TRÊS ANOS DE GUERRA || Utilizam recrutas online e grupos criminosos locais para evitar utilizar agentes diretos das secretas. Nova unidade funciona nos arredores de Moscovo, num gigantesco complexo de edifícios rodeados por uma imponente vedação com arame farpado, num prédio conhecido como o "aquário"
A Rússia está nas sombras a conduzir uma guerra híbrida contra a NATO e criou uma unidade especial dedicada a espalhar o caos na Europa, liderada por um dos seus espiões mais experientes. Criado no final de 2023 e conhecido como Departamento das Tarefas Especiais, este novo ramo dos serviços secretos russos, conta com mais 15 mil agentes, dedicados ao planeamento e execução de operações de sabotagem que procuram não só perturbar o fornecimento de apoio à Ucrânia como causar "desestabilização interna" da Europa. E está a ter sucesso.
"A guerra não declarada da Rússia contra o Ocidente está a intensificar-se, tirando partido do medo, da desestabilização e de operações secretas para minar a unidade da NATO e a resistência do Ocidente. Os líderes ocidentais tentam teimosamente ignorar este facto, imitando de certa forma o comportamento dos seus colegas ucranianos na véspera da invasão russa. (...) A Rússia está a travar uma guerra não declarada contra o Ocidente e está a ter um sucesso significativo", afirma Oleksandr Danylyuk, investigador especialista em guerra multidimensional russa, do Royal United Services Institute (RUSI).
E é nos arredores de Moscovo, no gigantesco complexo de edifícios rodeados por uma imponente vedação com arame farpado, num prédio conhecido como o "aquário", onde essa guerra é pensada. No interior dessa grande estrutura de ferro e de vidro está o que os oficiais dos serviços secretos ocidentais acreditam ser a sede de uma nova unidade de operações especiais militares dos serviços secretos russos, responsável por vários atos de sabotagem em solo europeu. Anteriormente responsabilidade da Unidade 29155, a dimensão dos objetivos da Rússia levou-os a expandir a formação, não só no número de pessoal, mas também nas suas responsabilidades.
Os serviços secretos ocidentais acreditam que as missões desta nova unidade, conhecida nos países da NATO como SSD, tem agora três grandes missões: operações de sabotagem e assassínios no estrangeiro; infiltração em empresas e universidades; e recrutamento e treino de agentes estrangeiros. Países considerados "amigos" pelo Kremlin são os principais alvos do recrutamento no estrangeiro. Os cidadãos sérvios, moldavos e austríacos são alguns dos principais alvos deste grupo. No entanto, a Rússia continua a exercer grandes esforços para recrutar cidadãos ucranianos refugiados em solo europeu, bem como pessoas de países em desenvolvimento.
O que cresceu também foi o número de "operacionais" sob o comando do SSD. De acordo com uma investigação do RUSI, o número de militares das forças especiais, conhecidos como "Spetsnaz", situa-se entre os 15 e os 20 mil. O estudo sublinha que, devido à velocidade a que a expansão se deu, a qualidade da formação destes homens é mais reduzida do que no passado. No entanto, a falta de qualidade é mais do que compensada pelos elevados números de meios que o grupo é capaz de colocar no terreno.
"Estamos a voltar ao tempo do gato e do rato. A Rússia está a reforçar a rede de agentes. Este conflito está a ensinar-nos algo muito importante. Por mais que tenhamos satélites ou equipamentos evoluídos, a obtenção de informações pela via humana continua mais fundamental que nunca”, defende o major-general Isidro de Morais Pereira.
Para se certificar de que a missão é cumprida com sucesso, o Ministério da Defesa encarregou o coronel-general Andrey Vladimirovich Averyanov, um dos mais experientes homens das secretas russas, para liderar esta unidade. Averyanov participou em quase todos os conflitos da era moderna russa. Ainda antes da queda da União Soviética, combateu no Afeganistão. Anos mais tarde, participou nas duas guerras russas contra a Chechénia e esteve presente na guerra separatista da Transnístria e foi fundamental na anexação da Crimeia, em 2014.
Mais tarde, já no comando da Unidade 29155, esteve envolvido no planeamento do espião russo exilado no Reino Unido, Serguei Skripal, com o agente nervoso Novichok. O general é também procurado pela polícia checa, pelo seu envolvimento num dos mais ousados atos de sabotagem russos dos últimos anos, ao explodir um paiol de munições em 2014, matando duas pessoas. Tudo isto lhe valeu o reconhecimento do próprio Vladimir Putin, que o condecorou com o título de "Herói da Rússia".
Ao lado de Averyanov, está um nome um pouco mais obscuro para o público, mas bastante temido nos círculos mais restritos do poder militar russo: o tenente-general Ivan Sergeevich Kasianenko. Um veterano da força aérea russa que cedo entrou para as operações especiais dos serviços secretos russos, Kasianenko esteve pessoalmente envolvido na coordenação da operação que matou Skripal e já era responsável pelas infiltrações de agentes secretos russos na região europeia. Já durante a invasão russa da Ucrânia, foi particularmente útil para Putin ao tornar-se o homem escolhido para tomar conta das operações do grupo Wagner em África, logo depois da morte do líder do grupo, Yevgeny Prigozhin.
E as atividades desta unidade mantiveram-se nas sombras durante quase um ano, apesar do número cada vez maior de casos de sabotagem ligados aos serviços secretos russos. De acordo com o jornal Wall Street Journal, que cita fontes dos serviços secretos norte-americanos, o auge desta atividade aconteceu durante o verão de 2024 e agora está a atravessar um período de maior tranquilidade, com vista a criar as condições para a negociação de paz com a nova administração americana.
Logo no início de 2024, a Ucrânia travou uma operação russa que preparava o incêndio de vários centros comerciais no país. Segundo os serviços secretos a operação estava a ser coordenada por um oficial dos serviços secretos russos ligado ao SSD. Poucos dias depois, um centro comercial na Polónia pegou fogo, num ataque que as autoridades polacas apontaram ao mesmo oficial: o major Yuri Sizov. A União Europeia foi rápida a sancionar este oficial, mas a estratégia russa já estava em movimento.
“Estamos a ser alvo de atividades preparatórias de ampliação do descontentamento no mundo ocidental. É guerra psicológica, com o objetivo de desmoralizar as forças do adversário e a sua liderança. Mas também têm como objetivo trazer para a sua causa quem é neutro. A Rússia está a investir fortemente nisto”, alerta Isidro de Morais Pereira.
Em maio, a fábrica metalúrgica da Diehl Metall, empresa alemã que produz os sistemas de defesa antiaéreos IRIS-T, sofreu um incêndio que os serviços secretos alemães atribuíram a um ato de sabotagem russo. Durante o verão, vários pacotes incendiários foram enviados via transportadora para ser detonada nos centros de distribuição e causar o caos e milhões de euros em prejuízos. Dois pacotes foram descobertos, um em Leipzig e outro na cidade britânica de Birmingham. De acordo com o antigo líder das secretas alemãs, Thomas Haldenwang, caso tivessem sido detonadas a bordo os aviões que iriam transportar as encomendas, os engenhos seriam capazes de fazer cair a aeronave. Isto só não aconteceu porque o avião acabou por atrasar-se e o dispositivo detonou quando o avião ainda estava na pista. O mesmo aconteceu nos Estados Unidos, no mês de julho.
A natureza da guerra híbrida do Kremlin mostra o quão difícil se tornou combater a atividade dos serviços secretos russos. Muitos dos atos de sabotagem não são cometidos pelos agentes secretos desta nova unidade. Atualmente, os espiões russos preferem recorrer aos serviços das redes criminosas locais para conseguir atingir os seus objetivos. Em vez de ser um espião a cometer um assassínio, o Kremlin prefere agora contratar criminosos para o fazer, tornando mais difícil para as autoridades descobrir a verdadeira origem do ataque. Muitos destes elementos acabam por ser recrutados sem qualquer contacto físico, através de redes sociais como o Telegram ou até mesmo o Tiktok. Um desses casos foi registado na Letónia, onde um homem recebeu instruções via Telegram para atirar um cocktail molotov contra o Museu da Ocupação, em Riga.
"A Rússia tem capacidade para fazer este tipo de operações. No caso dos países bálticos não tenho dúvidas de que esses ataques tenham mão russa, tal como vemos no interior da Ucrânia. No entanto, não diria que seja patente que exista uma campanha dirigida a atacar as infraestruturas europeias", defende o major-general Agostinho Costa.
Os líderes dos dois principais serviços secretos britânicos admitiram, num raro momento público, que as ações dos serviços secretos russos estão a tornar-se cada vez mais imprudentes e "um pouco selvagens". "O custo de apoiar a Ucrânia é bem conhecido, mas o custo de não o fazer seria infinitamente mais elevado. Se Putin for bem-sucedido, a China pesará as implicações, a Coreia do Norte será encorajada e o Irão tornar-se-á ainda mais perigoso", alertou Richard Moore.
Uma das movimentações que mais preocupou as autoridades aconteceu no verão de 2024, quando os serviços secretos americanos descobriram um plano russo para assassinar o presidente-executivo da empresa militar alemã Rheinmetall, uma das principais produtoras de armamento ocidentais, que tem vindo a enviar milhares de milhões de equipamento militar para a Ucrânia. Os detalhes do plano russo nunca foram tornados públicos, mas a missão estaria num estado avançado, indicando que os operacionais russos já teriam feito ações de reconhecimento para estudar os movimentos e as rotinas de Armin Papperger.
Incapazes de atingir os seus objetivos, devido ao apoio contínuo do ocidente e à resistência ucraniana, a Rússia está a disponibilizar cada vez mais recursos para tentar quebrar a ligação entre o ocidente e a Ucrânia. E Moscovo identificou um alvo prioritário. Segundo fontes dos serviços secretos ocidentais citadas pelo Wall Street Journal, o Departamento das Tarefas Especiais está particularmente focado em operações na Alemanha, que é considerada o "elo mais fraco" da aliança atlântica. O objetivo russo é claro, mais do que conduzir uma guerra direta contra a NATO, o Kremlin quer demonstrar a incapacidade da aliança, para provar aos Estados Unidos que faz pouco sentido manter o apoio à Europa.
Apesar do enorme esforço russo em conduzir ações de sabotagem no interior do território europeu, os especialistas mostram-se preocupados com a inação dos líderes europeus, que não têm tomado decisões para combater e contrariar as ações russas, mas também para desenvolver as suas próprias ações para manter a Rússia ocupada.
"A guerra não declarada da Rússia contra o Ocidente já está em curso e a recusa persistente da maioria dos líderes ocidentais em reconhecer este facto faz com que a derrota do Ocidente seja apenas uma questão de tempo", defende Oleksandr Danylyuk.