Foram atacados, de um lado e do outro, o maior campo de gás natural do mundo e o maior centro de produção de gás natural do mundo. A guerra está prestes a escalar
Ataque de um lado e resposta ao mesmo nível do outro. Como tem acontecido quase em todos os dias, o Irão decidiu espelhar as decisões de Estados Unidos e Israel, que esta quarta-feira atingiram as importantes infraestruturas de petróleo e gás natural em Pars, a partir de onde se gera grande parte da energia consumida por todos os iranianos.
É também parte de um dos maiores campos de gás natural de todo o mundo, servindo como uma espécie de coluna vertebral do sistema energético doméstico do Irão, que parece continuar a ter problemas em impedir os inimigos de atingirem os alvos pretendidos - veja-se as mais recentes mortes de Ali Larijani ou Esmail Khatib, que serviam como líder do Conselho de Segurança Nacional e ministro dos Serviços Secretos, respetivamente, ambos nos lugares mais altos da estrutura política do país.
O Irão avisou prontamente que este tipo de ataques representava uma escalada significativa no conflito, até porque marcou a primeira operação direcionada à produção de energia do país, com as infraestruturas petroquímicas da zona a serem também alvo de explosões.
Ainda antes do Irão, foram os mercados a reagir: os preços do petróleo e do gás natural subiram e subiram, ameaçando confirmar algo que já se temia, e que na segunda-feira se deve efetivar com mais propriedade. Sim, os preços dos combustíveis devem continuar a aumentar, esperando-se até que o gasóleo ultrapasse mesmo os dois euros por litro, com a gasolina a poder chegar ao mesmo nível, caso os mercados reajam de forma mais drástica.
Mas depois da alta finança, foi o poder militar a reagir. A Guarda Revolucionária Islâmica emitiu avisos de evacuação para muitas das maiores infraestruturas energéticas da região, antevendo um problema que depois se veio a verificar.
Em Ras Laffan, no Catar, onde está o maior campo de produção de gás natural liquefeito de todo o mundo, as explosões não demoraram. Trata-se de uma localização a norte de Doha que partilha serviços, imagine-se, com a central de Pars, a mesma que horas antes foi atacada.
A Qatar Energy, a empresa estatal e maior produtora de gás natural e petróleo do Catar, confirmou a existência de “danos extensivos” após “ataques de mísseis” terem sido lançados contra a cidade industrial de Laffan.
Logo depois, o Ministério da Defesa do Catar confirmou o ataque, falando em dois mísseis balísticos que foram abatidos, o que não impediu os estragos causados ao local
تعلن وزارة الدفاع القطرية عن تعرض دولة قطر لهجوم بعدد (2) صاروخ باليستي من إيران، اليوم الأربعاء، ونجحت قواتنا المسلحة “بفضل من الله” بالتصدي لعدد (2) صاروخ باليستي، في محاولة استهداف مدينة رأس لفان الصناعية.
— وزارة الدفاع - دولة قطر (@MOD_Qatar) March 18, 2026
حفظ الله قطر وأميرها وشعبها والمقيمين على أرضها.
The Qatari Ministry… pic.twitter.com/jVcl48Jbga
Mas também na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos houve ataques, com o Irão a demonstrar que a maior arma que pode ter é o dano que pode infligir às economias dos países vizinhos, que são altamente dependentes da produção e exportação de combustíveis fósseis.
Pela tarde já o brente tinha subido 5% para 109 dólares por barril, o preço mais alto em mais de uma semana, enquanto os preços do gás natural na Europa subiram 6,6% para perto de 55 euros por megawatt à hora.
Em declarações reproduzidas pelo Financial Times, um antigo responsável da área petrolífera do Irão admitiu que a guerra está “no início de uma fase muito mais perigosa”, já que o ataque a Pars significa danos ao local que produz cerca de dois terços de todo o gás natural que o Irão consome.
Segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos, é ali que se produz 85% de toda a energia consumida pelo país. Para o responsável iraniano, o Irão “vai reduzir” as plataformas de gás natural do Catar a zero se as suas principais refinarias forem atingidas”.
Mesmo o Catar pareceu não ficar totalmente contente depois do ataque a Pars. “Atingir infraestrutura energética constitui uma grave ameaça à segurança energética global, bem como aos povos da região e ao seu ambiente”, afirmou o porta-voz do governo catari, Majid al-Ansra.
De resto, como reporta a agência Reuters, nem Estados Unidos nem Israel reclamaram responsabilidade pelo ataque, ainda que a imprensa israelita esteja a atribuir a operação a Telavive. Talvez por isso, Catar culpou Israel nas suas declarações, deixando de fora das críticas os Estados Unidos.
Com tudo o que já vinha acontecendo no Estreito de Ormuz, onde passa 20% do petróleo mundial, as autoridades iranianas parecem não ter vontade de frear as ameaças. “O pêndulo da guerra baliçou para uma guerra económica em escala total”, afirmou o presidente da central de gás natural Assaluyeh, que também faz parte do complexo de Pars.
Eskandar Pasalar fala num ataque que pode ser um “suicídio político” de Estados Unidos e Israel, já que faz com que o conflito entre numa “nova fase de equações de guerra”.
“A segurança energética da região chegou ao ponto zero”, reiterou, em comentários que foram divulgados pela imprensa nacional, e que vão ao encontro da retórica de Teerão, que não dá quaisquer sinais de querer abrandar o ritmo das suas respostas aos ataques continuados de Estados Unidos e Israel, o que deixa no ar a hipótese de que a guerra ainda vai escalar.
