ENTREVISTA || O Irão chegou a este memorando com os Estados Unidos ferido, sim, mas não totalmente desarmado. Nuno Ribeiro da Silva, especialista em economia e política energética, olha para o Estreito de Ormuz como a carta que permitiu a Teerão transformar fragilidade em poderio negocial: “É uma arma que foram buscar ao arsenal”. O acordo abre 60 dias de negociação e deixa uma certeza incómoda: a geografia ainda manda no petróleo, nos mercados e até na segurança energética da Europa
O memorando está assinado, mas ninguém parece sair dele a celebrar. Há agora 60 dias de negociação, uma crise por desarmar e mercados ainda à espera de perceber se o risco passou — ou apenas mudou de forma. Nuno Ribeiro da Silva prefere olhar para o que obrigou todos a chegar ali.
Não foi confiança. Não foi entusiasmo. “Eu diria que foi a economia”, resume, em entrevista à CNN Portugal.
Antigo secretário de Estado da Energia e antigo presidente da Endesa em Portugal, Ribeiro da Silva vê um acordo sem vencedores evidentes. Os Estados Unidos não saem satisfeitos, Israel também não. O Irão continua pressionado, com receitas energéticas estranguladas e uma população de quase 100 milhões de pessoas para sustentar.
Mas todos perceberam que continuar podia sair mais caro do que parar. “Ambas as lideranças tiveram, no fundo, um sentido de pragmatismo.” Pelo caminho, houve quem tivesse de “engolir alguns sapos”.
O memorando é, para Nuno Ribeiro da Silva, um entendimento “oportunista”. “Não há confiança entre as partes, como é manifesto”, mas todos perceberam o risco de a crise continuar.
O Irão nem sequer controla todo o Estreito de Ormuz — há águas iranianas, águas de Omã e águas internacionais —, mas bastou-lhe mostrar que podia tocar na rota para impor “temor sobre os armadores e sobre as companhias de seguros”. Numa passagem curta, por onde seguem navios carregados de petróleo, gás e produtos refinados, drones e pequenas embarcações chegam para transformar risco militar em risco económico global.
A ameaça deixou de estar apenas no Golfo e passou a pesar nos mercados.
A Ásia, mais dependente desses fluxos energéticos, sentiu-a primeiro; Portugal, mesmo longe, também não fica fora da história. Ribeiro da Silva afasta o cenário de racionamentos ou de falta física de abastecimento. O risco era outro, mais conhecido: “Claramente, é o contágio pelos preços”. Não era preciso faltar energia para a crise chegar cá: bastava que ficasse mais cara.
Daí nasce a crítica à Europa. A transição energética é necessária, mas não apaga décadas de dependência por decisão política. Descarbonizar não dispensa reservas, portos, terminais, refinarias, gasodutos e redes. “Quer queiramos quer não, quer gostemos quer não”, avisa Nuno Ribeiro da Silva, “vamos ter de continuar a usar os hidrocarbonetos por várias décadas”.
A segurança energética também exige não abandonar infraestruturas antes de haver alternativas capazes de garantir o abastecimento. Ou, na fórmula do antigo governante: “Não podemos querer sol na eira e chuva no nabal”.
Este memorando entre os Estados Unidos e o Irão já foi assinado digitalmente e deverá agora abrir um período de 60 dias para negociar um acordo final. A primeira pergunta talvez seja simples ou difícil: estamos perante uma vitória da diplomacia ou perante a tradução económica de que nenhuma das partes aguentava continuar assim por muito mais tempo? Foi a diplomacia ou foi a economia?
Diria que foi a economia. Parece-me manifesto. Perante o desconforto que esta situação criou do ponto de vista económico — e, naturalmente, com reflexos políticos na leitura que as populações fazem, quer nos Estados Unidos, quer no Irão —, as lideranças perceberam, a dada altura, que era melhor arrepiar caminho.
Mesmo que nenhuma das partes esteja satisfeita com o desenlace, havia o risco de ambas perderem. Ainda por cima num quadro crítico, pré-eleitoral, nos Estados Unidos. No Irão não é tanto uma questão de eleições próximas, mas é a situação crítica em termos económicos em que o país se encontra, e a importância que o petróleo e o gás têm para alimentar a população iraniana, que acabam por pesar. Ambas as lideranças tiveram, no fundo, um sentido de pragmatismo.
Por certo, e em particular nos Estados Unidos, com bastante insatisfação com o resultado final e engolindo alguns sapos, como se costuma dizer, mas ainda assim seguiram por esta via. Há também a questão de Israel, que não é de somenos importância. Também aí as pressões de natureza eleitoral e de imagem internacional do país acabaram por levar o governo e a liderança israelita, de uma forma não satisfatória nem convicta, a acomodar-se a este acordo.
O Irão foi duramente atingido militar, política e economicamente, mas chega à mesa com uma carta que poucos países têm: a geografia. A capacidade de ameaçar a circulação no Estreito de Ormuz deu-lhe poder suficiente para transformar a aparente fragilidade militar numa força económica?
Sim, claro que o Estreito de Ormuz é importante. É uma arma que o Irão foi buscar ao arsenal. Mas há um ponto a ter em atenção: o Estreito de Ormuz e as águas do Estreito de Ormuz, na zona mais estreita, com cerca de 30 quilómetros, não são iranianos.
Temos aproximadamente um terço que são águas territoriais do Irão, um terço que são águas territoriais de Omã e um terço que são águas internacionais. Isto do ponto de vista dos factos.
Depois, o que acontece é que qualquer drone tem acesso àqueles cerca de 30 quilómetros. E, tendo em conta que a maior parte da navegação que usa o Estreito de Ormuz transporta petróleo, gás, produtos refinados — que são altamente inflamáveis —, além de navegação contentorizada, o Irão acaba por impor temor aos armadores e às companhias de seguros.
Mesmo não tendo direitos sobre dois terços do Estreito de Ormuz, na prática consegue demonstrar que, com drones e com pequenas embarcações, algumas mais ou menos kamikaze, pode pôr em risco navios, cargas e tripulações.
Ao fazer isso, o Irão condiciona não só as rotas, mas também os preços, os armadores, as refinarias e os governos. Um país que não é uma superpotência militar, nem tem o poder militar dos Estados Unidos ou de Israel, acaba por ter um poder enorme. Hoje devemos medir de forma diferente o poder dos Estados, e não pensar apenas em armamento convencional?
Sim, de alguma forma. Repare que talvez isto não seja absolutamente inédito, embora o contexto seja diferente. Os Estados Unidos saíram mal do Vietname, a União Soviética saiu mal do Afeganistão e, aqui, os Estados Unidos também não saem satisfeitos, no mínimo, com este acordo.
Portanto, não é inédita esta situação de David e Golias, em que o Golias acaba por levar umas boas caneladas de David, que sai airosamente destes confrontos.
É isso que estamos a ver. O quadro militar e o aparato militar colossal e único que os Estados Unidos têm pode também ser roído por drones, pequenas lanchas rápidas e armamento que não tem nada a ver com a sofisticação do equipamento militar instalado nos países do Golfo e também deslocado para esta operação.
Mas, de facto, David vai dando caneladas no calcanhar de Golias.
O memorando prevê passagem segura em Ormuz, levantamento progressivo do bloqueio naval e, entre outras coisas, a discussão sobre o desbloqueamento de fundos iranianos. A economia iraniana era claramente um dos pontos mais vulneráveis do regime, mas, ao mesmo tempo, o Irão conseguiu tornar vulnerável a economia mundial. Como se explica este equilíbrio?
A debilidade económica do Irão é evidente, não só pelo bloqueio de fundos, como também pela paragem dos fluxos normais de entrada de dinheiro no país. Estamos a falar de uma população de cerca de 100 milhões de pessoas e de receitas que vêm, na sua esmagadora maioria, da venda de petróleo, gás e produtos refinados.
A fragilidade da economia iraniana, e os reflexos que isso tem em termos políticos internos, é enorme e muito expressiva. O bloqueio de fundos, as receitas que não entraram durante estes meses e a interrupção ou limitação das exportações de petróleo, gás e refinados colocaram o país numa situação económica muito difícil. Isso tem impacto no bem-estar da população e aumenta o potencial de revolta e de contestação a um regime que é frágil.
Agora, o impacto na economia mundial não tem propriamente a ver com o poder da economia iraniana à escala global. Também não resulta apenas do facto de o Irão ser exportador de petróleo e de algum gás. Resulta, sobretudo, do facto de o Irão, militarmente e pelas ações que desenvolveu, ter travado ou ameaçado o escoamento por Ormuz de boa parte do petróleo, do gás e dos produtos refinados que saem do Golfo Pérsico.
Ou seja, o efeito não é apenas sobre o Irão. É sobre a circulação de petróleo, gás e refinados provenientes da Arábia Saudita, de Abu Dhabi, do Qatar, do Bahrein, dos Emirados Árabes Unidos, de Omã e do próprio Irão.
Foi esse efeito de amplificação que levou, pelo menos temporariamente, a um aumento dos preços de produtos que são essenciais para a economia mundial. A partir daí, vem toda a cascata que conhecemos: inflação, pressão sobre as taxas de juro dos bancos centrais e tendência para o abrandamento da economia, porque o dinheiro se torna mais caro.
Ormuz não é apenas uma passagem marítima; é um “choke point” da economia mundial. O memorando fala em passagem sem cobrança durante 60 dias e depois em conversas com Omã e outros Estados sobre futura administração e serviços marítimos. Isto pode abrir uma disputa mais longa sobre quem regula, protege e eventualmente monetiza Ormuz?
Sim, com certeza. É evidente que é um assunto que não está resolvido, nomeadamente na cabeça dos iranianos. É uma questão importante e crítica para o Golfo e para os países que utilizam o Golfo para os seus abastecimentos e exportações. Também não deixa de ser preocupante que possa vir a ter algum efeito de simpatia sobre outros estreitos naturais.
Há ainda outro ponto. Relativamente aos países e territórios muito dependentes do uso do Estreito de Ormuz — Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Omã, Arábia Saudita, embora a Arábia Saudita também tenha saídas para o Mar Vermelho —, se o Irão conseguir impor, e se a comunidade internacional aceitar, uma cobrança de portagens ou outro tipo de restrições e penalidades à livre circulação no Estreito, isso terá impacto na forma como o comércio mundial olha para o petróleo, o gás e os refinados que saem por Ormuz.
Ou seja, se o Estreito de Ormuz reforçar uma imagem de risco e passar a ter custos de portagem que eventualmente o Irão consiga impor, isso levará a uma penalização do petróleo, do gás e dos refinados que têm de passar pelo Golfo Pérsico. Não só porque os compradores passarão a ter em conta esse custo acrescido, mas também porque os armadores e as companhias de seguros já têm um prémio de risco que não vão esquecer quando tiverem de mandar navios e segurar navios que passam pelo Estreito de Ormuz.
Portanto, é um pau de dois bicos. O Irão pode vir a tentar impor uma cobrança, embora eu pense que será muito difícil que isso venha a ser aceite pela comunidade internacional. Manifestamente é um desígnio do Irão, mas isso prejudicaria a competitividade e a atratividade do abastecimento de petróleo e gás que tem de passar pelo Estreito para chegar ao mercado mundial.
Os mercados reagiram à possibilidade de normalização com a queda do preço do petróleo. Mas uma coisa é assinar um memorando e outra é convencer seguradoras, armadores, petrolíferas e compradores de que aquela rota voltou a ser segura. Há uma diferença entre o tempo da economia e o tempo da política?
Há, claramente. Como alguém dizia, gato escaldado de água fria tem medo.
Ainda por cima num conflito em que, em poucos meses, houve avanços, recuos e novos avanços. E sendo evidente que este é um acordo oportunista, ou seja, um acordo que não é feliz para várias partes — Estados Unidos, Israel, Irão e outros países do Golfo —, a economia e os mercados vão estar sempre de olho muito atento a qualquer episódio, situação ou facto que possa ser lido como potencial desencadeador de uma retaliação.
Não há confiança entre as partes, como é manifesto. As partes continuam a testar-se. O Irão continua a testar os Estados Unidos, Israel continua a testar os Estados Unidos, o Irão continua a fazer ameaças contra Israel, e por aí fora. Isso será sempre uma nuvem a pairar sobre os mercados e sobre a leitura que os agentes económicos fazem da fiabilidade ou da fragilidade desta situação.
Há uma dimensão asiática de que talvez se fale pouco. China, Índia, Japão e Coreia do Sul dependem muito dos fluxos energéticos do Golfo. Nesta negociação pesaram apenas os Estados Unidos e o Irão ou estes aliados e rivais asiáticos também tiveram interesse em acelerar a paz?
Claro. De facto, foi sobretudo a Ásia — e não tanto a Bacia Atlântica, leia-se América e Europa — a ser mais impactada pelo que aconteceu nestes últimos meses. E aí os prejuízos foram significativamente mais expressivos.
A China, por exemplo, procura petróleo para alimentar toda a sua indústria petroquímica, de adubos e assim sucessivamente. Houve um encarecimento bem mais significativo do custo de abastecimento para esses mercados de petróleo e gás do que para a Europa, até porque estavam a comprar petróleo ao Irão com desconto.
A Ásia está muito mais exposta aos abastecimentos provenientes do Golfo Pérsico do que a Bacia Atlântica. Nesse sentido, é natural, até tendo em conta os contactos e as pressões envolvendo Washington e Pequim, que tenha havido pressões da China e também da Coreia do Sul, da Índia, da Indonésia e de outros países no sentido de dizer: “Meus amigos, vejam lá se resolvem isto e se desdramatizam esta situação, porque está-nos a doer bastante.”
Ou seja, encaminhem isto para uma solução ou, pelo menos, para uma desdramatização e um desagravamento da situação criada.
Se o petróleo iraniano regressar de forma mais livre aos mercados, o aumento da oferta pode pressionar os preços em baixa. O Irão ganha oxigénio financeiro, mas os países europeus importadores de energia também podem beneficiar. Quem ganha mais com esse regresso do petróleo iraniano aos mercados?
Ganham os dois lados. Mesmo que o preço do barril de petróleo venha para valores abaixo dos atuais, sublinho que estamos praticamente no preço que existia quando o conflito foi desencadeado. Estamos na ordem dos 75 a 77 dólares, entre o Brent e o mercado americano.
É extraordinário que, depois de tudo o que se passou, o petróleo nunca tenha ido acima dos cerca de 100 dólares, com um pico ou outro na ordem dos 110 ou 115 dólares. Não chegou, nem de perto nem de longe, a valores como os 146 dólares atingidos noutras alturas de grande perturbação no mercado mundial do petróleo, sobretudo quando a crise envolve aquele grande banco mundial do petróleo que é o Golfo Pérsico.
Os preços estão, de facto, num nível normal. Aliás, também não é necessariamente bom para as economias importadoras que os preços venham para valores muito abaixo dos 80 dólares. Tipicamente, 80 dólares é o preço de que países como a Arábia Saudita precisam para pagar as despesas e as condições que proporcionam aos seus cidadãos.
Se o preço vier abaixo desse nível, começa a haver uma tendência para que zonas de extração, nomeadamente o gás de xisto e o petróleo de xisto nos Estados Unidos, deixem de valer a pena estar em operação, porque o preço de equilíbrio, o chamado break-even, anda ali pelos 75 dólares.
Portanto, não é também uma grande ideia acharmos que quanto mais barato estiver o petróleo, melhor será para as economias importadoras. Mais tarde isso pode criar outro problema: uma diminuição da oferta e, consequentemente, uma nova retoma de preços mais altos para animar os produtores a voltarem ao mercado.
Um preço nesta ordem de grandeza é perfeitamente confortável para as economias importadoras, nomeadamente para a Europa, como já era antes da guerra. E também é melhor do que nada para os exportadores que, não vendendo, não recebem.
Portugal está longe de Ormuz em termos físicos, mas não em termos de preços, inflação, combustíveis, indústria, transportes e taxas de juro. Para uma economia como a portuguesa, o principal risco numa crise destas é a falta de energia ou o contágio pelos preços e pela inflação?
Claramente, é o contágio pelos preços. Durante este período, em várias opiniões que transmiti, disse que, no contexto atual, estávamos longe de uma situação de falta física de abastecimento das matérias-primas de que precisávamos: petróleo, gás e refinados.
Houve algum empolamento e algum exagero, a meu ver, como até agora se tem vindo a confirmar. Foram feitas declarações, até por gente muito credenciada, incluindo responsáveis da Agência Internacional de Energia e da Shell, no sentido de que era preciso prepararmo-nos para racionamentos, veículos a circular alternadamente, diminuição da velocidade nas autoestradas, teletrabalho, redução do uso dos transportes e assim sucessivamente.
Francamente, com os dados que iam surgindo, achei que essa leitura era manifestamente exagerada. Não estamos imunes aos preços do mercado internacional, do mercado mundial, mas estamos longe de uma crise física de abastecimento.
Foi dito que podia haver problemas em alguns refinados, pelo facto de se terem fechado refinarias na Europa nas últimas décadas e de a refinação ter passado a situar-se sobretudo em países do Golfo. Mas, com as reservas existentes, com a capacidade de refinação que temos em Portugal, nomeadamente em Sines, e com as reservas coordenadas pela Agência Internacional de Energia, não estávamos numa situação de preocupação quanto ao abastecimento físico — a não ser que o conflito se prolongasse por muitos meses.
Mesmo em produtos mais sensíveis, como combustível para aviação e gasóleo, não estávamos numa situação de preocupação de abastecimento físico. O que vai acontecer, mesmo num quadro de cessar-fogo e de tendência para alguma estabilidade, é que haverá ainda alguma pressão sobre os preços.
Entretanto, houve países que aproveitaram o contexto de preços mais atrativos para aumentar a extração. É o caso dos Estados Unidos, do Brasil, de países como a Venezuela, de países do continente africano e também de Abu Dhabi, ao tentar libertar-se de um regime de quotas que prejudicava o seu potencial de extração.
Mas ainda há uma situação a normalizar: a reposição dos stocks estratégicos e das reservas para o aumento de consumo que se verifica sempre no hemisfério norte durante o inverno. Durante este período, pelos preços elevados, e inclusivamente por coordenação de políticas pedida por Bruxelas, foi sendo protelada a reposição do armazenamento, nomeadamente de gás natural, que normalmente é feita nesta época, depois do fim do inverno.
Vai haver, portanto, um olhar atento para o mercado por parte dos países importadores, procurando a melhor oportunidade para repor o arroz e a massa que foram buscar à despensa durante o tempo em que não puderam ir à mercearia.
Se este memorando sobreviver — e ninguém pode garantir isso neste momento —, que lição fica para a política energética europeia? A transição energética reduz a dependência do petróleo e do gás, mas a economia continua exposta a choques geopolíticos. A Europa está a ganhar autonomia estratégica ou apenas a trocar umas dependências por outras?
O que acontece na Europa, para além das políticas que já estavam aceleradas depois da guerra na Ucrânia, é a necessidade de pôr cada vez mais ênfase nas linhas da política traçada no chamado REPowerEU. Ou seja, a Europa tem de trabalhar no sentido de mitigar — não de acabar, mas de mitigar — a dependência energética que tem do exterior.
Não vamos resolver tudo no médio prazo, nem mesmo no médio e longo prazo, apenas com o aproveitamento de fontes renováveis. Não é por aí que vamos resolver tudo. As políticas de eficiência energética são importantíssimas, mas as fontes renováveis produzem eletricidade, e o caminho para uma eletrificação crescente da economia, que de facto pode ser alimentada por renováveis, leva muito tempo.
Há uma lição que a Europa tem de tirar e sobre a qual tem de pensar seriamente: algum voluntarismo que temos tido em termos de não aceitar que haja prospeção e pesquisa de petróleo e gás no território europeu. Também somos muito penalizadores e críticos relativamente às infraestruturas de transformação, leia-se refinarias, e de armazenamento de hidrocarbonetos e derivados do petróleo.
Um dos problemas com que nos confrontámos nesta crise, como foi abundantemente revelado, foi o facto de não termos refinados suficientes, de forma confortável, para alimentar a aviação e a mobilidade — não tanto em gasolinas, mas em gasóleo.
Isto acontece porque as refinarias europeias têm vindo a fechar sistematicamente, fruto das grandes restrições à sua operacionalidade e funcionamento nos países europeus. Também é sempre crítico quando se pretende construir, por exemplo, um terminal para receber gás natural liquefeito ou quando se pretende construir pipelines e gasodutos.
Temos de ser mais realistas e perceber que a dependência não vem apenas de termos ou não termos petróleo e gás natural. É toda a cadeia: portos, terminais, refinarias, terminais de gás, tubos, pipelines e gasodutos.
Não podemos ser tão restritivos ao ponto de travar de imediato e prosseguir com a desativação dessas infraestruturas e com a proibição de construção de novas infraestruturas deste tipo. Quer queiramos, quer não, quer gostemos, quer não, vamos ter de continuar a usar hidrocarbonetos durante várias décadas.
Essa é uma lição a tirar, mesmo em termos de prospeção, pesquisa e extração. Neste momento, os únicos países na Europa que têm alguma produção expressiva de petróleo e gás são o velhinho Mar do Norte e a Noruega.
A Polónia, por exemplo, tem condições geológicas para exploração de petróleo e gás de xisto, mas esses projetos foram penalizados e ficaram no tinteiro. Nós temos gás natural na costa algarvia e viu-se o que aconteceu: caiu o Carmo e a Trindade, e ainda nem se tratava de exploração, apenas de prospeção e pesquisa para saber se tínhamos reservas interessantes para uma exploração economicamente sustentada.
Temos de ter esse pragmatismo e tirar lições desta vulnerabilidade que temos na Europa relativamente ao aprovisionamento energético. E temos de tomar medidas que nos deem suporte num dos pilares críticos: a segurança do abastecimento.
Há uma velha máxima segundo a qual os Estados Unidos inovam, a China copia e a Europa regula. Neste caso, talvez a Europa esteja a regular em demasia. O problema europeu é excesso de regulação e falta de realismo energético?
É, de alguma forma, isso que tem vindo a acontecer em vários domínios. Tem de haver uma leitura mais realista, sem perdermos os objetivos. É evidente que a descarbonização é relevante. É evidente que todos os objetivos do Pacto Ecológico, do Green Deal, são desejáveis.
Mas também ficamos muito nervosos quando há um apagão ou falta de eletricidade num determinado local. Para mitigar esse risco, temos de ter linhas alternativas. Se falha uma linha, temos de ter outras linhas que permitam chegar a uma cidade por outra rua, por outra estrada.
Mas, quando se quer construir uma nova linha, aparece o “aqui d’el-rei” e surgem todas as barreiras possíveis. Portanto, não podemos querer sol na eira e chuva no nabal.
É preciso repensar o voluntarismo de muitas das medidas que vamos tomando. Mesmo que estejam carregadas de boas intenções, temos de perceber se estão de acordo com a realidade.
