ANÁLISE || A partir do exemplo da Al-Qaeda e do Estado Islâmico, Brett H. McGurk conta como devemos levar a sério os líderes que declaram objetivos ideológicos a longo prazo e demonstram vontade de usar violência para os alcançar
Pouco depois de eu ter desembarcado em Bagdade pela primeira vez, em janeiro de 2004, os serviços de informação norte-americanos intercetaram uma carta de Ayman al-Zawahiri, o braço direito de Osama bin Laden, para Abu Musab al-Zarqawi, o líder da Al-Qaeda no Iraque. A carta discutia o uso de violência implacável para estabelecer um califado islâmico - primeiro dentro do Iraque e, por fim, em todo o Médio Oriente.
“A maior batalha do Islão nesta era está a ser travada agora”, escreveu Zawahiri.
Os Estados Unidos divulgaram a carta, mas poucos levaram a sério a ideia de que a Al-Qaeda pudesse conquistar e governar território no coração do mundo árabe.
Dez anos mais tarde, estava de volta a Bagdade quando o sucessor de Zarqawi, Abu Bakr al-Baghdadi, conquistou a segunda maior cidade do Iraque e declarou um califado que abrange um território do tamanho de Portugal, com milhões de pessoas a viver sob o seu domínio. Passámos a década seguinte a desmantelá-lo.
A lição ficou comigo: quando os líderes declaram abertamente objetivos ideológicos a longo prazo e demonstram repetidamente a vontade de usar a violência para os alcançar, devemos levá-los a sério.
Esta lição aplica-se ao Irão.
Presidentes diferentes, o mesmo desafio
Durante quase cinco décadas, os presidentes americanos de ambos os partidos abordaram o Irão com diferentes combinações de diplomacia, sanções, dissuasão e força militar. No entanto, o conflito entre os Estados Unidos e a República Islâmica persiste porque o principal fator que impulsiona o comportamento do Irão tem-se mantido notavelmente constante: a própria ideologia revolucionária da República Islâmica.
O debate em Washington centra-se frequentemente em táticas. Os democratas tendem a dar prioridade à diplomacia e citam o acordo nuclear de 2015 do presidente Barack Obama com Teerão como o melhor mecanismo disponível para conter as ambições nucleares do Irão e evitar a guerra. Os republicanos defendem geralmente campanhas de "pressão máxima" e dissuasão militar, argumentando que o Irão explora os acordos diplomáticos enquanto continua a agressão regional.
Ambos os argumentos contêm elementos de verdade. Nenhum deles explica completamente a continuidade do problema.
O ponto central não são as mudanças nas tendências políticas em Washington, mas sim a natureza duradoura do regime iraniano e os objetivos enraizados na República Islâmica desde 1979.
Nada do que o presidente Donald Trump estaria a discutir com o Irão - um acordo transacional para reabrir o Estreito de Ormuz e talvez impor novos limites nucleares - alteraria o rumo que se mantém há 47 anos.
A ideologia da República Islâmica
A Constituição do Irão atribui ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) não só um papel militar defensivo, mas aquilo que denomina uma “missão ideológica de jihad no caminho de Deus”. Ao longo de décadas, a liderança revolucionária iraniana interpretou esta missão como a de expandir a influência do Irão pelo Médio Oriente, expulsar os EUA da região e apoiar movimentos armados empenhados na destruição de Israel.
Estes objetivos transcenderam os presidentes americanos e iranianos, as crises económicas, as campanhas de sanções e as aberturas diplomáticas.
Explicam o padrão de ataques, raptos, terrorismo e guerras por procuração que definem a relação do Irão com os EUA desde a tomada da embaixada americana em Teerão, em 1979. Explicam também o investimento contínuo do Irão em organizações militantes em toda a região, incluindo o Hezbollah, o Hamas, a Jihad Islâmica Palestiniana, as milícias iraquianas e os Houthis.
O IRGC foi especificamente concebido para proteger a revolução internamente e promovê-la no exterior. O seu braço expedicionário, a Força Quds, passou décadas a construir redes de parceiros armados capazes de projetar a influência iraniana muito para além das fronteiras do Irão.
Em vários momentos, os decisores políticos norte-americanos esperaram que o fervor revolucionário do Irão pudesse moderar-se em troca de oportunidades económicas e de reintegração no sistema internacional. Esta esperança fazia parte da lógica estratégica por detrás do acordo nuclear da administração Obama.
O JCPOA impôs restrições significativas ao programa nuclear iraniano durante um período e, nesse sentido, foi uma conquista. Mas não alterou a conduta regional do Irão nem os seus objetivos revolucionários. Em alguns aspetos, Teerão - repleta de novos recursos económicos - pareceu cada vez mais confiante depois disso.
Pouco depois da conclusão do acordo, o Líder Supremo Ali Khamenei rejeitou as sugestões de que a postura do Irão em relação a Israel ou aos EUA se iria suavizar. Previu publicamente que Israel não existiria daqui a 25 anos e prometeu resistência contínua em toda a região.
Tal como Zawahiri, esta declaração não era mera retórica. Estava alinhada com a trajetória que o Irão tinha seguido durante décadas.
7 de Outubro como clímax
O dia 7 de Outubro de 2023 representou a manifestação mais clara até então desta trajetória.
O Hamas - armado, financiado e apoiado pelo Irão ao longo de muitos anos - lançou o ataque mais mortífero da história de Israel, matando mais de 1.200 pessoas e fazendo mais de 250 reféns. A maioria dos governos de todo o mundo condenou as atrocidades. A liderança iraniana, em vez disso, celebrou o que descreveu como resistência contra Israel.
Em poucos dias, grupos apoiados pelo Irão em toda a região juntaram-se ao conflito. O Hezbollah começou a disparar rockets do Líbano em direção ao norte de Israel. As milícias apoiadas pelo Irão no Iraque e na Síria lançaram repetidos ataques contra as forças norte-americanas. Os Houthis no Iémen começaram a atacar navios mercantes e ativos navais americanos no Mar Vermelho.
Tudo isto refletiu décadas de investimento iraniano numa rede concebida precisamente para este fim: pressionar Israel e os EUA através de múltiplas frentes, mantendo diferentes graus de negação.
O Irão acabou por lançar dois ataques diretos sem precedentes com mísseis e drones contra Israel a partir do próprio território iraniano - ainda antes de Israel ter atacado diretamente o Irão.
A abordagem de Trump encontra os seus limites
Trump é o primeiro presidente a atacar diretamente a alta cúpula militar iraniana e, posteriormente, a autorizar operações militares em território iraniano.
Algumas destas ações produziram resultados táticos tangíveis. O assassínio do comandante da Força Quds, Qassem Soleimani, em 2020, interrompeu as operações regionais do Irão. Os ataques subsequentes contra as infraestruturas militares e as instalações nucleares iranianas degradaram significativamente partes dos programas de mísseis, drones e nucleares do país.
Mas o sucesso militar tático por si só não produz resultados estratégicos.
De facto, os acontecimentos dos últimos meses realçaram as limitações do poder militar isolado ao confrontar um sistema revolucionário profundamente enraizado. Embora fragilizado, o sistema iraniano parece ter-se consolidado, com a ascensão de ideólogos radicais como Ahmad Vahedi, o novo líder da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) - que comandou a Força Quds durante grande parte das décadas de 1980 e 1990.
As táticas americanas - militares, diplomáticas e económicas - podem ser eficazes para degradar as capacidades iranianas, mas revelaram-se totalmente ineficazes para alterar o rumo ideológico do próprio regime iraniano.
Sem fim à vista
Mesmo com rumores de um acordo iminente, o novo Líder Supremo do Irão reforçou os objetivos do seu falecido pai de expulsar os Estados Unidos do Médio Oriente e eliminar o Estado de Israel. "De agora em diante", escreveu esta semana, "Morte à América e Morte a Israel serão os slogans comuns da Ummah Islâmica".
Para cúmulo, reafirmou a promessa do seu falecido pai de ver Israel eliminado até ao ano 2040 - uma promessa que Israel não tem outra alternativa senão levar a sério.
Israel, por sua vez, poderá ter um novo governo após as eleições ainda este ano, mas a sua doutrina de segurança mais proativa após 7 de Outubro dificilmente mudará. O país agirá perante as ameaças à medida que estas surgirem, seja perto das suas fronteiras ou dentro do próprio Irão, incluindo contra o programa de mísseis iraniano.
Os Estados Unidos também agirão para se defenderem e defenderem os seus interesses. Esta semana, enquanto Washington e Teerão negociavam a reabertura do Estreito de Ormuz, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) foi apanhada a instalar novas minas no estreito, o que levou a uma troca de ataques militares.
Esta realidade - a ideologia que define o Irão, a propensão de Israel para agir contra as ameaças percebidas e a proteção dos interesses e do pessoal americano - criará desafios constantes para Trump e para o seu sucessor. Enquanto não houver uma mudança política no Irão, devemos esperar um ciclo recorrente de confrontos, desescalada temporária e novos confrontos.
