Exclusivo: reportagem dentro do Azovstal, o último reduto dos combates entre russos e ucranianos em Mariupol

24 abr, 18:45

O jornalista Bruno Amaral de Carvalho conseguiu chegar, juntamente com outro jornalista italiano, ao complexo fabril do Azovstal. Chegaram lá sozinhos. Uma reportagem exclusiva TVI/CNN Portugal

Caminhamos com todo o cuidado. Ao fundo desta rua, há uma ponte que liga ao coração do Azovstal. Com a cidade de Mariupol praticamente controlada pelas tropas russas e de Donetsk, este é o último reduto das forças ucranianas. Compostas sobretudo pelo Batalhão Azov, estes homens sobrevivem nos subterrâneos do gigantesco complexo industrial de 11 quilómetros quadrados.

Pode haver franco-atiradores ou balas perdidas dos disparos que ouvimos de vez em quando. Protegemo-nos atrás de um barracão, enquanto observamos constantes ataques aéreos russos sobre o Azovstal. São bem visíveis as colunas de fumo que saem de vários pontos da enorme zona fabril. Somos os únicos jornalistas neste lugar - um português e um italiano. Só a ponte nos separa do Azostal. Chegámos aqui sozinhos apesar dos alertas de alguns moradores mas parece que temos companhia. Do outro lado da rua, vários soldados russos entram numa oficina de automóveis de armas em riste e posicionam-se junto a um muro donde disparam em direcção ao Azovstal. São momentos de grande tensão que conseguimos acompanhar de perto. Temos de fugir para dentro de uma oficina. É daqui que que tentamos gravar as explosões sucessivas. Ao nosso lado, um dos soldados russos está visivelmente entusiasmado com os bombardeamentos. "Patriotas ucranianos, rendam-se!".

Aqui não podemos avançar mais e decidimos visitar a zona industrial a partir de uma das partes já tomadas pelas forças russas e separatistas. Aqui há alguns pavilhões abandonados pelos soldados ucranianos. Cá fora, encontramos o cadáver de um civil com vários dias e são bem visíveis os sinais de uma batalha sem tréguas pela conquista desta parte da cidade. Tanques destruídos e vários lança granadas anti-tanque espalhados pelo caminho são vestígios de um combate que nesta parte da zona metalúrgica parece ter terminado. Dentro de um dos pavilhões, o silêncio contrasta com o cenário de há apenas uma semana. Vemos sinais de bombardeamentos e combates entre enormes máquinas de produção industrial a larga escala. É também esta uma guerra pelo controlo estratégico de uma região mundialmente conhecida pela extração mineira e pela produção de aço. As consequências para a indústria local são, para já, incalculáveis.

O porto de Mariupol foi outro dos últimos redutos das forças ucranianas até há bem pouco tempo. Até à semana passada ainda se ouvia artilharia nesta zona da cidade. Sem sabermos muito bem o que íamos encontrar, decidimos regressar à linha férrea que separa o Azovstal do porto para nos aproximarmos deste ponto estratégico de Mariupol. Não há um único comboio que não tenha uma marca desta guerra.

Ao longe, o Azovstal continua em chamas e ouvimos permanentes explosões. Do outro lado da linha férrea, encontramos uma língua de areia que não nos atrevemos a pisar. Pode ser uma zona minada e no fundo das escadas que dão acesso a esta pequena praia há um corpo. Uma receção macabra que nos faz lembrar que apesar do céu azul e do mar calmo, esta é uma guerra que deixa vítimas por todas as partes. Tomamos a decisão de caminhar junto à linha férrea. Pisamos apenas as traves e os carris. Não esquecemos a senhora que tivemos de socorrer na semana passada depois de ter sido vítima de uma mina. Encontramos um porto de recreio e algumas pessoas a pescar. Tentam matar a fome com algo fresco.

Na nossa caminhada rumo ao porto, encontramos um idoso que nos quer falar da guerra e dos seus responsáveis. Recorda que o conflito não começou em Fevereiro e que todos deviam ter feito a sua parte para evitar esta escalada.

Vitaliy Korolev, de 89 anos, diz-nos que o que está a acontecer em Mariupol é um "desastre" e culpa russos e ucranianos.

"Acho que tanto a Ucrânia como a Rússia são as grandes culpadas. Não são os territórios os culpados mas, maioritariamente, as autoridades. Era possível fazer tudo isto com pouco sangue. E a Ucrânia é culpada por não ter havido progresso na implementação dos acordos de Minsk durante oito anos". E despede-se, sem demora: "Fiquem bem, rapazes". 

A alfândega do porto de Mariupol está destruída e terá sido usada pelas forças ucranianas para resistir às investidas russas. Pelo caminho, encontramos várias pessoas que carregam sacos de arroz e cereais. Estes dois jovens não querem dar a cara mas mostram-se indignados com as autoridades ucranianas. Há pavilhões cheios de comida que nunca foram distribuídos pela população. A chegada ao porto é feita sem qualquer sinal de combates. Esta zona está controlada totalmente pelas tropas russas. Podemos ver a maquinaria pesada da estiva e vários navios, alguns semi-afundados. É o caso deste barco de patrulha ucraniano. Tentamos captar mais imagens mas vários soldados dizem que é zona reservada e que devemos abandonar o porto. Para trás fica uma cidade que procura agora lamber as suas feridas e reconstruir o que está destruído.

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