ANÁLISE || Nos Estados Unidos há quem cante que "a era dos Castros acabou" e pode ter começado tudo num caso que remonta a 1996. Qualquer coisa que possa acontecer pode terminar num "banho de sangue"
Trata-se de uma acusação que pode condenar qualquer hipótese remanescente de um acordo para evitar um conflito armado entre os Estados Unidos e Cuba.
As acusações federais contra o antigo líder cubano Raúl Castro, referentes à queda de um avião civil em 1996, inflamaram a comunidade de exilados cubanos em Miami, onde a acusação foi anunciada esta quarta-feira - o mesmo dia em que a diáspora cubana celebra a sua independência de Espanha.
Ao verem um governo cada vez mais enfraquecido em Havana, os exilados anticastristas têm-se manifestado contra qualquer acordo que mantenha no poder as autoridades do governo cubano.
Mas para os cubanos na ilha que apoiam a revolução, há poucas hipóteses de Castro ir a algum lado, muito menos a um tribunal em Miami.
"Ele é a personificação viva da revolução", diz o antigo diplomata norte-americano Ricardo Zúñiga à CNN sobre Castro.
Zúñiga fez parte da equipa de negociação secreta que fechou um acordo com as autoridades cubanas, incluindo o filho de Raúl Castro, para restabelecer as relações diplomáticas durante a administração Obama.
Indiciar Castro como forma de pressionar o governo cubano a aceitar um acordo pode ser contraproducente, continua Zúñiga.
"A frustração de ambos os lados pode levar a um conflito simplesmente porque Washington interrompe a comunicação com o governo cubano através desta acusação", acrescenta o antigo diplomata.
Mas muitos exilados acreditam que a revolução fundada por Fidel e Raúl Castro está a ruir e que falta pressão adicional para acelerar um colapso agora inevitável.
"A era dos Castros acabou", escreveu esta terça-feira na rede social X a congressista Maria Elivra Salazar (republicana da Florida), cubano-americana.
Para os exilados de Miami, o abate, em 1996, de dois aviões civis pertencentes ao grupo de voluntários Brothers to the Rescue pelas forças cubanas - que matou quatro cubano-americanos a bordo - representa um crime que permanece impune há 30 anos.
Um país que precisa mesmo de ajuda
Embora tenha mencionado repetidamente a sua popularidade entre os eleitores cubano-americanos, Trump não descartou um possível acordo que poderia evitar um ataque dos EUA à ilha governada por comunistas.
“Posso [fazer um acordo], independentemente de vocês mudarem o regime ou não. Tem sido um regime cruel e mataram muita gente”, disse Trump aos jornalistas esta terça-feira.
“Mas é um país que precisa mesmo de ajuda. Não conseguem acender as luzes, não conseguem comer. Não queremos ver isso acontecer."
Embora Trump afirme que o governo cubano está “desesperado” para fechar um acordo, é preciso lembrar que disse o mesmo sobre a Venezuela e o Irão, onde as negociações terminaram abruptamente com ataques militares dos EUA.
O secretário de Estado Marco Rubio, cubano-americano e acérrimo opositor dos Castro, afirmou que a cúpula do governo cubano tem de sair.
Perante opções tão drásticas, o governo cubano pode optar por lutar até ao fim em vez de ceder o poder sem disparar um tiro.
Este é um país onde todo o discurso oficial termina com o grito de “Pátria ou morte!”.
Crise económica e humanitária crescente
O bloqueio de petróleo imposto pela administração Trump a Cuba, no entanto, empurrou a ilha ainda mais para perto de uma crise económica e humanitária.
As sanções contra as empresas estrangeiras que fazem negócios com o governo cubano obrigaram também algumas companhias de navegação que importam alimentos para a ilha a anunciar a suspensão das suas operações.
A crescente escassez e os apagões têm provocado protestos antigovernamentais esporádicos, algo que as autoridades cubanas normalmente não toleram.
Uma visita extraordinária do diretor da CIA, John Ratcliffe, na semana passada, serviu para alertar o governo cubano, disseram as autoridades norte-americanas, e para avisar Havana de que a sua janela de oportunidade para fazer concessões estava a fechar-se.
Já esta segunda-feira, o Departamento de Estado anunciou uma nova ronda de sanções económicas contra altos funcionários.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, rejeitou as medidas, afirmando que nenhum responsável cubano “tinha propriedade a proteger sob jurisdição dos EUA”.
A acusação contra Raúl Castro, que liderava as Forças Armadas cubanas na altura do abate, eleva a tensão entre os antigos rivais da Guerra Fria a um nível que não se via há décadas.
E as acusações preparam o terreno para uma possível operação militar dos EUA para o extraditarem - como ocorreu com Nicolás Maduro, da Venezuela, um aliado próximo de Cuba.
Mas, ao contrário da Venezuela, onde as Forças Armadas de Maduro ofereceram uma defesa frágil, facilmente derrotada pelas forças americanas, e os seus antigos tenentes rapidamente acataram as exigências de Trump, os apoiantes de Castro reagirão provavelmente de forma muito mais beligerante.
Ameaças de um "banho de sangue"
Tal como no caso do abate de 1996 - quando os Brothers to the Rescue tinham lançado panfletos antigovernamentais sobre Havana -, as autoridades cubanas insistem que hoje têm o direito de defender a sua soberania.
As Forças Armadas cubanas já se preparam para repelir um possível ataque norte-americano, e Díaz-Canel prometeu que um "banho de sangue" aguarda qualquer força invasora.
Por toda a ilha, os militares realizam manobras enquanto o governo alerta a população civil para se preparar para um ataque.
Qualquer movimento contra Castro levaria provavelmente a uma guerra declarada, mesmo que Cuba esteja em grande desvantagem em termos de armamento.
Embora oficialmente reformado, Raúl Castro, de 94 anos, ainda é chamado em Cuba de líder da revolução e general do Exército.
Quando faz uma rara aparição pública, ainda veste um uniforme militar.
Quase todos os altos responsáveis políticos e militares foram escolhidos a dedo por Castro, e o seu sucessor na presidência e secretário do Partido Comunista, Díaz-Canel, afirma que todas as decisões importantes são tomadas por ele.
Atacar Castro pode deixar pouca margem de manobra às autoridades cubanas, afirma o antigo diplomata Zúñiga, que recebeu ajuda financeira do governo.
“Do lado cubano, ao interromperem as comunicações, podem não perceber que o próximo passo por parte dos EUA poderá ser algum tipo de ataque”, conclui.
“Mas não há muito para destruir que já não esteja em ruínas.”
