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Exclusivo: EUA prepararam de forma secreta uma invasão terrestre ao Irão para capturar o urânio. Trump cancelou tudo

CNN , Natasha Bertrand e Zachary Cohen
12 jun, 21:00
O edifício do reator da central nuclear de Bushehr é visto nos arredores da cidade de Bushehr, a sul de Teerão, no Irão, em Agosto de 2010 (Vahid Salemi/AP)
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Número significativo de baixas norte-americanas e preocupação com a retaliação do Irão fizeram o poder político recuar numa missão que obrigaria a uma invasão terrestre

O general mais graduado dos Estados Unidos fez uma visita secreta e urgente ao quartel-general do Comando Central dos EUA na Florida no final do mês passado para ser informado pessoalmente sobre os planos do Exército dos EUA de enviar tropas terrestres ao Irão para extrair à força o urânio altamente enriquecido do país, o componente essencial para a produção de armas nucleares, disseram à CNN duas fontes familiarizadas com o assunto.

As reuniões foram tão urgentes e confidenciais que exigiram que o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, regressasse apressadamente de uma reunião com altos funcionários da NATO em Bruxelas para Tampa, na Florida, no dia 19 de Maio, garantiram as fontes. A natureza de alto nível e urgente das reuniões sublinha o quão perto o governo esteve de aprovar a operação terrestre de alto risco.

O Estado-Maior Conjunto recusou comentar os preparativos para uma possível operação.

Caine informou então o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as opções para tal operação, disse uma das fontes.

Mas Trump suspendeu a operação depois de ter sido alertado de que esta provavelmente provocaria uma severa retaliação iraniana, prolongando a guerra e mergulhando a economia global em ainda mais turbulência. Trump também expressou preocupação com o potencial de um número significativo de baixas americanas, de acordo com fontes familiarizadas com o assunto.

O planeamento avançado da operação ocorreu no entre repetidas declarações de Trump de que os EUA e o Irão estavam perto de um acordo para abrir o Estreito de Ormuz e concluíram as negociações sobre o programa nuclear iraniano. Já esta quinta-feira, Trump disse que os EUA e o Irão assinariam um acordo em breve, possivelmente durante o fim de semana.

Mas as discussões sobre o envio de tropas terrestres para o Irão no mês passado mostram o quão perto os EUA estiveram de uma escalada maciça do conflito.

"Muitos riscos", admitiu uma das fontes familiarizadas com os planos para a potencial operação militar, acrescentando que não foi surpresa que Trump tenha optado por não dar luz verde à intervenção militar no mês passado.

Teerão estaria também a planear uma “opção nuclear” económica caso as negociações com os EUA falhassem e a guerra recomeçasse, disseram à CNN três pessoas familiarizadas com o assunto: convencer os houthis, o principal grupo armado apoiado pelo Irão no Iémen, a fechar o Estreito de Bab el-Mandeb - uma importante via navegável e ponto de estrangulamento do comércio global, que tem servido de tábua de salvação para a navegação, por ser a entrada para o Mar Vermelho, em pleno encerramento do Estreito de Ormuz Irão, que já dura há meses.

Um alto funcionário do governo respondeu a um pedido de comentário da CNN esta sexta-feira com uma lista de termos que o Irão terá alegadamente aceitado como parte das negociações, incluindo a destruição e remoção do seu material nuclear, o desmantelamento do seu programa nuclear, a abertura do Estreito de Ormuz e a suspensão do financiamento de grupos terroristas apoiados pelo Irão - e só depois disso o país receberia o alívio das sanções.

A versão do Irão sobre o que foi acordado é muito diferente, de acordo com os meios de comunicação estatais iranianos, que afirmaram que o Irão não se comprometeria a ceder a gestão do Estreito de Ormuz e que qualquer acordo exigiria a libertação imediata de 24 mil milhões de dólares de fundos iranianos congelados.

Urânio do Irão

Garantir a posse do urânio altamente enriquecido do Irão destaca-se como um dos principais objetivos de Trump que ainda não foi alcançado, quer através de negociações, quer de força militar.

Embora Trump tenha repetidamente dado a entender a possibilidade de os EUA invadirem e tomarem o urânio à força, mostrou-se sempre relutante em avançar com uma operação que poderia resultar num grande número de baixas americanas - algo que duvida que o povo americano apoiasse.

Numa entrevista à Fox News esta quinta-feira, ao falar de outra possível opção militar norte-americana que provavelmente levaria a um grande número de baixas - assumir o controlo da ilha de Kharg, o centro de exportação de petróleo do Irão - Trump afirmou: "Não sei se os Estados Unidos têm estômago para isso".

Apesar dos riscos, uma missão para extrair o urânio enriquecido do Irão - particularmente os 440 quilos que o país possui em elevada concentração, próximos do grau de utilização em armamento - não foi totalmente descartada.

A frustração de Trump tem vindo a aumentar à medida que o Irão se recusa a comprometer-se com um acordo que exigiria concessões significativas no seu programa nuclear, incluindo a entrega voluntária do seu stock de urânio altamente enriquecido. Este stock está espalhado por várias instalações nucleares iranianas, principalmente os complexos de Isfahan, Natanz e Fordow, e enterrado em túneis profundos, segundo fontes da CNN.

Os especialistas nucleares manifestaram ceticismo quanto à possibilidade de uma operação militar dos EUA sequer localizar e verificar todo o urânio, muito menos removê-lo de forma segura e completa em condições hostis. Pensa-se que o material permanece no estado gasoso, como estava na altura da última verificação da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) em junho de 2025, como relata a CNN.

O Irão impediu a entrada de inspetores nucleares internacionais no mês seguinte, após ataques aéreos conjuntos entre os EUA e Israel contra as suas instalações. Estes ataques danificaram as instalações nucleares, mas não destruíram todo o material nuclear, que permaneceu em túneis subterrâneos, segundo a CNN.

O diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, alertou numa entrevista recente que o stock existente poderá permitir ao Irão construir até 10 bombas nucleares, caso decida transformar o seu programa em armamento nuclear.

As secretas dos EUA também estão confiantes de que sabem onde está tudo, graças, em grande parte, à vigilância aérea contínua, de acordo com duas fontes. Além do urânio altamente enriquecido, o Irão possui stocks significativos de material de baixa pureza que poderiam ser transformados numa "bomba suja" capaz de causar danos consideráveis, segundo múltiplas fontes informadas sobre o assunto. Até à data, as negociações têm-se centrado no urânio altamente enriquecido, que está mais próximo do grau de pureza necessário para as armas nucleares.

No entanto, garantir a segurança física do urânio exigiria uma força terrestre significativa dos EUA, incluindo centenas de elementos das forças especiais, como relata a CNN.

"Seria extremamente difícil vasculhar todos aqueles túneis e barris", disse uma fonte. "Teríamos de estabelecer uma presença maciça. Essencialmente, teríamos de invadir."

Segundo uma fonte familiarizada com as orientações, os comandantes militares norte-americanos determinaram que tal operação se enquadraria entre os níveis "Alto" e "Extremo" do "Nível Aceitável de Risco" para as forças de operações especiais. Isto significa que a missão poderia resultar num número significativo de baixas americanas, mesmo que fosse bem-sucedida.

Riscos de uma resposta iraniana

Se fosse lançada uma operação terrestre para capturar o urânio, o risco de danos económicos decorrentes do encerramento do Estreito de Bab-al-Mandab, um dos desfechos para os quais as avaliações dos serviços de informação alertaram, poderia ser catastrófico para a economia mundial.

Uma fonte familiarizada com as recentes avaliações dos serviços de informação dos EUA disse à CNN que é notável que os houthis não tenham retomado ataques em grande escala contra embarcações americanas ou de outros países europeus, mas afirmaram que qualquer navio com bandeira ou propriedade israelita é um alvo legítimo. Alargar o âmbito dos potenciais alvos para além das embarcações israelitas representaria uma escalada grave, observou a fonte.

Os iranianos só evitaram, até agora, recrutar os houthis para dar este passo, disseram as fontes, porque sabem que isso pode prejudicar as conversações de paz em curso.

Mas esta continua a ser uma cartada que o Irão poderia jogar se a busca por um acordo falhar e os EUA retomarem as operações de combate em grande escala - algo que Trump tem evitado fazer.

O Exército permanente do Irão foi significativamente enfraquecido, pelo que o maior risco para as tropas norte-americanas, caso Trump ordenasse uma operação para extrair o urânio, seria provavelmente os túneis armadilhados onde o material está armazenado, bem como mísseis terra-ar e mísseis portáteis, disse a fonte. O Irão também mantém uma percentagem significativa do seu arsenal de drones e mísseis balísticos, como relata a CNN.

Caine e outros líderes militares já tinham manifestado preocupação com a escala, a complexidade e o potencial de baixas americanas que poderiam resultar de uma operação militar prolongada contra o Irão. Este responsável e outros membros do Pentágono também alertaram, antes do início da guerra dos EUA contra o Irão, que uma campanha militar prolongada teria um impacto significativo nos stocks de armas e na prontidão militar dos EUA.

Apesar dos comentários anteriores de Trump sobre a possibilidade de extrair o urânio, o presidente norte-americano afastou essa opção esta quinta-feira, em declarações feitas na Sala Oval.

"Ninguém se vai aproximar porque está enterrado debaixo de uma montanha", disse Trump.

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