Bruno Kahl, líder das secretas alemãs, afirma que a Rússia quer criar "uma nova esfera de influência" e "estabelecer uma nova ordem mundial"
O alerta partiu do presidente do Serviço Federal de Informações da Alemanha (Bundesnachrichtendienst), que afirmou esta segunda-feira que a Rússia poderá ter condições para atacar a Europa até ao final desta década.
“Putin continuará a testar as linhas vermelhas do Ocidente e a aumentar a escalada do confronto. As Forças Armadas Russas estarão provavelmente em posição, em termos de pessoal e material, de lançar um ataque contra a NATO, o mais tardar, no final desta década”, disse Bruno Kahl, citado pelo Politico.
Kahl avisa que um confronto militar com a NATO “é uma opção para Moscovo”, e que a Rússia “quer empurrar os EUA para fora da Europa, de modo a restabelecer as fronteiras da NATO dos anos 90, criar uma “nova esfera de influência russa” e “estabelecer uma nova ordem mundial”.
Questionado sobre a credibilidade destas palavras, o major-general Agostinho Costa afirma de que se trata de “narrativa para nos manter todos na linha”.
“A intenção é manter a ideia de que temos um inimigo que vai atacar a Europa porque muita coisa vai ter de mudar no plano da defesa. Vamos todos ter de fazer sacrifícios e vamos mandar os jovens fazer o serviço militar obrigatório”, afirma à CNN Portugal o especialista em assuntos de segurança.
“Estamos numa guerra de narrativas e a Alemanha está a preparar a opinião pública alemã para aquilo que as autoridades querem impor, que é o serviço militar obrigatório. São discursos para o consumo interno da Alemanha”, complementa.
O major-general Agostinho Costa questiona mesmo se a Rússia quer e conseguirá atacar a Europa.
“Os russos querem atacar a Europa para quê? Têm capacidade? Não. Para a terem têm de fazer uma mobilização como fazem os ucranianos e isso quebraria o pilar económico. Ir buscar gente para ir para a linha da frente é retirá-los da economia. Portanto, qual é o interesse dos russos em entrar pela Europa? Não tem recursos. Querem atacar os polacos? E porquê?”, interroga o especialista. “A Rússia tem as capacidades adequadas para vencer a guerra na Ucrânia e tem condições para as alargar, mas não para atacar a Europa.”
“Os russos querem é vender gás e petróleo à Europa”, remata Agostinho Costa.
No entanto, avisa: se a Polónia tentar fechar o Corredor de Suwalki ou Finlândia e Estónia tentarem fechar o Mar Báltico, os russos “vão abri-los à força”.
Como referência para um futuro cenário possível, o major-general cita Emmanuel Todd, historiador francês que esta semana disse, em entrevista ao Corriere di Bologna, que “se a Rússia for derrotada na Ucrânia, a subserviência europeia aos americanos prolongar-se-ia por um século. Se os Estados Unidos forem derrotados, a NATO desintegrar-se-á e a Europa ficará livre”. Todd vaticina também que a Alemanha e a Rússia vão voltar a juntar-se e ter relações económicas interdependentes após a “pulverização” do “controlo americano” da Europa.
“O que é natural, numa Europa de baixa fertilidade e com a sua população envelhecida, é a complementaridade entre a indústria alemã e os recursos energéticos e minerais russos”, defende Todd.
Plausível? Sim. Garantido? Não
Por sua vez, o major-general Isidro de Morais Pereira não descarta a validade deste alerta, que diz ser “verosímil e provável”, mas não “garantido”. “Diria que o grau de probabilidade é de 50-50”, refere, explicando que há três fatores que podem ajudar a materializar o cenário de um ataque russo.
Os dois primeiros estão relacionados com a guerra na Ucrânia: se a Rússia vencer o conflito e a sua economia aguentar este período, um ataque à Europa fica mais provável.
“Se a economia russa entra em colapso, vai acontecer à Rússia aquilo que aconteceu à União Soviética. Vai ser incapaz de continuar este seu novo impulso imperialista”, defende o especialista militar.
O terceiro fator vem do outro lado do Atlântico. Se Trump vencer as eleições, é muito provável que os EUA coloquem a Europa de parte para se centrarem no Indo-Pacífico e na China e também no Médio Oriente, diz o major-general.
Isidro de Morais Pereira elenca também outros fatores conhecidos que podem indiciar que a Rússia se está a preparar para atacar a Europa no futuro.
“A indústria russa está ou não a converter-se numa indústria de guerra? Está. A Rússia está a alocar grande parte do investimento e das suas reservas de ouro e de divisas para equipamento de defesa? Está. Putin determinou o aumento do exército permanente porque quer ter um maior que o norte-americano? Sim.”
O major-general descarta, no entanto, que esse conflito se materialize numa guerra nuclear. “Putin não quer morrer. No dia em que Putin der ordem para utilizar armas nucleares, no momento seguinte está morto. Sabe que está a assinar a sua sentença de morte, sim”, perspetiva.
“Agora, uma ameaça convencional que a Rússia poderá materializar até 2030 é perfeitamente plausível. Se me perguntar ‘é altamente provável que isso aconteça?’ Bem, eu não iria tão longe, mas é plausível e é provável.”
Provável ou não, o que é certo é que há vontade política para a Europa se preparar para esse cenário. Andrius Kubilius, nomeado para a estreia do cargo de Comissário Europeu para a Defesa, disse em setembro que as defesas europeias se devem preparar rapidamente para um confronto com a Rússia dentro de seis a oito anos.
“Os ministros da Defesa e os generais da NATO concordam que Vladimir Putin poderá estar pronto para um confronto com a NATO e a UE dentro de seis a oito anos. Se levarmos estas avaliações a sério, então este é o tempo para nos prepararmos adequadamente, e é um tempo curto. Isto significa que temos de tomar decisões rápidas e ambiciosas”, afirmou Kubilius, citado pela Reuters.