Era um destino popular para as férias dos russos. Já não é mais e a população começa a ressentir-se
Quando a Rússia anexou a Crimeia em 2014 ninguém pareceu fazer grande caso disso. O Kremlin dava o primeiro passo para um plano maior, mas na Ucrânia a resistência foi parca. Só que Kiev nunca esqueceu o que aconteceu e Volodymyr Zelensky foi claro desde o dia um da invasão total: o território é para recuperar, e isso também inclui a península.
Antes de o fazer, sabe o presidente da Ucrânia, há que atingir o território de outra forma, até porque se trata de uma coqueluche para Vladimir Putin e para a elite da Rússia que gosta de passar férias no Mar Negro.
E é precisamente esse modo de vida que a Ucrânia está a atingir. Com os drones e mísseis a chegarem à Crimeia, a primavera já foi notoriamente menos movimentada, algo que está a acontecer também no verão.
De acordo com o The Guardian, que falou com residentes da península, vários turistas russos têm cancelado as marcações de férias que tinham feito anteriormente.
O problema nem são só os ataques, mas também as consequências do mesmo. Há muito menos petróleo, por exemplo, o que está a deixar a Crimeia numa situação de escassez alarmante, provocando sérias dificuldades aos negócios locais, desde hotéis a restaurantes.
Neste momento há vários locais que têm o abastecimento de água ou eletricidade cortados durante grande parte do dia. Uma situação particularmente complicada no pico do verão.
“Durante 12 anos disseram-nos que a Crimeia estava 100% protegida”, refere Marina, que é dona de um alojamento em Yevpatoria, uma cidade conhecida pela praia, mas que vive o momento mais difícil desde que a península passou a ser parte da Rússia.
“Em apenas um mês fomos atirados para a Idade da Pedra. Sem eletricidade, sem água, sem combustível”, lamenta a empresária, em declarações reproduzidas pelo The Guardian.
A atacar primordialmente a norte, nomeadamente em Moscovo e São Petersbursgo, a Ucrânia não se tem esquecido da Crimeia. Operações simbólicas, claro, mas também de real importância militar, já que ali estão importantes ligações marítimas.
O que a Rússia europeia sente de forma generalizada por estes dias é o que a Crimeia já atravessa há várias semanas, o que obrigou mesmo à declaração do estado de emergência e a uma reunião de urgência no Kremlin, sendo que até Vladimir Putin admitiu que havia problemas.
Por estes dias mais de 70% dos residentes da Crimeia, que tem perto de 2,5 milhões de habitantes, sofrem com falhas energéticas, segundo a análise do The Guardian. Muitos deles têm mesmo dias consecutivos sem eletricidade ou água canalizada.
E esta é uma situação que parece estar a caminho de ficar pior antes de melhorar. A sensação entre a população é de abandono e frustração, já que a Rússia não consegue fazer face à intenção da Ucrânia, que quer tornar a Crimeia uma “ilha”.
“Estamos a sobreviver, não a viver”, admite um habitante da Crimeia, onde os festivais, campos de verão ou eventos de praia que antes enchiam as várias cidades têm sido cancelados.
“As autoridades continuam a insistir que a Crimeia está pronta para qualquer coisa. Literalmente qualquer coisa. Parece que as autoridades falharam na preparação para o pior”, lamenta Aleksei, um natural da Crimeia que até apoiou a anexação em 2014, mas que vê o restaurante vazio perante a ausência de turistas.
“As pessoas estão à caça de combustível como se fossem os ‘Jogos da Fome’”, reitera.
Este residente não dá o apelido com medo de represálias, tal como fazem milhares de habitantes que se protegem com contas falsas nas redes sociais. É sobretudo no Telegram que encontramos relatos de insatisfação. Foi também lá que foram criados grupos para partilha de dicas, nomeadamente de como poupar combustível ou para partilhar os locais com menores filas para abastecimento.
“Belogorsk está sem eletricidade há mais de 70 horas e tudo o que temos são promessas”, pode ler-se num dos comentários que é dirigido às autoridades.
A sentir a pressão por dentro, em casa, Vladimir Putin começa a ter um problema aparentemente ainda mais sério lá longe. Resta saber se conseguirá estancar a ambição da Ucrânia. A tal que promete tornar a Crimeia numa “ilha”.
