"Frota mosquito": o verdadeiro perigo da Marinha do Irão continua de pé e a morder

CNN , Lauren Kent
8 mai, 13:15
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Esta força representa um enorme desafio estratégico para as Forças Armadas dos Estados Unidos, que dão por si a ter de combater contra alvos baratos mas esquivos

Embora os navios de guerra convencionais da Marinha iraniana possam ter sido em grande parte destruídos, os analistas afirmam que o seu verdadeiro poder naval nunca esteve aí.

A capacidade do país para representar uma ameaça real aos navios comerciais que transitam pelo Estreito de Ormuz depende, na verdade, de múltiplas camadas de sistemas de guerra não convencionais e de baixo custo - drones, minas e uma frota de pequenas lanchas de ataque, mais difíceis de detetar do que os navios tradicionais.

Apelidadas de "frota mosquito" pelos analistas militares, estas pequenas embarcações, utilizadas pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), e, principalmente, os mísseis, canhões e outras armas que podem transportar, representam um enorme desafio estratégico para as Forças Armadas dos Estados Unidos, que tentam mitigar as ameaças numa vasta área marítima.

Trata-se, essencialmente, de uma guerra de guerrilha na água, com a geografia a favorecer também o Irão, uma vez que não existe uma rota alternativa para os navios que necessitam de atravessar o Estreito de Ormuz.

“O número de embarcações necessárias para fornecer defesa de área para a navegação comercial, que é, em última análise, o objetivo principal, seria bastante significativo”, refere Sidharth Kaushal, investigador sénior em poder naval no think tank Royal United Services Institute for Defence (RUSI). “E, claro, isso pode exigir imensos recursos.”

A utilização de pequenas embarcações pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) remonta a décadas, particularmente depois de os militares dos EUA terem provado ser capazes de dizimar a Marinha tradicional do Irão durante as operações no Golfo Pérsico em 1988. Desde então, “a Marinha regular iraniana sempre foi uma espécie de força de desfile, enquanto a Marinha da IRGC, que foi construída em torno de recursos assimétricos que os iranianos acreditavam serem realmente úteis numa guerra… sempre foi o recurso estrategicamente mais importante”, nota Kaushal.

Estas pequenas embarcações com tripulação reduzida e barcos não-tripulados são “bastante discretas” devido à sua proximidade com a linha de água, continua o analista, pelo que os sistemas de radar acabam muitas vezes por detetá-las demasiado tarde. Para rastrear eficazmente estas ameaças, os EUA precisam de mobilizar recursos como helicópteros e drones.

A Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) também utiliza embarcações civis adaptadas, como dhows de pesca, para atividades secretas como o lançamento de minas, o que aumenta a complexidade de qualquer operação de monitorização, de acordo com um relatório do Instituto Hudson, com sede em Washington, D.C.

Pequenas embarcações pertencentes à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) são mostradas num local desconhecido em túneis subterrâneos, em imagens de arquivo divulgadas em janeiro de 2025 (Reuters/POOL via WANA)
Pequenas embarcações pertencentes à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) são mostradas num local desconhecido em túneis subterrâneos, em imagens de arquivo divulgadas em janeiro de 2025 (Reuters/POOL via WANA)

“Esta arquitetura geral é concebida para impor atrito e desgaste, em vez de procurar ou vencer um confronto naval decisivo”, observa o Instituto Hudson.

“A IRGCN (Marinha) concebe e fabrica as suas embarcações para que permaneçam acessíveis, evitem sanções e sejam facilmente substituíveis em tempo de guerra”, refere o relatório. Esta abordagem permite ao Irão pôr em perigo as embarcações de outros países “a um custo relativamente baixo, ao mesmo tempo que põe em perigo os ativos de elevado valor de um adversário - e a economia marítima global”.

Algumas das ameaças assimétricas do Irão, como as próprias minas e os chamados "submarinos anões", são mais fáceis de combater para a Marinha dos EUA. Estes pequenos submarinos "anões" tendem a operar a partir de portos iranianos conhecidos, o que facilita o ataque dos EUA, caso assim o desejem, aponta Kaushal.

Além disso, os EUA possuem veículos submarinos não-tripulados que podem ser implantados para digitalizar o fundo do mar e identificar minas, afirma Bryan Clark, investigador sénior do Hudson Institute, em entrevista à CNN. Mas identificar uma rota marítima inteira livre de minas é um processo meticuloso e demorado.

Entretanto, a estratégia multifacetada do Irão também significa que a Marinha dos EUA precisa de se proteger contra os lançadores de mísseis antinavio, que estão escondidos em centenas de quilómetros de terreno rochoso e montanhoso na costa sul do país. Estas baterias de mísseis são móveis, o que dificulta a sua eliminação, dizem os analistas, e a extensa costa do Golfo significa que o Irão pode atacar muito para além do próprio estreito.

“É este tipo de combinação [de capacidades] e complexidade que gera um grau significativo de problemas”, admite ick Childs, investigador sénior em segurança marítima do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. O especialista acrescenta que o problema que uma frota de navios pequenos e ágeis representa para as Forças Armadas e embarcações comerciais dos EUA é que “nunca se pode ter a certeza absoluta de que algo não conseguirá passar”.

Em julho de 2012, pequenas embarcações da Guarda Revolucionária iraniana foram fotografadas a passar por um petroleiro no porto de Bandar Abbas, no sul do Irão (Atta Kenare/AFP/Getty Images)
Em julho de 2012, pequenas embarcações da Guarda Revolucionária iraniana foram fotografadas a passar por um petroleiro no porto de Bandar Abbas, no sul do Irão (Atta Kenare/AFP/Getty Images)

“Os ataques que vimos recentemente, que de facto causaram danos à navegação, tenderam a ser mísseis, talvez também drones ‘suicidas’. Mas o que realmente preocupa as pessoas são as minas navais e as lanchas de ataque rápido”, reforça Childs.

Vinte e seis embarcações no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico foram atacadas pelo Irão desde o início da guerra, de acordo com os dados mais recentes do Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO).

“Outro fator é que os iranianos, a um nível mais estratégico, não têm necessariamente de atingir muitos navios. Só têm de atingir embarcações o suficiente para convencer as seguradoras e os armadores de que não querem arriscar a vida dos tripulantes e a carga”, acrescenta Kaushal. “Portanto, de certa forma, a procura da Marinha dos EUA é consideravelmente maior do que a dos iranianos.”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou esta terça-feira que o país vai suspender a sua breve operação para "guiar" os navios através do Estreito de Ormuz, mas vai manter o bloqueio aos portos iranianos. Dois navios mercantes com bandeira norte-americana atravessaram o estreito enquanto as forças norte-americanas neutralizavam as ameaças iranianas, informou o Comando Central dos EUA em comunicado emitido no início da semana, mas houve poucos indícios de um aumento significativo do tráfego marítimo geral através do estreito.

Os meios de comunicação estatais iranianos classificaram a suspensão da operação como um "fracasso dos EUA".

Entretanto, esta semana, o Irão lançou um novo órgão regulador para controlar o tráfego através do estreito, como parte do seu plano para impor taxas elevadas para a passagem segura. O Departamento do Tesouro dos EUA divulgou um alerta a 1 de maio indicando que as companhias de navegação podem sofrer sanções caso optem por pagar taxas ao regime iraniano.

O Irão e os EUA voltaram a trocar tiros esta quinta-feira, apesar do cessar-fogo. Trump afirmou que as forças norte-americanas destruíram ataques iranianos contra três contratorpedeiros da Marinha norte-americana que transitavam pelo estreito, alertando que "vamos acabar com eles de forma muito mais forte e violenta" se o Irão não assinar um acordo em breve.

Henry Zeris, Alejandra Jaramillo e Aileen Graef, da CNN, contribuíram para esta reportagem

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