São já dezenas de ataques de cada lado, mas os sucessos militares são bem diferentes. Há quem já fale mesmo numa "guerra", sendo que todos parecem querer avançar para uma negociação. Todos menos um
Israel ataca o Irão, que contra-ataca com o anúncio de centenas de mísseis, para depois voltar a posição defensiva e ver o seu próprio território a arder - na imagem de capa vê-se um homem a olhar para uma central de armazenamento de petróleo engolida pela chamas em Teerão. Desde a madrugada de sexta-feira que há uma lógica de parada e resposta no Médio Oriente, com o Líder Supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, a já ter utilizado a palavra “guerra”.
Ambos os lados têm um objetivo, aponta à CNN Portugal Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. E um objetivo decorre do outro, refere, indicando que o principal objetivo do Irão é, desde a instauração da República Islâmica, em 1979, a destruição do Estado de Israel.
“Este regime tem como principal objetivo a destruição do Estado de Israel. É completamente contra o Estado de Israel”, afirma Miguel Baumgartner, sublinhando que “o Irão não é vítima nesta situação”.
O Irão continua a ter uma contagem própria que aponta até 2040 para destruir “tudo o que resta” do Estado de Israel. A julgar pelos mais recentes atos, parece estar longe de o conseguir.
Do lado israelita não se fazem grande anúncios de antecipação, mas antes ataques específicos e altamente dirigidos, e que já provocaram a morte a uma grande parte da cúpula militar iraniana. Do lado de lá, o Irão anuncia centenas e centenas de mísseis divididos por várias vagas, mas falha em anunciar a destruição de alvos específicos.
Cada uma das fotografias abaixo que tem um retângulo encarnado por cima simboliza um alto comandante morto. Entre eles estão Mohammad Bagheri ou Hossein Salami, respetivamente chefe das Forças Armadas e líder do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.
צה״ל חיסל את ראש אגף המודיעין של הכוחות המזוינים ואת מפקד מערך טילי הקרקע-קרקע של משמרות המהפכה באיראן
יותר מ-20 מפקדים צבאיים של המשטר האיראני חוסלו
כעת ניתן לאשר כי במכת הפתיחה של מבצע ״עם כלביא״, חוסלו ראש אגף המודיעין במטה הכללי של הכוחות המזוינים באיראן ומפקד מערך… pic.twitter.com/VdXzIpe8fC
— צבא ההגנה לישראל (@idfonline) June 14, 2025
Mas do lado de lá também há um objetivo que não é assim tão diferente. Israel não quer destruir um Estado, mas quer destruir um regime. O dos aiatolas, claro, que desde 1979 mudaram o xadrez político do Médio Oriente, colocando fim a um cenário de um Irão ocidental e amigo dos Estados Unidos.
“Esta não só uma operação especial preventiva para a questão nuclear. Isso é só um pretexto [de Israel] para uma guerra direta. Não contra o Irão, mas contra este regime político”, frisa Miguel Baumgartner, lembrando que a narrativa oficial de Telavive é que a ação não podia esperar porque o inimigo estava perto de conseguir fabricar uma bomba nuclear.
Uma guerra que interessa então a Israel, claro, mas também a países árabes como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos ou o Bahrain. É que, como lembra Miguel Baumgartner, estas monarquias da Península Arábica dependem fortemente do comércio, pelo que o seu sustento poderia ficar em perigo com um Irão armado nuclearmente.
Mas é também uma guerra que interessa aos Estados Unidos. Mesmo que quase todos os membros da administração Trump já tenham vindo garantir que não participaram em qualquer ataque, a destruição ou o enfraquecimento de uma ameaça como o Irão é naturalmente bem-vista. De resto, o presidente norte-americano já veio dar a entender que a ausência de vontade por parte de Teerão em alcançar um acordo sobre o nuclear pode ter precipitado estes ataques. O mesmo Donald Trump veio até avisar que os ataques israelitas podem ainda ser piores se esse acordo não for, entretanto, alcançado.
E esta posição é mais fácil de assumir num cenário em que Israel parece estar em clara vantagem. O tenente-general Marco Serronha lembra a capacidade militar, mas também o envolvimento dos serviços de informação, nomeadamente da Mossad, que foi crucial nos primeiros ataques, contrabandeando armas dentro do próprio território iraniano.
“Os Estados Unidos sabiam da situação. Não sei se sabiam exatamente da hora, mas esta situação não tem outra saída a não ser voltar à mesa das negociações”, refere o militar.
Isto porque “o Irão está numa situação de muita fragilidade” que nem mesmo os consecutivos lançamentos de mísseis escondem. “É muito provável que [o Irão] não vá ter o apoio militar da Rússia, que é um parceiro estratégico. Nessa contingência, não terá outra alternativa a manifestar que está disponível para voltar à mesa das negociações”, acrescenta.
O problema, aponta Marco Serronha, é que Israel pode não ter essa mesma disposição, já que “tem um objetivo estratégico muito claro para esta guerra”. Um objetivo que se divide em dois, mas que contribuem ambos para “uma situação mais agradável no futuro”.
Degradar a capacidade de produção de armas nucleares e o próprio exército iraniano é um desses objetivos, sendo que “essas capacidades estão a ser degradadas paulatinamente.”
O outro objetivo casa com o entendimento de Miguel Baumgartner: uma mudança de regime no Irão, o que “pode ser mais difícil de alcançar, mas vai deixar o regime dos aiatolas muito complexa”.
É que “há grandes divisões dentro da elite iraniana e começa a haver uma cisão muito notória entre as elites religiosas e às elites militares”. As respostas dadas a Israel, consideradas fracas pelo lado civil e religioso, podem ser parte da causa para isso.
E é neste cenário que Marco Serronha entende que o Irão não tem outra hipótese a não ser o regresso à mesa das negociações. “De um modo geral, com exceção de Israel, tanto Estados Unidos como o Irão [querem voltar a negociar”, reitera, destacando a importância de um acordo que, sem uma mudança de regime, também nunca será totalmente satisfatória.
Perante este cenário, e com os dois especialistas a verem Israel menos suscetível a essas negociações, conclui-se que é do lado de Telavive que está, pelo menos de momento, a vantagem militar.
Para já podemos esperar a continuação de ataques mútuos. Israel anunciou isso mesmo logo nas primeiras horas de ataques pela voz do seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. Já o Irão continua a dizer que vai responder a cada ataque, mas parece ser pouco mais que retórica, já que as forças israelitas até aproveitam os momentos em que os mísseis caem no seu território para mostrar imagens das suas próprias operações.
