Trump pode fazer coisas que a Europa não pode? Ou é a Europa que não quer? Depois de ter estado reunido com o presidente dos Estados Unidos, Volodymyr Zelensky definiu um inesperado concreto num discurso agressivo
É uma cimeira de choques. Depois de os Estados Unidos terem criticado fortemente a Europa, é a vez de até o presidente da Ucrânia o fazer.
A partir do Fórum Económico Mundial, em Davos, Volodymyr Zelensky não teve problemas em atacar os aliados europeus, sugerindo que não estão a fazer o suficiente para impedir a Rússia de prosseguir com a guerra.
Minutos depois de ter estado praticamente uma hora reunido com Donald Trump, o presidente ucraniano pareceu apostar numa lógica de críticas à Europa, quase que seguindo o mesmo método do homólogo norte-americano.
“Porque é que o presidente Trump pode parar os petroleiros da frota fantasma e apreender o petróleo, mas a Europa não pode?”, questionou, afirmando que são as ações que tomarmos hoje que vão definir o futuro que vamos ter.
Habitualmente agradecido ao inabalável apoio da Europa, Volodymyr Zelensky apareceu desta vez mais agressivo em relação aos aliados.
Talvez pela Ucrânia ter sido deixada para segundo plano nas últimas semanas, já que foi preciso lidar com a séria ameaça feita à Gronelândia, Volodymyr Zelensky engrossou o tom dirigido às capitais europeias.
“A Bielorrússia em 2020 é o exemplo. Ninguém ajudou o seu povo e agora mísseis russos Oreshnik estão implantados na Bielorrússia ao alcance da maioria das capitais europeias. Isso não teria acontecido se o povo bielorrusso tivesse vencido em 2020. E dissemos várias vezes aos nossos parceiros europeus: 'atuem agora, atuem agora contra esses mísseis na Bielorrússia, mísseis nunca são apenas decoração'", afirmou.
"Mas a Europa ainda continua em modo Gronelândia. Talvez um dia alguém faça alguma coisa", sublinhou o presidente ucraniano.
“O petróleo russo está a ser transportado pelas costas europeias. Esse petróleo financia a guerra contra a Ucrânia, esse petróleo ajuda a desestabilizar a Europa”, continuou, vendo Vladimir Putin capaz de prosseguir a sua “agenda doentia”, uma vez que continua a ter meios financeiros para o fazer.
Em tom de crítica, mas também de aviso, o presidente da Ucrânia sugeriu que se formem as Forças Armadas da Europa, uma espécie de exército conjunto que possa “verdadeiramente defender” o continente.
Apesar de terem aparecido de forma menos incisiva, as críticas também se estenderam aos Estados Unidos, nomeadamente pela inação numa reação da NATO.
“Se Putin decidir tomar a Lituânia ou atacar a Polónia, quem vai responder”, perguntou, acusando a Europa de “adorar discutir o futuro, mas evitar tomar uma ação”.
“É verdade que têm acontecido muitas reuniões, mas a Europa continua sem conseguir sequer ter local para um tribunal, com coisas e verdadeiro trabalho a acontecer lá dentro. O que está a faltar? Tempo ou vontade política? Muitas vezes na Europa, qualquer coisa é mais urgente que a justiça”, reiterou.
Embora agradeça também os comprometimentos de Reino Unido ou França para colocarem tropas no terreno depois de um cessar-fogo, lembrando até o filme “Feitiço do Tempo” para descrever a situação no terreno.
“Ninguém quer viver assim, a repetir a mesma coisa por semanas e meses e, claro, por quatro anos. É exatamente assim que vivemos hoje. É a nossa vida diária”, prosseguiu, recordando o discurso em Davos há um ano para dizer que “nada mudou”, nem mesmo depois do aviso de que “a Europa precisa de saber como se defender”.
Ao dia 1.429 de guerra na Ucrânia, Volodymyr Zelensky parece ter mudado a agulha, alargando as críticas de forma séria e direta à Europa, enquanto para Donald Trump e Estados Unidos ainda sobram elogios.
"Maduro foi preso e está a ser julgado em Nova Iorque. Putin não", atirou, sugerindo que os Estados Unidos conseguiram fazer algo que o resto da comunidade internacional não conseguiu.