Há "fantasmas" a impedir que o maior choque petrolífero de sempre seja tão mau como se temia

CNN , Matt Egan
9 jun, 16:13
()
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Passam muitos menos barris pelo Estreito de Ormuz agora do que antes da guerra, mas ainda assim passam alguns, mesmo que com estratégias que não são totalmente legais ou transparentes

Um dos maiores mistérios da economia global é a razão pela qual o mercado petrolífero se manteve tão calmo durante um dos maiores choques de oferta da história.

O Estreito de Ormuz esteve paralisado durante três meses de guerra - um cenário de pesadelo que poucos consideravam possível antes do início da guerra com o Irão. O tráfego visível através do Estreito de Ormuz continua escasso, estimado em apenas 15% dos níveis pré-guerra, segundo a JPMorgan.

No entanto, os contratos futuros do petróleo não dispararam para os níveis perigosos que os analistas temiam - pelo menos ainda não.

Uma teoria é que uma quantidade surpreendentemente grande de crude está a escapar ao duplo bloqueio do Estreito de Ormuz, ajudando o sistema energético global a absorver o choque histórico. Os petroleiros que transportam estes chamados "fluxos clandestinos" podem estar a contornar o bloqueio desligando os transponders para evitar a deteção, admitem especialistas à CNN.

A JPMorgan estima que os fluxos clandestinos totalizaram cerca de 2,1 milhões de barris por dia nas duas últimas semanas de maio. Isto representaria uma pequena, mas significativa, parcela dos 15,6 milhões de barris que transitavam diariamente pelo Estreito de Ormuz antes da guerra.

“Apesar do bloqueio naval em curso e da acentuada queda do tráfego comercial, volumes surpreendentes de petróleo bruto e derivados ainda parecem estar a transitar pelo Estreito”, escreveu Natasha Kaneva, chefe de estratégia global de commodities da JPMorgan, num relatório aos clientes na semana passada.

Trânsitos "fantasmas"

Bob McNally, fundador e presidente do Rapidan Energy Group, diz à CNN que concorda que os fluxos clandestinos podem ter atrasado ou, de certa forma, atenuado a crise.

"Presumimos que o tráfego no Estreito de Ormuz era de 0% a 10% dos fluxos pré-guerra, mas com esta fuga, pode ser um pouco maior", refere McNally. "Não é suficiente para evitar grandes e acentuadas reduções nos stocks, mas ameniza um pouco o impacto."

Uma foto ilustrativa mostra uma pessoa em frente a um ecrã de grandes dimensões exibindo os movimentos de embarcações no Estreito de Ormuz num site de rastreamento de navios, a 4 de maio de 2026 (AFP/Getty Images)
Uma foto ilustrativa mostra uma pessoa em frente a um ecrã de grandes dimensões exibindo os movimentos de embarcações no Estreito de Ormuz num site de rastreamento de navios, a 4 de maio de 2026 (AFP/Getty Images)

Jan Stuart, economista e estratega global de energia do banco de investimento Piper Sandler, estima que cerca de 2,9 milhões de barris de crude por dia tenham saído do Estreito de Ormuz em maio. Esta estimativa inclui cerca de 2,1 milhões de barris em embarcações que aparentemente pagaram portagens a entidades iranianas.

O restante corresponde a cerca de 900 mil barris de trânsitos “fantasmas”, embarcações que atravessaram a via navegável às escondidas, com os transponders desligados.

“Os fantasmas, ou fluxos clandestinos, ajudam”, garante Stuart à CNN. “Houve uma mitigação da crise muito melhor do que eu imaginava ser possível.”

China reduz importações

Os contratos futuros do petróleo Brent, a referência internacional, caíram para 93 dólares por barril na última sexta-feira. Este valor está muito acima dos níveis pré-guerra, cerca de 70 dólares, mas também consideravelmente abaixo do pico recente de 114 dólares.

Mas os fluxos clandestinos não são o principal fator por detrás da acalmia do mercado.

A Piper Sandler estima que cerca de 4,5 milhões de barris de crude por dia tenham saído do Golfo Pérsico por outros meios, principalmente através do Oleoduto Leste-Oeste, que liga os campos petrolíferos sauditas ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho.

E, ainda mais importante, a China reduziu drasticamente as suas importações de petróleo bruto, optando por manter stocks maciços.

A menor procura por parte da China, um dos maiores consumidores de energia do mundo, ajudou a aliviar a crise de abastecimento.

Um funcionário aguarda os clientes num posto de abastecimento de combustível em Xangai, na China, a 27 de março de 2026 (Hector Retamal/AFP/Getty Images)
Um funcionário aguarda os clientes num posto de abastecimento de combustível em Xangai, na China, a 27 de março de 2026 (Hector Retamal/AFP/Getty Images)

Kaneva, da JPMorgan, defende que outros fatores incluem perdas de procura superiores às reconhecidas e stocks superiores aos reportados.

“Em conjunto, estes ajustes ajudam a explicar porque é que os preços próximos dos 100 dólares não indicam que a interrupção seja pequena”, escreveu Kaneva. “Em vez disso, indicam que o mercado encontrou formas - ainda que dispendiosas - de a absorver.”

"As coisas vão piorar"

Alguns veteranos do setor petrolífero temem que o mercado, embalado por estas soluções alternativas, esteja a subestimar o impacto real.

Os stocks comerciais de petróleo caíram drasticamente desde o início da guerra. A reserva de petróleo bruto de emergência dos Estados Unidos, a Reserva Estratégica de Petróleo, está a aproximar-se rapidamente do nível mais baixo desde o início da década de 1980.

“As coisas vão piorar”, diz Stuart, da Piper Sandler.

Stuart prevê que o Brent tenha uma média de 130 dólares por barril em julho e agosto.

Se esta previsão estiver correta, significa que os preços da gasolina subirão para mais de 5 dólares por galão este verão, em comparação com os cerca de 4,20 dólares atuais.

Stuart suspeita que os preços do petróleo terão de subir rapidamente para incentivar novas emissões de petróleo de emergência e para encorajar o mundo a consumir menos.

“Será preciso persuadir as pessoas. E isso é muito mais fácil quando os preços são elevados”, conclui.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Médio Oriente

Mais Médio Oriente