Dois menores que foram procurar lenha "para aquecer a família" mortos após ataque de Israel em Gaza

CNN , Ibrahim Dahman, Abeer Salman, Tim Lister e Tal Shalev
25 jan, 18:17
O palestiniano Yussef al-Zawarah, 42 anos, e a sua mulher Asma, 37 anos, abraçam-se enquanto recolhem o corpo do seu filho Mohammed, depois de este ter sido morto por fogo israelita juntamente com o seu primo na cidade de Gaza (Omar Al-Qattaa/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

Israel confirma o ataque, mas garante que os dois jovens eram "suspeitos"

Dois rapazes palestinianos foram mortos por fogo israelita em Gaza quando recolhiam lenha, segundo as suas famílias.

Os rapazes eram primos: Mohammad e Suleiman Al Zawaraa. Mohammad tinha 14 anos e Suleiman era um ano mais novo, segundo as autoridades hospitalares.

Foram mortos este sábado de manhã e os seus corpos foram levados para o hospital Al Shifa. Um vídeo mostra o pai de um dos rapazes, perturbado, a embalar o corpo nos braços.

As duas crianças e as suas famílias viviam no norte de Gaza. O seu tio, Salman Al Zawaraa, disse à CNN que os rapazes eram amigos íntimos.

“Estavam cheios de vida e de alegria, queriam ajudar os pais e saíram para recolher lenha para cozinhar e aquecer a família neste inverno rigoroso”, referiu Al Zawaraa à CNN no domingo.

O exército israelita confirmou à CNN, já este domingo, que “as tropas que operam no norte da Faixa de Gaza identificaram vários terroristas que atravessaram a Linha Amarela, colocaram um engenho explosivo na zona e aproximaram-se das tropas, constituindo uma ameaça imediata para elas”.

O incidente foi o mesmo em que os rapazes foram mortos. Mas uma fonte militar afirmou que “não eram crianças”, sem apresentar provas.

O tio dos rapazes insistiu que eles estavam longe da Linha Amarela, “quase à entrada do hospital Kamal Adwan. O que o exército de ocupação diz é mentira; são crianças inocentes que eles mataram a sangue frio".

Em algumas partes de Gaza, a Linha Amarela não está claramente delineada ou marcada.

Não é a primeira vez que em Gaza são mortas crianças que andavam à procura de lenha.

Fadi e Jumaa Abu Assi, de oito e 10 anos de idade, foram buscar lenha para o seu pai deficiente em novembro. Foram mortos num ataque de um drone.

As forças armadas israelitas reconheceram ter realizado esse ataque num comunicado, chamando às crianças “dois suspeitos que atravessaram a Linha Amarela, realizaram atividades suspeitas no terreno e aproximaram-se das tropas das IDF que operam no sul da Faixa de Gaza, representando uma ameaça imediata para elas”.

O Ministério da Saúde da Palestina declarou este domingo que, nas últimas 24 horas, três pessoas tinham sido mortas pela ação militar israelita, elevando para 484 o número total de mortos desde a entrada em vigor do cessar-fogo em outubro.

O número acumulado de mortos em Gaza desde outubro de 2023 é de 71 657. O ministério não faz distinção entre combatentes e civis nos seus dados.

A palestiniana Asma al-Zawarah, 37 anos, abraça o corpo do seu filho Mohammed na morgue do Hospital Al Shifa, na cidade de Gaza, em 24 de janeiro de 2026 (Omar Al-Qattaa/AFP/Getty Images via CNN Newsource)
A palestiniana Asma al-Zawarah, 37 anos, abraça o corpo do seu filho Mohammed na morgue do Hospital Al Shifa, na cidade de Gaza, em 24 de janeiro de 2026 (Omar Al-Qattaa/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

Jornalistas mortos

Na passada quarta-feira, pelo menos 11 palestinianos foram mortos numa série de ataques, de acordo com os Direitos Humanos da ONU no Território Palestiniano Ocupado (OPT).

Segundo a ONU, existe “um padrão mais amplo de violência pós-cessar-fogo e os efeitos duradouros de dois anos de devastação”.

Entre os mortos encontravam-se três jornalistas palestinianos perto da zona de Netzarim, no centro de Gaza, que se encontravam em missão para o Comité Egípcio de Alívio (ERC).

O OPT disse que a morte dos três homens elevou o número de jornalistas mortos em ataques israelitas desde outubro de 2023 para 292.

“Todos os veículos pertencentes ao Comité Egípcio têm o logótipo do Comité Egípcio, apesar de o veículo ter sido alvo de aviões israelitas”, garantiu o porta-voz do Comité, Mohamed Mansour, à CNN, acrescentando que os jornalistas filmaram o local “como de costume, diariamente”.

O Comité Egípicio é uma organização humanitária estatal que opera em Gaza com autorização israelita “para apoiar o povo palestiniano no meio das sucessivas crises”, de acordo com o site do grupo.

Nesse caso, as IDF disseram que as tropas identificaram “vários suspeitos” que operavam um drone que alegaram ser afiliado ao Hamas no centro de Gaza “de uma forma que representava uma ameaça à sua segurança”. As IDF afirmaram que realizaram então um ataque “de acordo com a cadeia de aprovações de comando necessária”.

O incidente estava “a ser analisado”, garantiram as IDF.

Os militares não forneceram quaisquer provas que ligassem o drone ao Hamas, nem explicaram como é que este constituía uma ameaça para as tropas israelitas. Na terça-feira - um dia antes do ataque - o ERC publicou vários vídeos nas redes sociais claramente filmados com um drone que mostram o acampamento de tendas perto de onde os jornalistas foram mortos.

O OPT disse que nesse mesmo dia ocorreram três incidentes perto da Linha Amarela, e que dois rapazes de 13 anos estavam entre os mortos.

“As repetidas operações militares israelitas nas zonas a oeste da linha de reimplantação conduziram igualmente à deslocação de civis e à demolição de edifícios residenciais nessas zonas”, declarou o OPT.

O OPT afirmou ainda ter registado pelo menos 80 mortes de palestinianos pelo Hamas desde o cessar-fogo, na sua maioria em confrontos com famílias rivais e em execuções sumárias.

“Todos os dias morrem pessoas, tanto em ataques israelitas como em resultado das contínuas restrições israelitas à entrada de ajuda humanitária, em especial de abrigos, que provocam mortes devido ao frio e ao desmoronamento de edifícios”, afirmou Ajith Sunghay, responsável pelos direitos humanos da ONU na OPT.

A agência israelita encarregada de autorizar a entrada de ajuda em Gaza rejeitou as afirmações da ONU de que cerca de 80% da população passa fome, descrevendo-as como “uma tentativa de reciclar afirmações falsas e enganosas por razões políticas e económicas”.

A agência - o Coordenador das Atividades Governamentais nos Territórios (COGAT) - afirmou que todos os dias entram na Faixa de Gaza entre 600 e 800 camiões, principalmente de alimentos.

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