Dia decisivo para a Ucrânia chega no meio de um caos que pode funcionar nos dois sentidos

CNN , Nick Paton Walsh
22 jan, 08:41
Soldado ucraniano durante disparos contra posições russas na frente de Bakhmut (Libkos/AP)

ANÁLISE || Encontros em Moscovo e em Davos intensificam a procura pela paz, mas o Kremlin pode ver na precipitação de Donald Trump uma oportunidade

Uma vez dissipada a fanfarronice e a postura belicosa, a Europa fica a braços com a guerra de hoje, não com a que provavelmente não acontecerá amanhã.

A insistência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em não tomar a Gronelândia pela força e o seu anúncio de um súbito “acordo” devem atenuar os receios de que uma invasão e ocupação em grande escala dos Estados Unidos esteja iminente. Mas os danos provocados por este episódio de ataque à Europa e de avareza colonial aberta são reais e duradouros.

Havia esperanças de que Davos reunisse Trump com os principais líderes europeus e com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em torno de um acordo de “prosperidade” de 800 mil milhões de dólares para uma Ucrânia em tempo de paz e para cimentar as garantias de segurança dos EUA para Kiev. Não foi o que aconteceu. Num discurso divagante que durou mais de uma hora, Trump referiu a presença de Zelensky e do presidente francês Emmanuel Macron na audiência quando, na realidade, ambos se mantiveram afastados, por considerarem pouco provável o avanço para a paz.

Será mais preocupante que Trump tenha pensado que Macron estava sentado à sua frente quando troçou do seu sotaque e dos seus óculos, ou que o homem que lhe chama “Querido Donald” tenha regressado a Paris, após uma semana de azedume?

A equipa de Trump não lhe disse que Macron e Zelensky tinham faltado ao seu discurso, ou ele esqueceu-se que tinham faltado?

Estas são agora algumas das dúvidas mais pequenas que assolam as próximas horas em Davos.

Zelensky terá de correr de Kiev para chegar à reunião desta quinta-feira - uma longa viagem de comboio seguida de um curto voo do sul da Polónia, uma viagem que um líder em tempo de guerra com uma crise energética nas mãos e um alvo na cabeça não deveria ter de fazer à pressa.

O que vai receber Zelensky à chegada é mais preocupante: um presidente dos EUA hostil e imprevisível que parece eviscerar de forma irreverente os aliados de longa data do seu país, escarnecer dos seus líderes e depois achar que tem aversão a turbinas eólicas. Trump repetiu a sua afirmação de que o presidente russo, Vladimir Putin, queria um acordo sobre a Ucrânia - apesar das poucas provas públicas que o sustentam - e que Zelensky também o queria. Steve Witkoff, o enviado-presidencial para a guerra, deverá voltar a encontrar-se com Putin esta quinta-feira, possivelmente depois de uma reunião entre Trump e Zelensky em Davos. O caos da última semana diminui radicalmente as já escassas hipóteses de um verdadeiro acordo de paz.

Nos últimos meses, Zelensky tem visto a necessidade de manter o processo de paz - de levar por diante o atual conjunto de projetos de documentos, mostrando que a Ucrânia é flexível, está disposta e deseja encontrar resultados para Witkoff. A última versão do acordo - apresentada no final de dezembro - deixou algumas questões fundamentais por resolver, sugerindo que qualquer paz deixaria as linhas da frente como estão, com quaisquer concessões ou trocas de terras (relativamente pequenas) a serem submetidas a um referendo na Ucrânia. Partes do Donbass sob controlo ucraniano poderiam tornar-se “zonas económicas especiais”. Para além destes espinhos territoriais, Zelensky afirmou que a proposta de divisão tripartida da central nuclear de Zaporizhzhia entre os EUA, a Rússia e a Ucrânia continua a ser um grande obstáculo.

Qualquer progresso em Davos teria como pano de fundo o facto de Trump ter minado durante uma semana a soberania europeia e a aliança transatlântica, por muito rapidamente que isso parecesse resolvido esta quarta-feira. No mundo dos negócios de Nova Iorque, com meros advogados a seu lado, pode pedir-se muito na esperança de se conseguir um pouco. Em geopolítica, não se pode, especialmente quando a sua grandiosidade é apoiada pelo exército mais poderoso da história. Será que Trump não espera ser levado a sério? Fica zangado quando não é? Ou será que por hora vacila entre as duas posições?

No entanto, o caos pode funcionar nos dois sentidos. Os acordos que Trump procura na Ucrânia exigem que Kiev confie que as suas concessões não a deixarão exposta nos próximos meses. Da mesma forma, a Europa precisa de sentir que a sua dependência de Washington como mediador e garante da segurança funciona a seu favor. As suas opções sem os Estados Unidos são sombrias e onerosas. Mas a Ucrânia sobreviveu aos horrores do ano passado e as suas linhas da frente não se desmoronaram. Muitos dos líderes europeus não se encontraram com Trump em Davos. A tolerância da Europa não é infinita, como Trump conseguiu provar. Da mesma forma, o mandato de Trump não é ilimitado, e as eleições intercalares podem abrandar a onda de omnipotência desenfreada da Casa Branca.

A América de Trump precisa de aliados. Atualmente, ameaça grande parte do hemisfério ocidental com ações militares, enquanto troça da Europa pelas suas críticas e fraqueza. Moscovo está, até agora, a rejeitar os seus pedidos de paz sobre a Ucrânia. A China e a Índia estão a manter uma espécie de distância. Make America Great Again não é o mesmo que Make America Great (but) Alone.

Em Davos, continua a ser possível fazer progressos no sentido de um acordo sobre a Ucrânia. Poderá facilmente expor a intransigência de Moscovo, quando Putin - como a maioria espera - achar que a proposta que lhe é apresentada fica aquém das suas exigências maximalistas. Mas a aliança em torno da Ucrânia atravessou talvez a sua semana mais perigosa desde a invasão, tendo acabado de ver o homem mais poderoso do mundo aparentemente perder o rumo durante sete dias, planeando uma tomada da Gronelândia com um benefício económico e estratégico mínimo.

Putin notará, no mínimo, a incoerência moral de Trump, a sua política inconsistente e a sua satisfação em bater nos aliados. Sim, Trump poderia ser igualmente precipitado na sua abordagem a Moscovo. Mas é provável que o Kremlin veja mais uma oportunidade do que uma ameaça na nuvem de poeira do rasto deste presidente.

Europa

Mais Europa