Filhos do século

4 mar, 15:38

Os homens – como se sabe – tornam‑se muitas vezes naquilo que acreditam ser.”*

Vício humano, temos tendência a estruturar a  passagem do tempo como um processo coerente e conclusivo, acreditando em princípios, meios e fins. O triunfo das democracias liberais na Guerra Fria com a queda da União Soviética impulsionou convicções sobre um certo “fim da História” que mergulhou o Ocidente num otimismo cego de que só o progresso ao serviço do Bem poderia prevalecer a partir daí, ignorando a possibilidade da instrumentalização do progresso ao serviço do Mal, racionalizando e moralizando intervenções sempre que a História se desviasse, anos depois como aconteceu, dessa premissa dominante e transversal - e talvez, hoje, visto daqui em pleno 2026, um pecado original. Justiça seja feita, quem pode realmente culpar a crença no melhor possível, ao fim de décadas dos conflitos mais sangrentos da Humanidade e da desconfiança mútua que se seguiu, conduzindo-a a uma bipolarização supersónica que diluiu e forjou estados, nações e alianças, culturas e modos de vida, artes, ciências e tecnologias? Depois disso, a promessa da manhã do mundo só poderia ser uma certeza.

Mas depois, na verdade, um inverno do mundo: Balcãs e Jugoslávia, 11 de Setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque, a crise financeira global, a crise na Ucrânia, a anexação da Crimeia e a guerra no Donbas, a Primavera Árabe, a Síria, a crise de refugiados e os atentados na Europa, o Brexit e a eleição de Donald Trump, a pandemia e a invasão do Capitólio, a invasão da Ucrânia, o 7 de Outubro, a guerra em Gaza e o Médio Oriente em convulsão, até aqui, onde estamos agora, a guerra no Irão. 

A crise no Ocidente acelerada pelos ressentimentos da globalização e das promessas incumpridas do liberalismo, e assim o advento dos homens-fortes que sobrevivem nas frustrações do homem-comum e na ideia da decadência civilizacional. Como fendas na muralha do otimismo inicial, atravessadas por sombras carregadas pela dúvida. Que transição habitamos assim na infinita passagem do tempo? Quando acabou realmente o século XX e começou o século XXI? E será este o século pós-liberal?

Perdemos a capacidade de nos sentirmos atravessados por um grande tempo, que vem de longe e vai para longe; tornámo‑nos surdos à voz que, nos momentos de desespero, nos reconfortava sussurrando: coragem, avança, não és o primeiro, não és o último, não estás sozinho; contigo marcham as legiões de seres humanos que viveram e desapareceram antes de nasceres e marcha contigo uma multidão ainda mais numerosa, a das mulheres e dos homens que ainda não nasceram.”**

No que já nasceu e se apagou e ainda está por nascer, sendo a História movida pelo Homem, é assim legítimo querer saber se vivemos inícios, meios ou fins, ou se tudo, ao mesmo tempo, sobreposições indecifráveis, incertas, tão incertas quanto o destino para onde nos guiam os novos homens “providenciais” e que, tal como tantos antes deles, século após século, se tornaram naquilo que acreditam ser.

Ainda haverá tempo de acreditarmos no melhor possível?

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*Antonio Scurati, M. O Filho do Século

** Antonio Scurati, Fascismo e populismo. Mussolini hoje

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