Ataque dos EUA ao Irão vai criar novas tensões nos mercados financeiros. Analistas dizem que subida do preço do petróleo parece certa, o que fará subir preço dos combustíveis e a inflação
O ataque dos Estados Unidos da América (EUA) a três instalações nucleares iranianas na madrugada deste domingo vai levar a uma nova subida dos preços do petróleo que será visível já esta segunda-feira na abertura dos mercados. Esta parece ser a única certeza existente entre os analistas citados na imprensa internacional, que aguardam mais informação, designadamente sobre qual será a reação do Irão, para apontarem valores específicos sobre a dimensão dessa subida de preço.
“Os mercados vão ficar inicialmente preocupados e o petróleo vai abrir em alta”, disse Mark Spindel, diretor de investimentos da Potomac River Capital, citado pela agência Reuters, adiantando que a incerteza vai afetar os mercados, “uma vez que, agora, os americanos de todo o mundo vão ser expostos. E isso vai aumentar a incerteza e a volatilidade, particularmente no petróleo."
Desde que Israel lançou o primeiro ataque às instalações nucleares iranianas, a 13 de junho, o preço do barril de petróleo Brent, que serve de referência para a Europa, tem vindo a subir paulatinamente, tendo tocado quase nos 80 dólares por barril na passada quinta-feira, uma subida que terá como primeiro reflexo para os consumidores portugueses um enorme aumento do preço dos combustíveis esta segunda-feira: três cêntimos na gasolina e oito cêntimos no gasóleo.
Agora, com a entrada dos EUA no conflito, a grande dúvida que parece haver entre os analistas é qual será a dimensão da reação do Irão.
Saul Kavonic, analista de energia da empresa MST Marquee, em Sydney, disse, citado pela Reuters, que o cenário mais provável será o Irão responder visando os interesses americanos no Médio Oriente, incluindo as infraestruturas petrolíferas do Golfo em locais como o Iraque ou fechando a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.
O Estreito de Ormuz situa-se entre Omã e o Irão e é a principal rota de exportação para produtores de petróleo como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Iraque e o Kuwait.
"Muito depende da reação do Irão nas próximas horas e dias, mas isto poderá colocar-nos na via dos 100 dólares por barril de petróleo se o Irão reagir como ameaçou anteriormente", disse Kavonic.
Opinião diferente tem Jamie Cox, do Harris Financial Group. Para este analista é certo que os preços do petróleo vão provavelmente subir com as primeiras notícias, mas diz acreditar que os preços estabilizem dentro de alguns dias, uma vez que os ataques poderão levar o Irão a procurar um acordo de paz com Israel e os Estados Unidos.
“Com esta demonstração de força e a aniquilação total das suas capacidades nucleares, o Irão perdeu todo o seu poder de influência e é provável que acione o botão de escape para um acordo de paz”, afirmou Cox citado pela Reuters.
O eventual fecho do Estreito de Ormuz parece ser mesmo a grande preocupação dos analistas. Ainda antes do ataque dos EUA, os analistas da Oxford Economics apontavam para três cenários, incluindo um desanuviamento do conflito, um encerramento completo da produção de petróleo iraniano e um encerramento do Estreito de Ormuz, "cada um com impactos cada vez maiores nos preços globais do petróleo". E no caso mais grave, os preços mundiais do petróleo aumentam para cerca de 130 dólares por barril, fazendo com que a inflação nos EUA se aproximasse dos 6% até ao final deste ano.
Também o banco de investimento norte-americano, JP Morgan, ainda antes do primeiro ataque de Israel sobre o Irão tinha alertado para os efeitos que poderia ter no preço do petróleo uma escalada do conflito que agora se confirma. Na altura, apesar de manter um valor médio base de 60 dólares por barril de petróleo, os analistas alertavam que nos cenários mais extremos, o preço poderia vir a ficar num intervalo entre 120 e 130 dólares por barril, apontando como caso mais extremos o encerramento do Estreito de Ormuz.
Independentemente do que vier a acontecer, a subida do preço do petróleo vai criar novas tensões inflacionistas, o que a juntar-se ao também efeito inflacionista das tarifas aduaneiras que vierem a ser impostas pelos EUA, vão retirar margem de manobra para que os bancos centrais reduzam taxas de juro.