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O mundo precisa de abrir o Estreito de Ormuz e Portugal quer ajudar. O problema é que só pode "bater palmas" e "fazer coro"

27 mar, 22:00
Uma vista de satélite do Estreito de Ormuz, uma via marítima estratégica entre o Irão e Omã que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico. Gallo Images/Orbital Horizon/Copernicus Sentinel Data 2025/Getty Images

Primeiro eram 22 países, depois passaram a 30 e Portugal não quis ficar de fora. Querem "garantir a passagem segura" pelo estreito o mais rápido possível. O "olho dos canhões" está na área e há quem acredite que este foi um mero ato diplomático. Mas há também quem tema operações que possam ser consideradas um "ato hostil"

Portugal juntou-se ao grupo de 30 países dispostos a ajudar na reabertura do Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irão desde o início da guerra. A informação foi confirmada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros esta semana. E o que deseja este grupo de Estados? "Garantir a passagem segura" pelo estreito o mais rápido possível.

Dos especialistas militares ouvidos pela CNN Portugal, o major-general Agostinho Costa fala numa iniciativa "diplomática" inconsequente nesta fase da guerra. Já a presença do nosso país "não tem significado nenhum". Portugal foi "fazer coro" e "bater palmas". Para o almirante Fernando de Melo Gomes "são coisas muito sérias" que não se tratam em cima do joelho e "nesta fase é entrar em guerra tecnicamente com o Irão".

Agostinho Costa defende que a decisão destes países não passa de uma "declaração diplomática". "Esta declaração é meramente um ato diplomático. E a diplomacia já teve melhores dias... porque agora há ali o olho dos canhões", afirma à CNN Portugal.

E o que pode fazer o nosso país? "Portugal faz coro. É como aqueles programas de televisão em que há os aplaudidores. Tem os pivôs, o convidado e, depois, um conjunto de pessoas a bater palmas", admite. "Isto não tem significado nenhum, porque depois não se concretiza em ações concretas", clarifica.

"Isto é muito bonito em termos diplomáticos. O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros faz uma declaração, já ouvimos dizer que há tempos... que Portugal tinha dado os grandes contributos no âmbito da resolução dos conflitos no Médio Oriente, etc. Mas não passa de retórica, não é?", defende Agostinho Costa.

Na sua opinião, estes 30 países nunca irão chegar ao Estreito de Ormuz. E de pouco vale dizerem que há "apoio de países do Golfo", porque as suas Forças Armadas "são exíguas", tirando "a Arábia Saudita", que será o único país que tem umas "Forças Armadas com dimensão relevante".

"É entrar em guerra tecnicamente com o Irão"

Por isso mesmo diz que o mais importante não é a declaração, mas "o contexto em que a declaração é feita". Ou seja, entramos num "novo período de pirataria de alguma atividade, que contraria o princípio da livre navegação". E a história parece repetir-se: "Isto faz-nos lembrar o século XVI, em que Portugal dividiu o mar com os espanhóis. Estamos a voltar novamente a uma situação de mares fechados em que o Estreito de Ormuz se enquadra precisamente nisso". E Agostinho Costa não tem dúvidas de que é "completamente condenável a apropriação do estreito pelos iranianos", fazendo dele "águas territoriais".

Já o almirante Fernando de Melo Gomes questiona em que altura este conjunto de países pretende se deslocar para o Estreito de Ormuz. "Depois das hostilidades, depois da guerra acabar, é mais simples. Nem sei o que é que lá vão fazer os países", considera em declarações à CNN Portugal.

Eventualmente, numa situação em que exista "uma minagem do estreito... As minas vão lá ficar durante muito tempo e é preciso limpar aquilo", admite. Mas sem ser nessa exceção: "Não entendo, não consigo compreender. Depois das hostilidades não vale a pena".

E não tem dúvidas de que agir, nesta fase do conflito "é entrar em guerra tecnicamente com o Irão. Isto são coisas muito sérias, tem que se ponderar muito bem. Não se tratam em cima aos joelhos". E, por isso, alerta que "começar operações no Estreito de Ormuz, designadamente dentro das águas territoriais do Irão é um ato hostil".

Isto não pode acontecer sem o consentimento do Irão? Segundo Fernando de Melo Gomes só "poderia acontecer se tivéssemos decididos a entrar no conflito". Qualquer intervenção na área obrigará a um consentimento daquele país.

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