Para os especialistas militares da CNN Portugal é difícil chegar a conclusões sem dados técnicos, mas apontam alguns caminhos que podem ajudar a esclarecer o que de facto aconteceu, seja pela trajetória dos drones ou, por exemplo, pela quantidade de combustível que transportavam
A Rússia nega que tenha tentado atacar a Polónia, mas o primeiro-ministro polaco afirmou esta sexta-feira que o ataque de drones russos não se tratou de um acidente. "Nós também gostaríamos que fosse um erro. Mas não foi. E nós sabemo-lo", garantiu Donald Tusk.
Para os especialistas militares da CNN Portugal é difícil chegar a conclusões sem dados técnicos, mas apontam alguns caminhos que podem ajudar a esclarecer o que de facto aconteceu através dos drones, seja pela sua trajetória ou, por exemplo, pela quantidade de combustível que transportavam.
Para o tenente-general Rafael Martins, há três aspetos fundamentais sobre os drones que podem ajudar a compreender o incidente: a trajetória, a composição do equipamento e o combustível. O especialista militar sublinha que não há, para já, pelo menos do conhecimento público, "dados suficientes", mas sabendo, por exemplo, a trajetória que realizaram, "conseguimos perceber se a intenção já era de facto irem até a Polónia ou se foi um desvio por parte da Ucrânia [através de guerra eletrónica]”.
Sabendo se a trajetória foi retilínea ou irregular é possível chegar ao verdadeiro alvo dos drones. Rafael Martins diz que, pelo que sabe, "os drones na Polónia circularam, não tinham um destino definido”, o que pode indicar um desvio do que estaria previamente definido, mas para saber isso é necessário conhecer o 'plotting' [traçado, na tradução livre] do radar”.
“E a NATO sabe perfeitamente qual foi, porque se os caças estiveram lá, tanto os F-35 como os F-16, só intercetaram os drones porque o radar os detetou, embora sejam de baixa assinatura. E ao detetá-los sabem perfeitamente a trajetória que fizeram. É essa informação que nos permite deduzir mais sobre as verdadeiras intenções”, explica o tenente-general.
Uma análise ao equipamento também pode, na opinião de Rafael Martins, ajudar ao esclarecimento, porque "se iam carregados com armas era para destruir, se não estavam armados, muito provavelmente foi uma ação por parte da Rússia para testar os sistemas sem ser demasiado ofensivo”.
O major-general Jorge Saramago sublinha que os serviços de inteligência ocidentais “seguiram a trajetória desses drones” desde o lançamento e, por isso, a partir daí, é possível "saber de onde saíram e porquê".
O major-general acrescenta que estamos a falar de “drones de fabrico russo", mas que "foram alterados". “Não vinham armados, vinham mais leves, e tinham sido acrescentados depósitos de combustível adicional”, aponta. A remoção da carga explosiva e a adaptação técnica sugerem que a operação visava mais enviar uma mensagem do que provocar destruição imediata.
"Com esses depósitos de combustível adicional, os drones tinham um alcance muitíssimo maior e, portanto, tinham alcance para atingir a Polónia”, indica Jorge Saramago, afastando a hipótese de um voo errático ou acidental.
O major-general Agostinho Costa não exclui a possibilidade de interferência eletrónica, que poderá ter desviado os drones com destino à Ucrânia para a Polónia, porque "estavam preparados para fazer cerca de 700 quilómetros e acabaram por fazer quase 1000".
As autoridades polacas recuperaram os destroços de 16 dos 19 drones que invadiram o seu espaço aéreo e a partir desses destroços, e dependendo do seu estado, pode ser possível obter mais informações.
Na quinta-feira, as publicações alemãs Der Spiegel e Die Welt noticiaram que os drones russos abatidos sobre a Polónia estariam supostamente a dirigir-se para o aeroporto de Rzeszów, um importante centro logístico de apoio à Ucrânia responsável pelo transporte de grande parte do material militar ocidental destinado às linhas da frente e onde se encontram estacionados dois sistemas de defesa antiaérea alemães Patriot.