São cerca de três mil mísseis, mas nenhum deles é capaz de ir muito mais longe do que o Médio Oriente
A base das Lajes é, desde sábado, um alvo militar legítimo do Irão. Esta ideia encaixa na lógica da Guarda Revolucionária Islâmica, que garantiu ter autoridade junto do Direito Internacional para atacar todos os locais que serviram a operação conjunta de Estados Unidos e Israel.
Ora, embora nenhum ataque tenha sido lançado diretamente da base localizada na ilha Terceira, nos Açores, a CNN Portugal sabe que parte do comando de toda a operação está mesmo a ser feito no meio do Atlântico.
Além disso, muitos dos reabastecedores que estão a permitir a ida e vinda dos caças norte-americanos e israelitas estão localizados precisamente na ilha Terceira.
Assim, como todas as bases no Médio Oriente ou até a base em Chipre, também as Lajes se tornaram, aos olhos do Irão, um alvo legítimo. Por arrasto, isso significa que o Irão entende que também Portugal é um alvo, como são todos os países que estão a apoiar Estados Unidos e Israel nesta operação militar.
Mas pode ficar descansado quem acha que, mesmo num ato altamente improvável, o Irão pode mesmo atacar Portugal ou a base das Lajes. E a explicação é simples: não pode, porque não consegue.
É que o Irão tem um grande arsenal de mísseis, é verdade, mas nenhum deles tem a capacidade para chegar tão longe, já que o grande foco do regime sempre foi desenvolver armamento capaz de atingir aquele que é o seu verdadeiro inimigo, Israel.
Ora, Portugal e Irão ficam a mais de cinco mil quilómetros de distância, o que exigiria sempre a utilização de um míssil balístico intercontinental (ICBM), que o regime de Teerão não tem. De resto, só Estados Unidos, China, Rússia, França, Coreia do Norte e Índia é que possuem esta arma de ponta, que em muitos dos casos permite atingir qualquer local do planeta.
O Irão tem, isso sim, mísseis balísticos, que são guiados durante a subida, mas descem numa lógica de queda livre durante grande parte do voo. São capazes de transportar explosivos convencionais, mas também armas biológicas, químicas e até nucleares, mas nenhum deles tem o alcance necessário para atingir a maioria da Europa, muito menos Portugal, e ainda menos os Açores.
De acordo com as informações das secretas dos Estados Unidos, citadas pela agência Reuters, o Irão é o país com maior armazenamento de mísseis balísticos no Médio Oriente, mas o próprio regime impôs um limite de dois mil quilómetros de distância às suas armas.
Isso permite ao Irão atingir países como Turquia e Chipre, o primeiro da NATO, o segundo da União Europeia, mas não permite muito mais, deixando a Europa descansada quanto à possibilidade de ter de receber uma salva destes mísseis.
Confirmando aquela que é a lógica de defesa iraniana, os dois mil quilómetros foram a distância definida para garantir o que era preciso garantir: que os mísseis chegam a Israel caso necessário, como têm chegado.
No longo arsenal - são cerca de três mil mísseis - podemos contabilizar mísseis Sejil, comummente com 2.000 quilómetros de alcance, mas também o Ghadr ou o Khorramshahr, que conseguem fazer a mesma viagem. De alcance mais curto são Emad (1.700 quilómetros), o Hoveyzeh (1.350 quilómetros) e o Shahab-3 (1.300 quilómetros). Muitos desses mísseis podem ser vistos na imagem de capa deste artigo.
De acordo com a agência ISNA, o Sejil, o melhor míssil do arsenal, é capaz de viajar a 17 mil quilómetros por hora. Ainda segundo aquela agência e a avaliação da Associação de Controlo de Armas, um think tank baseado em Washington, este mesmo míssil pode chegar aos 2.500 quilómetros de alcance.
De resto, o próprio Irão dá a entender que não são estes os mísseis mais temíveis, mas outros. Falamos dos Fatah, uma classe de hipersónicos que se divide em duas ogivas diferentes, e que podem atingir velocidades acima dos 18 mil quilómetros por hora.