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O abate do Apache foi uma "desculpa política" para os EUA voltarem a atacar o Irão. Guerra chega a novo ponto de tensão

9 jun, 23:17
Imagem de guerra no Irão (Vahid Salemi/AP)
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No Líbano a guerra não pára e isso já é o suficiente para não se avançar em lado nenhum, mas o Irão voltou aos ataques em força e a escalada volta a ser um cenário a bater à porta

“O que estava a fazer um helicóptero Apache em águas territoriais que não são suas?” Foi a questão que Tiago André Lopes atirou para cima da mesa para falar na existência não de um cessar-fogo, mas antes de um simulacro, que ainda por cima é “mau”.

O especialista em Relações Internacionais falou com a CNN Portugal ainda antes de se saber que os Estados Unidos tinham lançado uma vaga de ataques contra o Irão, mas anteviu esse mesmo cenário, estranhando a presença daquele que é consensualmente o melhor helicóptero de ataque do mundo em zona inimiga.

“Este é o momento talvez mais frágil desta simulação de cessar-fogo. A questão do helicóptero parece-me uma desculpa política para um ataque que Donald Trump pensa que deve realizar”, continuava Tiago André Lopes, lembrando que o Apache estava sobre o Irão e Omã, a violar território soberano.

Esta foi, de resto, uma das defesas do Irão, que nem sequer reivindicou a responsabilidade pelo abate do Apache, ao contrário do que já fez com outras aeronaves que caíram durante a guerra.

Em sentido contrário, o Comando Central dos Estados Unidos anunciou que o helicóptero tinha mesmo sido abatido pelo Irão, não tendo resultado do incidente mais do que danos materiais, já que os soldados que seguiam a bordo foram salvos por um drone naval.

Nesse mesmo anúncio o Comando Central reservava-se ao direito de responder ao Irão, algo que Donald Trump também deixou claro na sua Truth Social, onde até defendeu uma resposta militar como algo “necessário”.

Foi neste contexto que, por volta das 22:00 de Portugal continental, o Irão foi atingido em zonas como Qeshm, Sirik ou Bandar Abbas, cidades que têm sido alvo de alguns ataques esporádicos, ao contrário de centros mais nevrálgicos como Teerão ou Isfahan, que parecem ter passado intocadas.

Minutos depois foi o próprio Donald Trump, em declarações à ABC News, a anunciar uma resposta "muito forte, muito poderosa" contra o Irão, numa operação que demorou mais de uma hora, e que atingiu sobretudo sistemas defensivos e radares iranianos.

Os Estados Unidos justificaram os ataques com a “legítima defesa” em resposta ao abate do helicóptero, mas todo este cenário deixava Tiago André Lopes com dúvidas do prazo de Donald Trump, que prometeu boas notícias para dois ou três dias.

“Era o Apache que estava em violação das normas internacionais, em violação de território soberano. [O ataque do Irão] é do ponto de vista legal pelo menos legítimo. Daí a extrapolar para uma resposta norte-americana é um pretexto político e é um mau pretexto político”, sublinhava Tiago André Lopes, antecipando um ataque que se verificou efetivamente, e que aconteceu a três do início do Campeonato do Mundo, onde também vai participar o Irão.

Na tentativa de responder à questão lançada por Tiago André Lopes, o major-general Agostinho Costa adianta que o helicóptero estaria a acompanhar missões de patrulhamento dos Estados Unidos.

O especialista em assuntos de segurança falou também antes da retaliação norte-americana, mas também já dava conta das várias movimentações de um lado e do outro que apontavam nesse sentido.

Perante todo este cenário, a “vitória total” prometida por Donald Trump para as próximas semanas não passa da “demagogia” a que o presidente dos Estados Unidos “nos tem habituado”.

“Se houvesse condições para essa derrota, ela já devia ter sucedido. Tem havido pela parte de Donald Trump uma tentativa de procurar arrastar o problema para ver se ele se resolve por si”, aponta, falando numa “marcação de território” que pouco mais do que serve do que para “satisfazer as opiniões internas”.

O outro lado da guerra

E se é verdade que não têm sido assim tão comuns os ataques entre Estados Unidos e Irão, o irritante que trava uma paz total está noutra geografia, na fronteira entre Israel e o Líbano.

O Irão já deixou bem claro que não há qualquer fim de guerra sem que as tropas israelitas saiam do Líbano, onde continuam a avançar para conter o Hamas, pelo que a cada vez mais difícil relação de Donald Trump e Benjamin Netanyahu também é um ponto quente da guerra.

Tiago André Lopes defende que os Estados Unidos não controlam Israel - “absolutamente não” -, mesmo que Donald Trump venha para a imprensa dizer que é ele quem controla tudo e que ordena os ataques.

“Já quase ninguém valoriza o jogo dos prazos de Donald Trump”, refere o especialista, que também duvida que os Estados Unidos possam mesmo abandonar o apoio a Israel.

Talvez o próprio Donald Trump tenha razão na ironia com que brindou os jornalistas na Casa Branca na semana passada, referindo que no Médio Oriente o conceito de cessar-fogo é diferente e inclui algumas trocas de tiros.

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