A grande maioria dos portugueses diria que, se Portugal fosse invadido por uma potência que nos quisesse subjugar, nos deveríamos defender. Mas, se perguntarmos se cada um de nós estaria disposto a “dar a vida pela Pátria”, a adesão seria naturalmente menor e o número de objetores de consciência cresceria por conveniência
Circulam muitos vídeos nas redes sociais de ucranianos a serem apanhados nas ruas por militares do TCK (Centro Territorial de Recrutamento) e a serem arrastados, contra a sua vontade, para carrinhas, para depois receberem formação de combate e executarem funções militares. Apesar de serem amplificados por muitas páginas pró-russas, muitos desses vídeos não são produto de inteligência artificial. São a dura consequência de uma guerra real, em que o medo de morrer é humano.
Um dos maiores dilemas das guerras de grande dimensão é saber quem as combate. Nestes casos, a necessidade de combatentes supera largamente o efetivo militar em tempo de paz. São utilizadas diferentes estratégias de captação de voluntários, seja através da importância atribuída à defesa do país, do prestígio ou das condições remuneratórias. São vários os cartazes espalhados pelas cidades a apelar ao recrutamento.
No entanto, por muito romantizada que seja qualquer guerra, todos sabem que ela envolve um considerável risco para a própria vida. Daí que o voluntarismo nunca seja suficiente para preencher o efetivo necessário. A primeira vez que estive na Ucrânia, em 2022, vi muitos ucranianos que tinham regressado ao seu país para o defender, tal como outros que saíram, legal e ilegalmente, e estrangeiros que decidiram ir combater.
Aqui na Ucrânia, os homens em idade de mobilização, de momento dos 25 aos 60 anos, não podem sair do país e podem ser chamados às Forças Armadas caso sejam considerados aptos e não tenham direito a nenhum adiamento ou exceção. As exceções prendem-se com problemas de saúde, situações familiares, como ter sob a sua tutela um filho com deficiência ou ter três ou mais filhos menores, determinados estudantes, o desempenho de certos cargos públicos e o exercício de trabalhos considerados essenciais. Aliás, muitos desses trabalhos passaram a ser mais procurados precisamente por garantirem o adiamento da mobilização.
Dada a grande digitalização do país, os cidadãos podem aceder, através de uma aplicação governamental, à sua situação militar e até voluntariar-se para diferentes Brigadas. Para a maioria, funções de retaguarda ou como operadores de drones são preferíveis a integrar a infantaria na linha da frente. As condições remuneratórias estão a ser melhoradas, sobretudo para as funções de maior risco, mas tal tem funcionado mais como uma justa remuneração do que uma verdadeira capacidade de atração.

A população está consciente da necessidade de assegurar o esforço de defesa do país e não tem ilusões quanto à vontade da Rússia de continuar a agressão. Mas, quando o sacrifício é exigido ao próprio ou a alguém próximo, muitas vezes a análise é diferente.
Parece uma contradição difícil de entender, mas coloquemos a situação hipotética no nosso país.Também em Portugal, a Constituição consagra a defesa do país como dever fundamental, apesar da ressalva relativa aos objetores de consciência e aos inaptos. Em caso de Portugal sofrer uma invasão, cenário felizmente pouco realista no presente, os cidadãos poderão ser mobilizados, cumprindo-se os pressupostos legais.
A grande maioria dos portugueses diria que, se Portugal fosse invadido por uma potência que nos quisesse subjugar, nos deveríamos defender. Mas, se perguntarmos se cada um de nós estaria disposto a “dar a vida pela Pátria”, a adesão seria naturalmente menor e o número de objetores de consciência cresceria por conveniência.
Já fiz essa pergunta a vários amigos e as respostas são muito semelhantes: “Não tenho perfil militar”, “apoiaria noutras funções”, “não daria a minha vida pelo Estado”, “protestaria contra a invasão” e “iria para outro país”. Desde os que têm “Patria o Muerte” em póster e dizem querer “combater” os inimigos da democracia, até aos que usam e abusam de símbolos nacionais para uma agenda nacionalista, a disponibilidade tida como altruísmo não tem uma relação linear com o espectro político ou com a retórica.

As nossas sociedades têm medo, como é natural. Fomos ensinados a preservar a vida como o valor mais supremo, e a Rússia sabe como explorá-lo. Talvez por isso muitos acreditem nas narrativas de que basta uma das partes querer a paz. Os ucranianos não escolheram esta guerra e não basta cantarem John Lennon à volta da fogueira para que o fogo russo cesse.
As guerras fazem-se enquanto compensar aos agressores prosseguir fins políticos por meios militares. Mas é inegável que, para esse custo se tornar insuportável para o agressor, perante a inexistência de uma comunidade internacional funcional, a vítima sofrerá também um custo elevadíssimo se o quiser travar.
Se a Ucrânia pretende manter a sua legítima defesa, não sendo socorrida por uma coligação internacional com presença humana na frente, sabe que terá de continuar a mobilizar e que o custo humano é elevado. As autoridades ucranianas têm repetidamente alertado para a necessidade de manter um elevado fluxo de novos militares, enquanto a Rússia continua a aumentar a sua capacidade de recrutamento e mobilização. Budanov, Chefe de Gabinete do Presidente, referiu há dias que a Ucrânia teria que mobilizar mais de 30 mil homens por mês, e Khmara, o novo Ministro da Defesa, apesar de defender um sistema mais eficiente não baseado em quantidade, não foge desses números.
Há uma ideia também um pouco romantizada, mesmo no seio da sociedade ucraniana e que Federov amplificava, de que a tecnologia empregue ao serviço da defesa irá aliviar a necessidade de mobilização. Mas, mesmo com a evolução tecnológica de ambas as partes, o número de forças terrestres não diminuiu, até porque a frente de combate é bastante extensa.
A realidade é bem mais cruel.

Enquanto a Ucrânia assegurar a sua legítima defesa e responder a esta agressão ilícita essencialmente com os seus próprios militares, serão mais as famílias que sofrerão como ninguém com a guerra. Famílias que, além de correrem para um abrigo, têm o coração nas mãos a temer pela vida dos seus que estão a combater e que sofrem por antecipação pelo dia em que as notícias não chegam.
Tenho testemunhado vários destes casos: pessoas numa angústia permanente por terem alguém próximo na linha da frente; mães que perderam os seus filhos e que nem o seu corpo conseguiram recuperar para poderem iniciar o luto; mulheres de militares desaparecidos que protestam por mais informações, empunhando as fotografias dos seus maridos; filhos que não sabem se os pais voltarão a casa.
E, no meio disto tudo, muitas vezes só vemos as lágrimas dos que ficaram, não a dor dos que partiram. A vida dura de quem dá a sua vida, passando tempos incontáveis em cenários hostis, sob perseguição de drones e, muitas vezes, sem abastecimento adequado de comida. A esses, uma condecoração, uma promoção ou serem apelidados de heróis não lhes atenua o sofrimento.
Os que sobrevivem vêm com mazelas físicas e traumas psicológicos que mudarão para sempre a sua vida. Não será fácil a sua reintegração numa sociedade pacífica. Não serão mais cidadãos do que os outros que não deram a sua vida pelas liberdades de que ambos gozam, mas continuarão a ter desafios que os outros não sentem.
O sentimento de injustiça é dos mais difíceis de suportar e pode criar atritos na sociedade. É por isso que, mesmo que a Ucrânia tenha de manter uma mobilização elevada, terá de saber encontrar formas para que o sistema de recrutamento, apesar de trazer sempre anseios, não seja demonizado.
As consequências já estão à vista, com ataques a militares do TCK, um agente foi morto com uma faca em Lviv há uma semana, e várias viaturas vandalizadas. A consciência de que ser recrutado pode significar enfrentar a morte de perto não vai desaparecer, mas muito à volta pode ser melhorado.
Há várias perguntas que não consigo responder totalmente.
Fará sentido manter um critério de seleção dito aleatório de mobilização nas ruas, que possibilita a arbitrariedade dos agentes? Sistemas mais transparentes são mais confiáveis. A digitalização tem facilitado uma análise mais objetiva, mas o facto de os cidadãos estarem dependentes de uma apreciação subjetiva de militares faz com que um homem em idade de mobilização tenha, muitas vezes, medo de andar na rua.
Como poderá ser sancionado o uso de força desproporcional? Muitas das interações violentas resultam de resistência, também ela violenta. O sistema de bodycams apoia a garantia de legalidade, mas a população tem de sentir que o uso de força excessiva é sancionado. Essa atuação de colocar à força, no meio da rua, pessoas mobilizadas já foi apelidada, de forma pejorativa e satírica, de “Busification” pelos ucranianos. É o sistema em vigor, mas poderia ser melhorado.
Um sistema híbrido que se socorresse, por exemplo, de um sistema de lotaria baseado nas datas de nascimento, como aquele que os EUA utilizaram durante a Guerra do Vietname para determinar a ordem de convocação, teria potencial para ser considerado mais justo pela sociedade e poderia ajudar a controlar melhor os inúmeros casos de corrupção reportados.
Na guerra de 2026, são menos os soldados que batem à porta da Guerra, disponibilizando-se como na sátira de Raul Solnado. A guerra mata e muitos não querem morrer.
Esse medo não se dissipa. Mas o sistema que lida com ele talvez possa ser diferente, mesmo que nunca possa ser pacífico um sistema de guerra.
Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal
