centro-europeus dispostos a assumir os riscos necessários para defender a Democracia não parece ser uma atitude correta e muito menos coerente. As grandes empresas ocidentais da área energética, incluindo as dos hidrocarbonetos, já o perceberam e estão a corrigir o tiro.

Os alemães ainda não?

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