Há ainda muita confusão sobre o Estreito de Ormuz, o urânio enriquecido e a situação no Líbano. A acreditar no otimismo de Donald Trump, pode ficar tudo resolvido já este fim de semana na Europa
Há um acordo para se alcançar um memorando de entendimento e este é o primeiro problema que levanta todas as dúvidas e não quaisquer certezas sobre o futuro da guerra no Médio Oriente. Embora tenham estreitado as suas posições, Estados Unidos e Irão continuam a dizer coisas diametralmente diferentes, o que pode ser só a diplomacia a falar, mas também pode ser um mau presságio.
Depois de o presidente dos Estados Unidos ter anunciado um “grande acordo” que acreditava ser também do agrado do líder supremo do Irão, Donald Trump sugeriu que a assinatura de documentos pode ser alcançada já este fim de semana, atirando até a Europa, em concreto Genebra, como palco para isso.
E aqui começam logo as diferenças. O Irão já foi bem claro ao dizer que não tomou ainda uma decisão final, tendo até afastado a hipótese de um encontro direto entre as duas partes, independentemente do nível diplomático.
Mas este aparente desencontro geográfico é apenas parte do problema, já que Estados Unidos e Irão parecem não ter exatamente a mesma perspetiva do que está incluído neste memorando de entendimento.
Para a Casa Branca o Estreito de Ormuz é total e imediatamente reaberto, enquanto o urânio enriquecido do Irão é transferido para fora do país e colocado a cargo das autoridades norte-americanas. Para a República Islâmica Israel tem de sair total e imediatamente do Líbano, enquanto o policiamento da zona por onde passa 20% do petróleo mundial continuará a cargo de Teerão.
O que dizem os EUA
Talvez a preparar-se para o grande combate de UFC que vai decorrer este domingo na Casa Branca, Donald Trump tem falado menos, mas um responsável da administração norte-americana tratou de esclarecer o entendimento atual.
De acordo com esta fonte, que falou à agência Reuters, todos os principais objetivos dos Estados Unidos estão plasmados no acordo de que se fala.
Abre-se o Estreito de Ormuz, o urânio enriquecido do Irão passa para o lado norte-americano e há a promessa de que Teerão nunca vai ter uma bomba nuclear
“O acordo com o Irão garante uma paz a longo prazo na região”, indicou o mesmo responsável, sendo que existe a previsão de que o regime iraniano seja alvo de inspeções periódicas para fiscalizar o cumprimento do acordo.
Em troca, o Irão deverá ser “recompensado economicamente”, o que passa pelo levantamento do bloqueio imposto pelos Estados Unidos e pela libertação dos tais 24 mil milhões de dólares em ativos que ainda estão congelados, desde que seja cumprido o desmantelamento do programa nuclear.
“O acordo é especificamente sobre a abertura do Estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio e a transferência do material enriquecido”, acrescentou a mesma fonte, prometendo um alívio “significativo” das sanções caso estes primeiros pontos sejam cumpridos.
Mas este ponto é importante. Levantam-se as sanções, sim, mas o vice-presidente dos Estados Unidos decidiu esclarecer que não é imediatamente. Na prática, e segundo esta visão norte-americana, o Irão cumpre o que prometeu e só depois de isso estar em prática é que Teerão começa a ter algum benefício.
O que diz o Irão
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão esteve durante largos minutos a falar na televisão nacional, começando por até dar um bom augúrio para o que aí vem ao repetir as palavras do primeiro-ministro do Paquistão: “nunca estivemos tão perto” de alcançar um acordo.
E ainda que Abbas Araghchi tenha sido otimista, avisou logo que era preciso não especular, prometendo mais detalhes para uma altura posterior.
Aproximações à parte, o chefe da diplomacia iraniana deu um autêntico chega para lá na versão dos Estados Unidos, empurrando a questão do urânio enriquecido apenas para um acordo final.
“O assunto do enriquecimento e dos stocks de materiais enriquecidos vai ser determinado no acordo final”, apontou, recusando ainda a transferência destes componentes para o exterior do país, já que a única forma de diluir o urânio é fazê-lo no país.
“Estamos a tentar apontar que a solução deste assunto vá nesse sentido”, referiu, garantindo que o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão tem o “controlo total das negociações”.
“Há apoiantes e opositores entre os membros do Conselho Supremo de Segurança Nacional em relação a este texto, mas, em último caso, a decisão vai ser tomada coletivamente. E depois da decisão ser tomada vai ser anunciada”, prometeu, deixando então bem claro que o acordo pode não estar assim tão garantido.
Quanto ao Estreito de Ormuz, Abbas Araghchi também foi claro: é a “ferramenta de dissuasão mais importante”, pelo que o Irão não vai abdicar dela à primeira.
E não só não ficou claro que o Estreito de Ormuz vai ser imediatamente reaberto como foi deixada uma garantia que não deve agradar aos Estados Unidos. Aquela zona nunca vai voltar a ser como era, passando a ser supervisionada com “soberania do Irão e de Omã”.
Abbas Araghchi sabe que durante vários anos a circulação foi livre, mas sugeriu que isso deixará de ser assim, ainda que não tenha concretizado a ameaça em algum tipo de portagem ou mecanismo semelhante.
“A natureza da outra parte é a quebra do compromisso. Eles criam centenas de problemas na implementação e temos essa experiência”, acrescentou.
E depois há outro problema, talvez até o maior de todos, porque envolve uma terceira parte que rapidamente anunciou que estava fora do acordo.
Falamos de Israel, claro, que o Irão exige que saia totalmente do Líbano, sendo que só nesse cenário é que Teerão considerará o acordo cumprido.
“Nunca vamos deixar o Líbano sozinho”, garantiu Abbas Araghchi, deixando um grande ponto de interrogação sobre o que vai acontecer, até porque as explosões no sul do país em que está instalado o Hezbollah continuam diariamente.
Resta esperar pelos novos desenvolvimentos. Se o otimismo de Donald Trump imperar, a decisão pode chegar no fim de semana.
