Como os vídeos de Zelensky nas redes sociais têm impedido uma invasão mais grave da Ucrânia

9 mar, 10:00
O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky
(AP Photo/Markus Schreiber)

Nos primeiros 13 dias de guerra houve 13 dias de vídeos nas redes sociais em que Volodymyr Zelensky deixa mensagens claras para os ucranianos e para o mundo - e que podem estar a ser um escudo-protetor eficaz na prevenção da escalada do conflito

“Povo ucraniano”, “grande povo da nossa grande Ucrânia”, “povo inquebrável”, “Ucrânia invencível”, “povo unido”, “heróis ucranianos”: é desta forma que Volodymyr Zelensky se tem dirigido aos ucranianos nos vários vídeos que partilha nas redes sociais desde o primeiro dia de guerra. Eles são o principal destinatário, mas há recados para todos: de Putin às tropas russas, da NATO aos Estados Unidos, e ainda umas palavrinhas aos vizinhos europeus. E o tom tem subido.

O presidente ucraniano tem feito uso das redes sociais para passar mensagens de esperança, para apelar à ajuda e para alertar para a escalada do conflito, uma estratégia que em muito difere da de Vladimir Putin, que pouco fala e pouca informação deixa circular no seu país. E é nestas plataformas digitais que Zelensky começa e tenta acabar uma parte da guerra na Ucrânia.

“Ao comunicar com os ucranianos pelos meios que tem e que são disseminados online, Zelensky procura incentivar a resistência, que acaba por estar assente na ideia de nacionalismo e patriotismo e que todos têm de contribuir para a defesa do país”, começa por explicar à CNN Portugal Nélson Ribeiro, doutorado em Estudos de Comunicação e Cultura pela Universidade de Lincoln e diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Nos primeiros vídeos, as palavras foram de esperança na resolução do conflito e de apoio e agradecimento aos ucranianos, mas as investidas repetidas da Rússia têm feito Zelensky mudar o discurso, optando por termos mais assertivos, um tom mais ríspido e uma maior urgência nas palavras que diz - mas sempre com o povo ucraniano e a independência do país no centro discursivo. Uma mudança de discurso quase inevitável numa altura em que as rondas de negociações com a comitiva de Vladimir Putin não têm surtido efeitos e as consequências estão à vista: mortes, destruição, falta de bens e milhares de pessoas a cruzar as fronteiras.

“Isso tem uma carga emocional muito grande da qual é difícil ficarmos indiferentes, não é todos os dias que vemos pessoas num clima de guerra a passar a mensagem de que estão dispostos a morrer por aquilo que acreditam”, continua Nelson Ribeiro.

Para o especialista em comunicação, a forma como Zelensky fala tem sido eficaz na hora de passar a mensagem e, embora as armas sejam mais imediatas nas consequências, acredita que as palavras também podem fazer mossas e proteger. “As palavras são entendidas como armas de guerra e sem esta comunicação, que consegue galvanizar a resistência ucraniana, já teria acontecido uma invasão muito mais grave por parte da Rússia”, frisa Nelson Ribeiro.

As palavras que mais diz. O que significam?

  • Paz

  • Guerra

  • Destruição

  • Escuridão

  • Luz

  • Democracia

Além da frase que ecoa um pouco por todo o mundo - Slava Ukraini [glória à Ucrânia, em português] -, estas são as palavras mais vezes repetidas por Volodymyr Zelensky nos vídeos partilhados nas redes sociais. Para Nélson Ribeiro, o uso recorrente destas palavras deixa “óbvio” que está a usar “um tipo de linguagem que é muito frequente em história de comunicação em situações de guerra”: a que difere o bem do mal.

“São palavras que podem ser separadas em duas caixas, em que uma parte apresenta a Rússia - como guerra, destruição e escuridão - e aquilo pelo qual os ucranianos estão a lutar - paz, luz e até democracia”, explica.

Para quem o ouve fora do território ucraniano, mais concretamente para quem o ouve no Ocidente, o uso desta linguagem “muito dicotómica”, que “é muito frequente em situações de guerra”, deixa claro o objetivo de Zelensky: os países têm de “tomar uma posição - ou estão connosco ou estão contra nós”, esclarece o especialista em comunicação.

A nível interno, ou seja, para quem o ouve na Ucrânia, “o que o presidente Zelensky está a conseguir fazer é utilizar os instrumentos digitais que tem à sua disposição para galvanizar o povo para a guerra, passando a mensagem de que é possível combater o exército russo, passando o heroísmo que ele próprio personifica”.

Em Kiev e sem medo, mas a querer fazer passar uma mensagem além fronteiras

“Não tenho medo”; “não me escondo”; “não vamos desistir”; “não há sangue na nossa bandeira”; “vamos proteger o nosso país”; “eu não mordo”.

Nos seus vídeos, alguns de poucos segundos e outros que chegam a ter oito minutos, são muitas as frases que captam a atenção e que prometem já ficar na história, um resultado da aposta na comunicação direta mas também uma forma de reforçar a sua posição face ao inimigo. A título de exemplo, Zelensky assumiu-se como principal alvo de Putin, mas isso não o fez sair do terreno. Disse mesmo por várias vezes que não iria abandonar a Ucrânia, tendo até rejeitado ajuda dos Estados Unidos. “Eu não preciso de boleia, preciso de munições”, disse.

“Esta linguagem muito assertiva e enfática, muitas vezes é muito emocional, faz com que se ligue connosco mais facilmente”, afirma Nélson Ribeiro, da Universidade Católica Portuguesa, que continua: “Vemos naquele presidente um herói, alguém disposto a morrer por uma causa”.

As palavras de Zelensky - que se espelham no aumento de visualizações e interações nos seus vídeos partilhados no Facebook - parecem servir de incentivo para o povo ucraniano sair à rua para lutar, protestar e proteger os seus - há também estrangeiros que se sentem inspirados e que pretendem defender uma terra que não é sua. E esse é um dos pontos-chave na comunicação feita pelo presidente ucraniano que Nélson Ribeiro destaca: “Tem tido a capacidade de galvanizar os ucranianos e os estrangeiros, há milhares de pessoas que se voluntariaram para combater na Ucrânia pela Ucrânia. Zelensky tem sido eficaz a chegar ao mundo”.

Uma outra estratégia de Zelensky, “naquilo que tradicionalmente se descreve como a guerra de comunicação ou a chamada guerra de palavras”, é a conversação com aliados e a menção a eles mesmos nos seus vídeos. Sem sair de Kiev, “Zelensky desdobra-se nas comunicações sociais, nas chamadas com líderes mundiais, até com o Parlamento Europeu”, refere Nélson Rodrigues, apressando-se a dizer que “todos esses contactos são por ele próprio mediatizados - ele passa a mensagem do ‘eu estou aqui disposto a ir até ao fim’”. E é com palavras que tenta também enfraquecer o exército russo. “Estes [os russos] não são guerreiros, são apenas crianças perdidas”, disse, uma ideia também frisada por Nélson Ribeiro, que diz ser o resultado da má comunicação que acontece na Rússia.

“Temos visto que a Rússia que tem apostado numa comunicação muito mais interna, de falar para a sua própria população, não apresentando isto como sendo uma guerra. Muitos soldados, quando são enviados para a Ucrânia, nem sabem bem o que vão fazer, parece haver uma espécie de ocultação na Rússia sobre aquilo que realmente está a acontecer. É uma comunicação mais de censura, enquanto do outro lado temos mais uma estratégia de tentar recolher apoios através da disseminação de informação”, esclarece o diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica. 

Zelensky endurece o discurso. Cansaço ou emergência de ação?

Embora os apelos à ajuda da Europa e dos Estados Unidos em vários dos seus vídeos partilhados e nas entrevistas que foi dando, como esta em exclusivo à CNN Internacional, Zelensky assumiu um discurso mais urgente. O presidente ucraniano alertou os países ocidentais de que a guerra não vai parar na Ucrânia - e um ataque às liberdades lá afetará o resto do mundo. Para travar um primeiro cenário de caos total na Ucrânia, Zelensky voltou a pedir o encerramento do espaço aéreo ucraniano. “Nós não controlamos o nosso céu”, disse.

O apelo ao encerramento do espaço aéreo já tinha sido feito e num tom ríspido. Há quatro dias, o presidente ucraniano tinha ‘apertado’ com a NATO, acusando-a de “deliberadamente” recusar fechar o espaço aéreo ucraniano, permitindo que os russos continuassem a sobrevoar. E “deliberadamente” é uma das palavras mais usadas pelo presidente ucraniano, sobretudo quando em causa estão as ações russas (e que já estão a ser investigadas), que tem cada vez mais denunciado: “Isto é homicídio. Homicídio deliberado”, disse.

“Ele faz a diferenciação da Rússia da população russa, entre o exército russo e os soldados russos, criou a linha de apoio aos russos, que oferece aos russos sobre os seus familiares [no conflito]. É uma forma de mostrar ao mundo que a guerra não é só entre a Rússia e a Ucrânia, mas entre uma potência que não olha a meios para chegar aos fins e um país mais fraco militarmente mas que tem uma noção de humanidade com a qual nos identificamos”, destaca o também membro do Conselho de Direção do do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (CECC).

 

Nos primeiros discursos, Zelensky apelou à união dos ucranianos e dos europeus, glorificando o papel dos civis no combate, e depois passou a mencionar as conversas que foi tendo com os presidentes de vários países, incluindo Portugal, quase como se estivesse a reforçar junto de Vladimir Putin que tem aliados. Depois começou a assumir uma postura mais ríspida, detalhando a destruição, a magnitude daquilo que considera serem crimes de guerra históricos e falando das vítimas (deu mesmo o exemplo de uma criança que morreu de desidratação, horas depois de a sua esposa Olena Zelenska também ter alertado, nas redes sociais, para a morte de menores no conflito, recorrendo às palavras mas também às imagens). Zelensky passou a usar mais frequentemente termos como terrorismo e homicídio quando se referia à ação russa em território ucraniano. 

Nos seus recentes discursos, o presidente da Ucrânia dirigiu-se várias vezes à NATO, não apenas na questão do encerramento do espaço aéreo ucraniano mas também para pedir proteção, dizendo que é um “dever” do organismo. E o tom vai ficando mais duro: “Todas as pessoas que morrerem a partir de agora será diretamente por culpa vossa [da NATO]”, disse. Esta segunda-feira chegou mesmo a perguntar aos países do ocidente: “Também querem que sejamos mortos muito lentamente?”

“É muito diferente ver um vídeo em que alguém está a pedir ajuda para que a população não seja morta ou aparecer com uma linguagem muito tecnocrata. Os lados humano e emocional estão muito presentes na comunicação que faz, é com estas situações que lida no terreno, ele também percebe que é essa realidade nua e crua que precisa de usar na sua comunicação para chegar a todos”, enaltece Nélson Ribeiro.

Para o especialista em comunicação da Universidade Católica Portuguesa, o facto de Zelensky saber que precisa do Ocidente faz com que esteja a “adaptar” o seu discurso para declarações mais ríspidas, um pouco à boleia da “frustração por querer mais apoio do que aquele que tem, mas mais uma vez fazendo-o com recurso a uma linguagem que é muito emocional” e cujo objetivo mantém-se o de sempre: fazer pressão para que sancionem a Rússia e ajudem a resolver o conflito.

“As palavras têm este efeito, o de dizer aos governos que têm de fazer mais e isso em regimes democráticos é muito importante. Esta guerra de comunicação tem obviamente efeitos difíceis de descrever, não conseguimos quantificar no imediato, mas não tenho dúvidas de que tem efeitos no terreno, tanto do ponto de vista das sanções, da resiliência dos ucranianos em resistir, como também na própria Rússia, em milhares de cidadãos que têm protestado contra a guerra”, conclui.

 

 

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