Conheça os filhos do Kremlin, que vivem nos países que os pais dizem rejeitar. Vidas em universidades de elite, mansões, jatos privados e férias de luxo

CNN , Majlie de Puy Kamp, Yahya Abou-Ghazala e Isabelle Chapman
16 abr, 18:10
Os filhos do Kremlin

Os "filhos do Kremlin" cresceram em países cujas sociedades os pais afirmam rejeitar. Incluindo filhos de Peskov, Lavrov... e de Putin

O céu deles é repleto de jatos privados, apartamentos parisienses requintados, férias de esqui na Áustria e ensino em universidades de elite em Londres e Nova Iorque. 

Os seus pais possuem propriedades imobiliárias de excelência nas avenidas mais exclusivas das capitais da Europa. Os seus perfis nas redes sociais estão cheios de vestidos de marca e eventos de passadeira vermelha. Uma das jovens publicou fotos do seu 22º aniversário à beira da piscina na villa do Mar Adriático de um dos oligarcas de Putin.

Conheça os filhos de Kremlin.

Enquanto os seus pais se opõem publicamente ao Ocidente, os seus filhos crescem nas mesmas sociedades que eles alegam rejeitar.

“Obviamente, é de uma hipocrisia extrema”, diz Daniel Treisman, professor especializado em política russa na Universidade da Califórnia, Los Angeles, nos Estados Unidos.

“Eles podem nem sequer ver uma contradição nisto”, acrescenta Treisman. “Eles acreditam que existe esta competição entre os EUA e a Rússia, mas porque deveria isso afetar os planos educacionais das suas filhas? Ou onde eles têm as suas mansões?”

“O povo russo será sempre capaz de distinguir os verdadeiros patriotas da escumalha e dos traidores, e simplesmente cuspi-los como um mosquito que voou acidentalmente para dentro da sua boca”, afirmou Putin.

Os EUA sancionaram recentemente o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, a sua mulher e os dois filhos adultos, dizendo que eles vivem “estilos de vida luxuosos que são incompatíveis com o salário do serviço público de Peskov”.

Uma das primeiras famílias de alegada corrupção e hipocrisia russa é a de Dmitry Peskov, chefe-adjunto de gabinete e porta-voz de Vladimir Putin, aquele que quase diariamente distribui o ácido sulfúrico da linha dura do Presidente russo contra o Ocidente.

Recentemente, os Estados Unidos sancionaram Peskov, a sua mulher e os dois filhos (de dois casamentos anteriores), afirmando que a família vive “estilos de vida luxuosos que são incompatíveis com o salário de funcionário público de Peskov e que são provavelmente construídos com base na riqueza adquirida a partir de ganhos ilícitos das ligações de Peskov a Putin”. Pelo menos dois dos seus filhos foram criados em grande parte na Europa Ocidental, antes de regressarem a Moscovo na idade adulta.

Embora o Tesouro dos Estados Unidos não tenha explicitado os excessos questionáveis, a investigação da Fundação Anticorrupção (fundada por Alexei Navalny, líder encarcerado da oposição russa) concluiu que Peskov, que exerceu o seu cargo durante quase uma década e terá ganho por volta de €158.606 em 2020, foi visto a usar um relógio de marca de €550.000 e viajou em lua-de-mel num iate com o custo de €394.225 por semana, na costa da Sardenha.

Com base nos registos de propriedade, nas bases de dados de infrações de tráfego e em publicações nas redes sociais, a Fundação Anticorrupção também revelou que a esposa, a ex-mulher e os filhos de Peskov possuem veículos de luxo e casas multimilionárias em todo o mundo, incluindo na Rússia e na França. Uma demonstração de riqueza em forte contraste com os quase 20 milhões de russos que vivem na pobreza.

A impressionante, mas aparentemente inexplicável, riqueza de tais famílias no mundo de Putin, resume-se a um único conceito, dizem os especialistas: cleptocracia.

“A cleptocracia é meramente um governo que é governado por ladrões”, afirma Jodi Vittori, professora da Universidade de Georgetown e especialista em corrupção e política global, “onde as políticas e decisões tomadas são em nome desses mesmos ladrões”.

Uma teia complexa de empresas-fantasma, bancos offshore e transações furtivas escondem muitas vezes as suas fortunas, com contas dentro umas das outras, tornando-se complicado rastrear de onde vêm os fundos.

Riqueza acumulada pelos cleptocratas russos é frequentemente gasta em economias do Ocidente

“Eles querem viver no Ocidente porque é onde estão os países mais ricos do mundo. Os extraordinários centros de cultura estão no Ocidente.”, explica Treisman. “Mas além disso, os países ocidentais têm um Estado de direito muito mais seguro do que a Rússia. Assim, se conseguirem passar grande parte do seu dinheiro para o Ocidente, sentem-se mais seguros”.

A hipocrisia dos funcionários russos e das suas famílias a desfrutarem da grandeza do Ocidente tem sido um segredo aberto na Rússia durante anos. Em 2016, foi apresentado à Duma um decreto que proíbe a educação de menores de idade da maioria dos funcionários russos em universidades estrangeiras, alegando que a educação nacional é a chave para se tornarem verdadeiros patriotas. O decreto-lei não foi aprovado.

Elizaveta Peskova, a filha de Peskov, de 24 anos, do seu segundo casamento, cujas publicações raivosas nas redes sociais são discutidas nos tablóides russos e europeus, não se afastou das luzes da ribalta nem da controvérsia. A própria afirmou a um canal de televisão russo que se sente “melhor no ambiente europeu”, chamando ao sistema educativo russo um “verdadeiro inferno”.

Recentemente, a jovem contrapôs as declarações públicas do seu pai, ao publicar nas suas histórias no Instagram “não à guerra”, o slogan utilizado pelos russos que se opunham à guerra na Ucrânia. A publicação foi partilhada pelo canal russo TV Rain, e depois retirada rapidamente.

Quando era criança, Peskova alegadamente frequentou a Ecole des Roches nos arredores de Paris, onde a propina anual é cerca de um quarto do salário do seu pai e onde as atividades extracurriculares incluem aulas de aviação. Continuou a sua educação parisiense com um estágio na Louis Vuitton e um curso de marketing de uma escola de negócios francesa. A jovem chegou ainda a estagiar no Parlamento Europeu.

A filha de Peskov de 24 anos, Elizaveta Peskova, cresceu em Paris, onde tem um apartamento multimilionário, com a sua mãe num dos bairros mais caros da cidade. Nesta fotografia de uma das suas publicações no Instagram em 2019, Peskova é vista no Jardim das Tulherias de Paris, descrevendo o seu amor pelo cinema francês. Imagem: Instagram

De acordo com a Fundação Anticorrupção, Peskova e a sua mãe compraram em 2016 um apartamento de 180 metros quadrados de quase dois milhões de dólares, num dos bairros mais caros de Paris, na Avenida Victor Hugo, entre a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo e o deslumbrante Bois de Boulogne. A CNN ainda não confirmou a compra.

A extravagância de Peskova em França é semelhante à do seu meio-irmão na Rússia. Uma investigação realizada em 2017 pelo grupo anticorrupção de Navalny descobriu que Nikolay Choles, o filho mais velho de Peskov que cresceu em Inglaterra, viajou pelo mundo em jatos privados, possuía bens imobiliários de luxo em Moscovo e causava deslumbramento passeando os seus carros luxuosos pelas ruas da cidade, acumulando até 116 infrações de trânsito, enquanto alegadamente estava desempregado.

“Representa certamente um alto nível de cinismo, se não mesmo de pura hipocrisia”, disse Vittori, professor de Georgetown.

Peskova chamou a atenção às sanções e à noção de que de certa forma ela está a permitir que a guerra “totalmente injusta e infundada” aconteça. Disse ainda ao Business Insider que se sente "chateada" devido às novas restrições que a impedem de viajar. Numa declaração no Telegram, a filha de Peskov escreveu que está “orgulhosa” de ser russa e que sancionar jovens adultos, e “especialmente uma rapariga”, é “uma loucura”. “Não há um julgamento justo”, acrescentou ela, “nesta caça às bruxas e ódio frenético a tudo o que é russo”.

Peskova, que, quando abordada pela CNN, não se comprometeu com os detalhes desta história até à data da publicação, não é a única jovem relacionada com o Kremlin a desfrutar da alta sociedade continental.

A "enteada de Lavrov" 

O Ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov, que pediu uma ordem mundial "pós-Oeste" em 2017, enviou a sua filha para universidades prestigiadas universidades em Londres e Nova Iorque.

Até a filha da suposta namorada de Lavrov parece beneficiar da sua posição influente: ela publicou fotografias suas no iate, num resort de esqui austríaco e na praia de um oligarca rico, de acordo com a Fundação Anticorrupção.

Polina Kovaleva, a quem o governo britânico se refere como a “enteada” de Lavrov (apesar de este não ser oficialmente casado com a sua mãe), possui um apartamento de 5,8 milhões de dólares num dos bairros mais caros de Londres, de acordo com as recentes sanções impostas contra ela.

A Fundação Anticorrupção revelou que Kovaleva comprou o apartamento Kensington quando tinha 21 anos de idade. O apartamento fica a uma distância a pé da Imperial College, que frequentou.

A filha muito menos conhecida de Lavrov, Ekaterina Vinokurova, agora com 39 anos, frequentou a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde viveu durante 17 anos, antes de obter a sua licenciatura na London School of Economics. Tanto Kovaleva como Vinokurova foram recentemente sancionadas pelo Reino Unido.

“Isto envia uma mensagem de que aqueles que beneficiam por associação aos responsáveis pela agressão russa podem ser sancionados”, escreveu a secretária dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Liz Truss, num comunicado de imprensa anunciando as sanções contra Kovaleva.

A filha da suposta namorada de Lavrov, Polina Kovaleva - retratada aqui na vila do oligarca Oleg Deripaska, Montenegro, de acordo com a Fundação Anticorrupção - parece beneficiar das conexões de Lavrov com o Kremlin.

O próprio Putin não é exceção à hipocrisia da retórica dura antiocidental face aos membros da família, ou aos que lhe são próximos, que tiram partido do que o Ocidente tem para oferecer.

De acordo com uma investigação do Proekt, uma das suas supostas parceiras, que alegadamente deu à luz uma filha sua, tornou-se proprietária de um apartamento de 4,1 milhões de dólares no Mónaco poucas semanas após o nascimento da criança, com base nos chamados Pandora Papers.

A sua filha mais velha, Maria, terá casado com um empresário holandês. Diz-se que o casal terá vivido num apartamento de 3,3 milhões de dólares nos Países Baixos. Há ainda uma moradia de oito quartos em Biarritz, França, ligada à sua filha mais nova, Katerina, que foi recentemente invadida por ativistas e oferecida como casa de abrigo a refugiados ucranianos.

Ambas as filhas de Putin foram sancionadas pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos na semana passada.

Peskov chamou às novas medidas uma “tendência frenética” de Washington para impor sanções a Moscovo. “A Rússia responderá sem falhas e fá-lo-á como achar conveniente”, acrescentou ele.

Há rumores de que Putin tem mais filhos fora do casamento, e todos terão vivido em países ocidentais. Estes relatos têm sido sempre negados por Kremlin.

Apesar das ligações dos seus próprios familiares com o Ocidente, Putin criticou recentemente outros russos com “villas em Miami ou na Riviera Francesa, que não podem viver sem foie gras, ostras ou liberdade de género, como lhe chamam”.

O problema com esse tipo de pessoas, disse Putin a 16 de março, é que elas estão “lá descontraidamente e não aqui com o nosso povo e com a Rússia”.

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