A guerra "está cada vez mais perto, a cada dia que passa". Como Odessa passou de destino turístico para uma cidade com armadilhas para blindados (opinião)

CNN , Opinião de Michael Bociurkiw
31 jul, 09:00
Opinião: Odessa era conhecida por duas
coisas - o porto e o hedonismo voraz (CNN)

Michael Bociurkiw é um analista de assuntos globais. É membro sénior do Conselho Atlântico e ex-porta-voz da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. É colaborador regular do CNN Opinion. As opiniões expressas neste artigo são suas

Noutros tempos, Odessa era a "Pérola do Mar Negro" da Ucrânia, onde normalmente nesta época do ano veríamos habitantes locais e veraneantes a disputar o espaço no seu tentador areal. Ao anoitecer, os casais da moda passeavam-se pela famosa Rua Deribasovskaya e os jovens dirigiam-se às discotecas, que funcionavam pela noite dentro.

Agora, mais de cinco meses após a invasão russa da Ucrânia, este histórico destino de férias – a que muitos poetas, escritores, arquitetos e músicos famosos chamaram lar – foi transformado no epicentro da crise alimentar global.

Nada me preparou para o que vi em Odessa. Ruas sinistramente calmas, estradas fechadas, armadilhas para blindados e postos de controlo militares, praias desertas, restaurantes e bares quase vazios. No ano passado, mais de 3 milhões de turistas visitaram a cidade, de acordo com a Administração Regional de Odessa. Este ano, é mais provável encontrar correspondentes de guerra, pessoal humanitário e diplomatas nos seus hotéis à beira-mar.

Odessa, julho de 2021: Veraneantes reúnem-se numa das praias locais, que se estende ao longo da costa do Mar Negro, no ano passado (CNN)
Odessa, julho de 2022: A guerra tem afetado o destino de verão favorito da Ucrânia, com praias sinistramente vazias (CNN)

"Nunca vi a cidade tão vazia”, disse-me Vladislav Davidzon, autor de "From Odessa With Love: Political and Literary Essays in Post-Soviet Ukraine", enquanto se sentava a beber um café, de alpercatas e panamá na cabeça, na Praça Katerynynska.

"Todos os bares, restaurantes e hotéis dos meus amigos estão à beira da falência. A economia não consegue sustentar-se e ninguém sabe quanto tempo isto pode durar", acrescentou Davidzon. "Dantes, Odessa tinha duas indústrias: o porto e o hedonismo voraz. Nenhum deles está a funcionar neste momento."

Um representante do Governo disse-me que, como as minas no Mar Negro tendem a soltar-se e a flutuar para terra, as pessoas têm demasiado medo de ir para as praias. Numa visita à praia de Otrada, na quarta-feira de manhã, não se via uma única pessoa nessas areias imaculadas. Uma mãe de Odessa disse-me que tem demasiado medo de levar a filha mais nova à praia ou grandes áreas recreativas, com medo dos ataques dos mísseis.

"Por enquanto, vamos só às piscinas", disse ela.

Um autocarro turístico vazio em Odessa, fotografado dias depois de um ataque de mísseis russos nos arredores da cidade (CNN)

Infelizmente para empresários como Lika Bezchastnova, proprietária do restaurante Dizyngoff, as dificuldades económicas causadas pela guerra não parecem ter um fim tão cedo.

Após vários meses de encerramento, o seu popular restaurante abriu no sábado, no mesmo dia em que os mísseis de cruzeiro russos atingiram o porto de Odessa e apenas um dia depois de a Rússia e a Ucrânia terem assinado um acordo intermediado pelas Nações Unidas e pela Turquia, para desbloquear os cereais ucranianos retidos em três portos. O acordo deveria ter ajudado a aliviar a crise alimentar global que se tem repercutido por todo o mundo.

E na terça-feira, poucas horas depois de eu ter chegado aqui, mais mísseis atingiram um bairro residencial nos arredores da cidade.

O rescaldo de um ataque de mísseis russos a uma povoação na região de Odessa, no sul da Ucrânia, na terça-feira (CNN)

"Desde sábado, sinto a guerra a cada momento, sobretudo porque estamos tão perto da praia", disse Bezchastnova enquanto percorremos alguns dos bairros históricos da cidade. "Está cada vez mais perto, a cada dia que passa", acrescentou ela. Durante semanas, o acesso ao restaurante foi limitado pelas armadilhas para blindados e pelo posto de controlo militar na Praça Katerynynska.

Num ponto de observação próximo, onde é possível avistar os gigantescos silos de cereais, Bezchastnova diz-me que a falta de atividade no porto é angustiante.

"Por vezes, acordava a meio da noite e ouvia todos os barulhos vindos do porto. É reconfortante, isso acalma-nos. Sabemos que a vida continua e que a cidade está em movimento. Agora, não ouvimos nada. É triste", disse ela.

Um cargueiro é carregado ao lado dos silos de cereais, num porto de Odessa, em 2013 (CNN)

O acordo de exportação de cereais negociado na Turquia visava quebrar o bloqueio, cujos efeitos se fizeram sentir por todo o mundo. Pelo menos 20 milhões de toneladas de cereais estão retidas na Ucrânia devido ao bloqueio russo - um dos fatores que empurra mais de 345 milhões de pessoas em todo o mundo para a fome, segundo as Nações Unidas.

Como parte do acordo, a Rússia devia ter evitado infligir mais danos a infraestruturas portuárias críticas."A Federação Russa comprometeu-se a facilitar a exportação sem restrições de alimentos, óleo de girassol e fertilizantes", disse a ONU.

Mas as ações da Rússia mostram que não pode ser tratada como um parceiro de confiança. Tal como aconteceu com vários acordos de cessar-fogo anteriores na região do Donbass, desde 2014, dizem uma coisa e fazem outra. O historial da Rússia de violação de acordos sobre corredores de evacuação humanitária desde o início da guerra está bem documentado.

Muitos diplomatas disseram-me no passado que, mesmo com um Estado como a Rússia, algum diálogo é melhor do que nenhum. Por isso, o próximo encontro em Sochi entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, poderá ser motivo de alguma esperança.

A Turquia está bastante envolvida nesta questão e podemos esperar que use a influência junto de Putin, para não só fazer com que os cereais circulem novamente, como também para trazer a paz muito necessária para a região. A Turquia tem boas relações com a Ucrânia e a Rússia, e com Erdogan a querer desempenhar o papel de estadista ou mediador da paz, há boas hipóteses de que ele continue a preparar o caminho para a paz.

Desde 2014, quando a Rússia anexou ilegalmente a Crimeia e invadiu a região do Donbass, a Turquia tem desempenhado um papel central na tentativa de trazer a paz, com os seus contributos significativos para a Missão Especial de Monitorização para a Ucrânia da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.

Outra motivação para a Rússia aderir ao acordo é preservar a sua relação de longa data com o Egito e outros países do Médio Oriente e do Norte de África afetados pela crise. (O Egito é um dos principais importadores de trigo e diz-se que terá comprado até 80% do seu consumo à Ucrânia e à Rússia no ano passado).

Falando no Egito esta semana, no início de uma visita regional aos Estados africanos, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, sugeriu que Moscovo honrará o acordo dos cereais. Embora Moscovo não se importe muito com a sua reputação no Ocidente, duvido que queira ser visto como o instigador da fome em muitos dos países do Médio Oriente e África, com os quais tem fortes relações bilaterais - mesmo que a realidade seja muito diferente.

Por seu lado, a Ucrânia afirmou que, mesmo depois dos ataques de mísseis em Odessa e arredores, irá aderir ao acordo e tomar as medidas necessárias para que os cereais voltem a ser transportados a partir dos três portos designados do Mar Negro.

Claramente, o que acontece em Odessa tem influência no resto do mundo. E o que acontece a seguir está nas mãos da Rússia. Aliviar o estrangulamento a Odessa não só traria de volta a histórica cidade portuária, como também reduziria a hipótese da fome para dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Para residentes como Bezchastnova, o regresso à normalidade em Odessa não poderia acontecer tão cedo. "A maior parte dos meus amigos desapareceu. E se não voltarem? Isto é assustador. Pensei que ia envelhecer e morrer nesta cidade."

Relacionados

Opinião

Mais Opinião

Patrocinados