Conflito na Ucrânia pode provocar "recuo na recuperação" económica portuguesa, mas não "inversão" da trajetória, diz DBRS

Agência Lusa , BCE
6 mar, 10:17
Dinheiro (Getty Images)

Jason Graffam recorda que “Portugal não tem necessariamente a mesma dependência das importações de gás da Rússia que alguns dos seus parceiros da Europa de Leste, pelo que o gás natural não parece ser um grande problema”

A economia portuguesa será afetada pelo conflito na Ucrânia, sobretudo através de efeitos indiretos, de acordo com a DBRS, que, contudo, acredita que não existirá uma reversão na recuperação, ainda que não descarte algum impacto nas finanças públicas.

Em declarações à Lusa, quando questionado sobre o impacto do conflito na Ucrânia na recuperação da economia portuguesa, Jason Graffam, vice-presidente da Global Sovereign Ratings da DBRS Morningstar, assinala “as ligações diretas e indiretas que Portugal tem com a Rússia”.

“Quando pensamos nas ligações diretas são relativamente limitadas, o que ajuda a conter o impacto para Portugal. Por exemplo, Portugal exporta 173 milhões de euros em bens para a Rússia, o que representa 63 mil milhões de exportações totais, cerca de 0,3% do total. E os bens importados são igualmente insignificantes”, disse o responsável da DBRS.

Segundo o analista, o impacto direto também é diminuto para as exportações de serviços, uma vez que o turismo é dominado por turistas europeus e britânicos.

“Assim, as ligações diretas com a Rússia são poucas”, vinca, antes de sublinhar que “são os efeitos indiretos da guerra que serão mais onerosos para Portugal”, nomeadamente através do custo da energia.

Jason Graffam recorda que “Portugal não tem necessariamente a mesma dependência das importações de gás da Rússia que alguns dos seus parceiros da Europa de Leste, pelo que o gás natural não parece ser um grande problema”.

Deste modo, “a vulnerabilidade que parece existir para Portugal é como importador de petróleo”, pelo que “os custos de energia e os custos de transporte aumentaram inevitavelmente com o preço do petróleo bruto”.

O outro impacto indireto, aponta, será “se a invasão da Rússia for um pouco mais duradoura”, em que existirá “uma incerteza geral de guerra que irá pesar sobre as perspetivas de crescimento”.

“Acho que ainda é cedo para avaliar o impacto. A natureza desconhecida e a duração da guerra certamente complicam qualquer previsão efetiva neste momento”, vinca o analista.

Ainda assim, sublinha que são de esperar alguns resultados adversos “se a agressão da Rússia persistir”, identificando a inflação, ligada a poder de compra das famílias mais fraco, os índices de confiança mais baixos e investimentos que poderiam ser adiados, com impacto para a competitividade corporativa.

“Tudo isso pode, com certeza, ter implicações para o crescimento”, admite, assinalando que, desta forma, “a questão é quanto [será o impacto da guerra no crescimento] e quais são as implicações para as projeções e para as finanças públicas”.

No entanto, mantém uma nota de otimismo em relação a Portugal, vincando que é necessário “ter em mente que a perspetiva de crescimento é forte”.

Especialista admite "recuo" na recuperação, mas não "inversão"

“Talvez possa assistir-se a um recuo na recuperação, mas possivelmente não a uma inversão da recuperação”, afirma.

O analista da agência de notação financeira canadiana admite também que o conflito poderá ter impacto nas finanças públicas portuguesas.

Por um lado, através da economia, com uma produção económica menor do que a esperada que levará a menos receitas arrecadas. Por outro, acredita, que “é possível que exista um outro pacote com mais algumas medidas de apoio do governo, se necessário, para compensar as empresas e as famílias devido a esta crise”.

Ainda assim, sublinha que existe espaço orçamental para medidas adicionais de apoio do governo, se necessário.

“E também não acho que devamos descartar um outro pacote da União Europeia ou mesmo a expansão dos programas existentes que ajudem a apoiar em grande escala a economia portuguesa e a economia europeia”, disse, frisando que este “é um choque para o continente. Não é apenas um problema para Portugal”.

A DBRS manteve, em 25 de fevereiro, o ‘rating’ da dívida soberana portuguesa em “BBB” (alto), mas melhorou a perspetiva de 'estável' para 'positiva'.

A agência justificou a melhoria da perspetiva para Portugal com a avaliação de que as vulnerabilidades de crédito do país ligadas à pandemia parecem “estar a recuar, enquanto as perspetivas macroeconómicas estão a melhorar”, um cenário também apontado por Jason Graffam.

O analista da DBRS identifica como principais pontos fortes de Portugal a “forte qualidade institucional” e o “ambiente político estável”, assinalando que tal acontecia já antes da maioria das últimas eleições legislativas.

“Há adesão da maioria dos partidos políticos, especialmente dos dois principais partidos do centro em torno da formulação de políticas macroeconómicas ortodoxas. E isso mesmo antes de os resultados das eleições mais recentes. Mantivemos essa posição durante o governo minoritário”, disse.

O vice-presidente da Global Sovereign Rating aponta ainda para as perspetivas macroeconómicas “realmente fortes”, apesar de vulnerabilidades como o alto nível do peso da dívida pública, que acredita irá voltar à trajetória descendente.

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