“Sabes que tudo o que nos disseres será usado contra ti”, avisa o entrevistador da televisão russa a Timur Shagivaleev, o homem por detrás de uma das maiores fábricas de drones do país.
Em vez de evitar discutir os detalhes da fábrica, Shagivaleev responde com uma citação desafiadora, que atribui a um herói soviético da Segunda Guerra Mundial: “Não tens o direito de ter medo.”
De pé na fábrica de Alabuga, entre filas de drones de ataque pretos, triangulares e de design iraniano - conhecidos como “Geran”, em russo - tem todos os motivos para se sentir confiante.
Imagens de satélite mostram que a construção avançou rapidamente neste local, no sul da Rússia. Dezenas de novos edifícios, incluindo aqueles que especialistas acreditam serem dormitórios e instalações de produção, têm vindo a surgir rapidamente desde o degelo do inverno deste ano.
Acredita-se que esta seja a principal fábrica russa de drones de ataque, que é uma parte fundamental da crescente ofensiva de drones do Kremlin sobre cidades ucranianas. Existem agora indícios de que o local está a recrutar adolescentes, não só para a montagem de drones em Alabuga, mas também para trabalhos de construção.
Moscovo decidiu agora divulgar a existência da fábrica bem como o seu contributo para o esforço de guerra da Rússia. Shagivaleev, diretor-geral de Alabuga, apareceu numa série documental, transmitida a 20 de julho no canal televisivo do ministério da Defesa russo. Foi a primeira vez que se pôde espreitar, de forma oficial, o interior das instalações de produção.
O programa sugere que Alabuga, que tem produzido drones Shahed de design iraniano há quase três anos, passou a ter uma linha de produção totalmente local. A expansão está a decorrer tão depressa que os especialistas acreditam que o objetivo final poderá ser o da produção em massa de drones para exportação global.
‘Aumento significativo na produção de drones’
David Albright, antigo inspetor de armamento das Nações Unidas, é o diretor do Institute for Science and International Security (ISIS), um grupo de reflexão sediado nos EUA que acompanha a expansão de Alabuga desde 2022.
À CNN, diz que a decisão de Moscovo em revelar a fábrica mostra que “as autoridades russas estão mais confiantes na sua capacidade de fabricar drones.
“Isto mostra que o governo russo está empenhado em aumentar a produção no local e em contratos de longo prazo, que indiciam que será comprado tudo o que for produzido”, afirma.
Alabuga começou a produzir drones Shahed em 2023 e agora também fabrica versões mais baratas concebidas para servirem como iscos – também conhecidas como “Gerbera”.
O local já estava em expansão quando os ataques russos com drones à Ucrânia começaram a intensificar-se em agosto do ano passado. Contudo, imagens de satélite recentes mostram um crescimento ainda mais acelerado nos últimos meses, à medida que os ataques atingiram números recorde.
Entre o final de 2024 e meados de julho deste ano, imagens de satélite revelam pelo menos oito novas estruturas semelhantes a armazéns em Alabuga, próximas dos edifícios anteriormente identificados como sendo as instalações de fabrico dos Shahed. Várias dessas estruturas ainda estão em construção.
Outro aspeto impressionante, segundo uma análise das imagens feita pela CNN e por especialistas do ISIS, passa pelo que parece ser um grande aumento de habitações para trabalhadores no local.
Uma imagem de 12 de julho mostra pelo menos 104 edifícios retangulares idênticos, total ou parcialmente construídos, com um formato semelhante às estruturas existentes que eram conhecidas como dormitórios de trabalhadores. Nas imagens de fevereiro, existiam apenas 15 desses edifícios. Os trabalhos nas novas construções parecem ter começado em março, com a chegada da primavera e o desaparecimento da neve.
Há também sinais de que a construção acelerou nas últimas semanas. Mais de metade das unidades habitacionais visíveis na imagem de 12 de julho ainda não existiam a 9 de junho.
A Stroytrest Alabuga, empresa responsável pela construção no local, retirou em meados de julho uma secção do seu site com detalhes sobre o plano para um grande complexo habitacional. Contudo, um documento interno de apresentação, publicado a 4 de julho, parece mostrar que a “segunda fase” da construção já está em curso.
A equipa de Albright no ISIS, o referido grupo de reflexão norte-americano, considerou que os edifícios poderão acolher até 40 mil trabalhadores quando estiverem concluídos, o que, segundo ele, representará “um aumento bastante significativo na produção de drones”.
Os números atuais de produção de Alabuga continuam a ser um segredo bem guardado. “A certa altura havia um plano para produzir vários milhares de ‘Gerans’”, referiu Shagivaleev na entrevista à Zvezda, sem especificar o período de tempo. “Agora produzimos nove vezes mais do que o inicialmente planeado”.
Em dezembro, a CNN noticiou que Alabuga tinha produzido mais de 5.700 drones Shahed entre janeiro e setembro de 2024 — mais do dobro do número produzido em todo o ano de 2023. A instalação tinha como objetivo fabricar 10 mil drones Gerbera em 2024, segundo fontes dos serviços de informação da defesa ucraniana.
'Rapazes e raparigas'
Os objetivos da produção em constante expansão de Alabuga há muito que representam um problema de pessoal.
A CNN já descreveu em pormenor a prática de recrutar adolescentes através da escola politécnica de Alabuga, bem como mulheres africanas através de um esquema de divulgação no estrangeiro, para satisfazer uma escassez crónica de trabalhadores na Rússia, exacerbada pela guerra na Ucrânia.
Shagivaleev foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA em 2024, em parte devido à sua associação com “a exploração de estudantes menores de idade para montar estes UAV (veículos aéreos não tripulados ou drones)”.
O documentário do Zvezda não passa ao lado deste facto. O apresentador refere-se aos “rapazes e raparigas” que trabalham na fábrica, acrescentando que “convidam crianças em idade escolar a partir do nono ano e, depois da faculdade, chamam-nas para a fábrica”. Na Rússia, as crianças têm normalmente 15 anos quando terminam o nono ano.
Há agora provas de que a Alabuga está a trazer estes e talvez outros estudantes não só para o trabalho de montagem, mas também para a construção. A 4 de julho, um campo de férias chamado “Alabuga Build” abriu oficialmente as suas portas no local, de acordo com publicações na sua conta VKontakte (ou VK, a versão russa do Facebook).
As tendas onde os estudantes ficarão alojados, que não se encontravam em lado nenhum nas imagens de satélite de 9 de junho, estavam à vista de todos a 12 de julho. A CNN contou mais de 100 tendas verde-caqui, como as que foram vistas nas publicações do VK “Alabuga Build”, junto a armazéns associados à produção de drones.
O acampamento é organizado pelas “Brigadas de Estudantes Russos”, que se afirma como a maior organização de jovens do país e que reuniu cerca de 2.500 estudantes para construir um complexo habitacional chamado “Parque Mediterrânico” em Alabuga, de acordo com o Ministério da Educação da região russa do Tartaristão, onde se situa Alabuga.
Num dos vídeos publicados na página VK do acampamento, um jovem de casaco caqui faz uma visita irónica à sua tenda, tentando fazer das condições básicas uma virtude. “Aqui temos um televisor de plasma de ecrã plano”, diz, mostrando um armário branco básico no exterior de uma tenda verde escura com o número “65” escrito. “CDs, DVDs, consolas”, continua, pegando em pedaços de lenha.
'Soberania tecnológica'
O documentário do Zvezda sugere que Alabuga é atualmente uma linha de produção totalmente autossuficiente.
“Chegam barras de alumínio, a partir das quais são fabricados motores; a microeletrónica é feita a partir de chips eléctricos; as fuselagens são feitas de fibra de carbono e fibra de vidro - ou seja, localização total”, gaba-se Shagivaleev no vídeo.
“São precisamente estes projetos que devem tornar-se a base da soberania tecnológica do nosso país, para não dependermos de ninguém”, acrescenta o apresentador.
As imagens do programa que mostram os motores Shahed a serem fabricados em Alabuga foram uma surpresa para vários especialistas com quem a CNN falou.
“O Shahed 136 é movido pela cópia de um projeto original alemão que os iranianos copiaram”, explica Fabian Hinz, investigador do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com sede em Londres. “E essa era uma grande questão, se os russos podem agora fabricar os seus próprios motores, e pelo menos este documentário parece implicar que podem, o que... significaria que são independentes dos componentes iranianos.”
Albright, o antigo inspetor de armas da ONU, confessa que parecia que o fabrico - e não apenas a montagem - no local estava a avançar. "O nosso entendimento era de que poderiam montar o motor em Alabuga, mas que estavam a contratar terceiros para as peças que requeriam uma fundição. Agora parece que podem ter alguns fornos ou uma pequena fundição em Alabuga".
Albright acredita que a Rússia poderia estar a planear que o Alabuga não só equipasse o exército russo, mas também vendesse os seus drones a clientes estrangeiros. Isto sugere que o documentário do Zvezda é tanto um anúncio destinado a futuros compradores, como um programa concebido para assustar os ucranianos.
Outros países estão a produzir a sua própria versão do Shahed, acrescenta Hinz, mas “os russos estão actualizados no que diz respeito, por exemplo, às contra-medidas electrónicas... Por isso, penso que isso seria um grande argumento de venda”.
Kiev também sugeriu abertamente que a Rússia poderá ter transferido a tecnologia para produzir a sua versão do Shahed para a Coreia do Norte, no âmbito de uma parceria militar em rápida expansão com Pyongyang.
“Quanto mais tempo esta guerra durar no nosso território, mais as tecnologias de guerra evoluem e maior será a ameaça para todos”, avisava o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em junho. “Esta questão tem de ser resolvida agora - e não quando milhares de ‘Shahed’, drones e mísseis balísticos melhorados começarem a ameaçar Seul e Tóquio”.
A CNN contactou a Alabuga e o Ministério da Defesa russo para saber qual o objetivo da expansão no local e se está a transferir a tecnologia Shahed para a Coreia do Norte. Nenhum dos dois respondeu.
Destruição e noites sem dormir
Só em junho de 2025, a Rússia disparou cerca de 5.500 drones Shahed ou similares contra a Ucrânia, de acordo com uma análise da CNN aos relatórios da força aérea ucraniana. Este número é 16 vezes superior ao registado em junho de 2024 e representa um aumento de mais de 30% em relação ao mês anterior.
Em 9 de julho, foi disparado um número recorde de 728 drones contra a Ucrânia numa única noite.
A escalada da guerra aérea de Moscovo e o ruído caraterístico dos Shaheds estão agora a obrigar os ucranianos a sair das suas camas e a entrar em abrigos e estações de metro quase todas as noites.
“Quando ficamos em casa, escondemo-nos sempre atrás de duas paredes”, refere Oleksandr Krupnyk, pai de três filhos em Kiev, à CNN. “Colocamos o nosso filho do meio na banheira, o mais novo num saco de feijão na casa de banho e deitamo-nos num colchão no corredor... com o mais velho”.
Krupnyk e a sua família estão empenhados em permanecer no país e em fazer a sua parte, mas admite que os ataques de drones russos são uma perturbação quase permanente da vida quotidiana.
“A constante falta de sono torna-nos mais lentos, irritáveis e reduz a nossa resistência”, explica, acrescentando que os seus filhos têm dificuldades nos estudos e imploram para não ir à escola.
Zelensky disse na terça-feira que: “Putin está a passar das marcas com esta obsessão e terror ‘Shahed’”.
O presidente acrescentou que a Ucrânia não está apenas a pressionar os seus aliados para que estes reforcem as defesas aéreas, mas também a prosseguir com os seus próprios ataques profundos em território russo, dos quais pelo menos três tiveram como alvo Alabuga, um local com um papel cada vez mais importante neste conflito.