O Irão fez a economia mundial refém e os EUA acabam de lhe dar razão

CNN , Hanna Ziady
8 abr, 19:50
Estreito Ormuz

ANÁLISE || Não foram precisas muitas semanas de guerra para um pânico total na economia mundial. O problema é que a razão para isso ainda tem várias incógnitas a pairar

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou um frágil cessar-fogo de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irão como uma “vitória total e completa”. Mas os termos da trégua realçam a forma como o Irão tem utilizado o controlo do Estreito de Ormuz para obter uma enorme influência sobre a economia global.

O facto de o cessar-fogo estar condicionado à concordância do Irão em reabrir a via navegável vital é um reconhecimento tácito da influência de Teerão sobre o ponto de estrangulamento petrolífero mais importante do mundo - e, com isso, sobre parcelas significativas da economia global.

“O Irão não precisa de muita força militar para causar uma grande perturbação na economia global”, lembrou Samantha Gross, especialista em energia da Brookings Institution, no mês passado.

Os investidores e operadores celebraram o cessar-fogo, mesmo com os analistas a avisarem que as preocupações com o fornecimento global de petróleo não desapareceram. Os preços do crude caíram entre 15% e 20% só esta quarta-feira, com os preços de referência do gás natural europeu a cair a pique numa margem semelhante.

“Existem obstáculos significativos a ultrapassar antes que o acordo de cessar-fogo entre os EUA, Israel e o Irão se possa traduzir num fim duradouro para a guerra”, alertou Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics, numa nota. “Para os mercados, a questão mais crítica continua a ser o estatuto do Estreito de Ormuz.”

Ainda não se sabe se a navegação será retomada na íntegra e, após alguns sinais de trânsito de petroleiros na manhã desta quarta-feira, o Irão terá interrompido o tráfego após o ataque de Israel ao Líbano. Pelo menos por enquanto, os militares iranianos controlam estas viagens, o que lhes confere um poder singular no que diz respeito aos mercados globais de energia.

O Irão bloqueou efetivamente o Estreito de Ormuz à grande maioria das embarcações durante mais de seis semanas - um cenário anteriormente impensável para uma via navegável que transporta normalmente cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo e gás natural e um terço das exportações mundiais de fertilizantes de ureia.

“É com isto que os analistas de segurança energética... se preocupam há algum tempo”, diz Gross, da Brookings Institution.

Países de todo o mundo estão a sofrer com o choque histórico no fornecimento de petróleo.

Na Ásia, a iminente escassez de combustível está a levar os governos a tomarem medidas drásticas, com as Filipinas a declararem o estado de emergência energética nacional. A Europa, por sua vez, enfrenta preços crescentes da eletricidade precisamente quando recupera da crise provocada pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia. E mesmo nos Estados Unidos, um país rico em petróleo, os preços da gasolina dispararam.

A influência do Irão sobre o estreito "foi suficiente para que o país conseguisse um cessar-fogo" e, crucialmente, com o seu próprio regime enfraquecido, mas ainda de pé, refere Dan Alamariu, estratega-chefe de geopolítica da consultora Oxford Economics, à CNN. O Irão transformou o Estreito de Ormuz numa arma para travar uma "guerra económica".

Petróleo iraniano atinge preços altíssimos

O controlo do Estreito de Ormuz deu ao Irão duas vantagens cruciais: influência económica sobre o resto do mundo e a capacidade de reabastecer os seus cofres de guerra com as receitas das vendas de petróleo - a preços inflacionados.

Washington chegou mesmo a suspender temporariamente as sanções a cerca de 140 milhões de barris de petróleo iraniano transportado por via marítima para aliviar a crise global de abastecimento.

As exportações de petróleo do Irão atingiram uma média de cerca de 1,85 milhões de barris por dia até março, cerca de 100 mil barris por dia a mais do que a média entre dezembro e fevereiro, segundo Homayoun Falakshahi, analista da empresa de dados e análise Kpler.

O Irão está também a lucrar mais com as suas exportações de petróleo, que em tempos normais são vendidas com um desconto de cerca de 10 dólares por barril em relação ao petróleo Brent. Em algumas vendas recentes na China, que normalmente absorve a maior parte do petróleo iraniano, este petróleo foi vendido por cerca de 3 dólares por barril a mais do que o Brent, reforça Falakshahi. Na Índia, este prémio chegou aos 7 dólares em alguns casos, acrescenta, citando comerciantes e refinadores locais em ambos os países.

“A maior quantidade de clientes e a falta de petróleo concorrente do Médio Oriente impulsionaram o preço do petróleo iraniano”, completa Falakshahi à CNN.

A carta na manga do Irão

Teerão, por sua vez, quer continuar a exercer a sua recém-adquirida força económica, mantendo a sua influência no acesso ao estreito mesmo após o fim da guerra, de acordo com uma proposta de 10 pontos que fundamenta as negociações com os Estados Unidos.

“O regime governante do Irão consolidou [indiscutivelmente] o seu controlo político e demonstrou a sua capacidade de colocar os mercados globais de petróleo e gás de joelhos”, escreveu Karl Schamotta, estratega-chefe de mercado da Corpay Currency Research, numa nota nesta terça-feira.

Trump, por sua vez, descreveu as propostas do Irão como “uma base viável para a negociação”, de acordo com uma publicação no Truth Social.

Diversos analistas veem agora um sistema de portagens potencialmente permanente para os navios que transitam pelo estreito, embora com reservas importantes.

“O cessar-fogo reforçou o Estreito de Ormuz como um ponto de pressão e um mecanismo de negociação”, escreveram os analistas da Kpler numa nota à parte publicada esta quarta-feira.

Por exemplo, a Kpler sugeriu que Omã, em cujas águas territoriais se encontra parte do estreito, poderia atuar como um “intermediário neutro e não sancionado” que receberia os pagamentos e depois passaria uma parte acordada para o Irão. Formalizar o acesso pago ao Estreito de Ormuz poderia potencialmente ajudar a satisfazer outra das principais exigências do Irão: a compensação económica pelos danos causados ​​pelo conflito.

Teerão já tinha começado a cobrar taxas de trânsito aos navios nas últimas semanas, com pelo menos uma embarcação a pagar dois milhões de dólares para o fazer, de acordo com a empresa de inteligência marítima Lloyd’s List.

A agência de notícias semioficial iraniana Tasnim noticiou que o Irão e Omã planeiam cobrar taxas de trânsito. A CNN contactou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Omã para obter comentários.

É provável que as empresas de transporte marítimo comercial e as seguradoras aceitem as taxas de trânsito “mais rapidamente do que os decisores políticos”, segundo a Kpler. “Para grande parte da capacidade de exportação do Golfo, não existe uma rota alternativa viável.”

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