ANÁLISE || Cerco militar ao Irão começa a dar sinais do que aconteceu há 23 anos, numa decisão que pode ter ajudado Trump, mas que foi um erro que o agora presidente pode também cometer
Donald Trump talvez nunca se tivesse tornado presidente dos Estados Unidos se não fosse a reação negativa à guerra do Iraque, que abalou a confiança nos líderes do establishment.
Por isso, é irónico que possa estar a emular algumas das posições retóricas e erros de cálculo estratégicos que levaram o presidente George W. Bush ao desastre no Médio Oriente após 2003.
Segundo os relatos, Trump ainda não tomou qualquer decisão sobre o ataque ao Irão. Mas o seu enorme reforço naval e aéreo na região é o maior desde a invasão do Iraque que derrubou o presidente Saddam Hussein.
Isto poderá dar-lhe poder negocial para forçar uma retratação iraniana nas negociações de crise que foram retomadas em Genebra esta quinta-feira. Mas, na ausência de um grande avanço diplomático, ordenar a retirada de tal força sem disparar um único tiro abalaria o prestígio de Trump.
A administração Trump foi fundada na aversão do movimento MAGA a conflitos estrangeiros. Isto pode explicar porque apresentou poucos argumentos coerentes para uma guerra que ameaça travar.
Mas a desvantagem desta abordagem é que, embora as Forças Armadas americanas possam estar preparadas para a guerra, o público não está.
Antes de invadir o Iraque, Bush passou meses a defender a guerra - embora com base em informações falhadas e premissas falsas. A administração Trump ofereceu apenas justificações obscuras e confusas.
Trump ofereceu um pouco mais de clareza no seu discurso sobre o Estado da União na noite desta terça-feira, embora isso lhe possa ter custado a colocação numa situação ainda mais delicada.
Repetiu os avisos presidenciais padrão de que o Irão nunca deve ter permissão para possuir uma bomba nuclear. No seu caso, porém, isso levantou dúvidas sobre os seus motivos e honestidade, uma vez que afirmou ter "aniquilado" o programa nuclear de Teerão no ano passado. Trump destacou ainda centenas de mortes de soldados norte-americanos em combate no Iraque causadas por grupos apoiados pelo Irão. Lamentou a recente repressão brutal contra os manifestantes iranianos, que pode ter matado milhares de civis.
O dilema dos mísseis
Mas os ecos históricos foram mais fortes quando se virou para os mísseis balísticos do Irão. “Já desenvolveram mísseis que podem ameaçar a Europa e as nossas bases no estrangeiro, e estão a trabalhar para construir mísseis que em breve chegarão aos Estados Unidos da América”, disse Trump.
Pode estar a exagerar as capacidades do Irão. Mas, ao invocar ameaças à pátria, seguiu um caminho controverso trilhado pela administração Bush e pelo governo do primeiro-ministro britânico Tony Blair para justificar a guerra do Iraque.
O secretário de Estado Marco Rubio fez um alerta semelhante esta quarta-feira.
“Vocês viram o aumento do alcance dos mísseis que eles possuem agora, e claramente estão a caminhar para um dia serem capazes de desenvolver armas que possam atingir o território continental dos EUA”, frisou Rubio. “Já possuem armas que poderão atingir grande parte da Europa neste preciso momento. E os alcances continuam a crescer exponencialmente a cada ano, o que me impressiona.”
Tudo isto soa familiar.
Em Cincinnati, em 2002, Bush disse que os civis norte-americanos na Arábia Saudita, Israel, Turquia e outras nações estavam em risco devido aos mísseis iraquianos. Chegou mesmo a afirmar que o Iraque estava a explorar formas de usar drones para dispersar agentes químicos e biológicos em “missões dirigidas aos Estados Unidos”. Nesse mesmo ano, o vice-presidente Dick Cheney avisou em Nashville que o Iraque ameaçava os aliados dos EUA no Médio Oriente com mísseis e procurava “toda a gama” de sistemas de lançamento que poderiam eventualmente “sujeitar os Estados Unidos ou qualquer outra nação à chantagem nuclear”.
O alarmismo em relação aos mísseis não é a única razão para a nostalgia da guerra do Iraque. Uma das maiores falhas da administração Bush foi a negligência blasé no planeamento para o período pós-guerra, que levou à fragmentação sectária e a uma insurgência.
O Irão é, indiscutivelmente, um Estado mais robusto que o Iraque. Mas Trump ainda não foi sincero com os americanos sobre o que poderia acontecer se alguma ação militar dos EUA derrubasse o regime clerical iraniano.
Num novo perfil publicado esta quarta-feira, a CNN noticiou que o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, é incapaz de prever o resultado de uma mudança de regime em Teerão. E fontes disseram à CNN no início deste mês que a comunidade das secretas dos EUA acredita que o candidato mais provável para preencher um vazio de liderança seria a Guarda Revolucionária Islâmica, de linha dura. Portanto, a deposição de teocratas em Teerão poderia levar a uma substituição igualmente radical e anti-EUA, que não melhoraria significativamente a segurança dos EUA ou da região.
A administração Trump tem um historial de mudanças de regime, depois de ter derrubado o líder venezuelano Nicolás Maduro no início deste ano. Mas as probabilidades parecem remotas de que consiga encontrar um equivalente iraniano da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, para coagir a agir de acordo com os interesses de Washington.
A política externa dos EUA falha frequentemente devido a cálculos defeituosos sobre a forma como os adversários se comportarão. A lógica de Washington desfaz-se muitas vezes ao entrar em contacto com o ar quente e poeirento do Médio Oriente.
A atual administração parece assolada por mal-entendidos semelhantes, apesar do aviso de Trump na Arábia Saudita, no ano passado, de que os intervencionistas da época da guerra do Iraque estavam a intervir em sociedades complexas que nem eles próprios compreendiam.
Este mês, o enviado dos EUA, Steve Witkoff, disse que o presidente não conseguia compreender porque é que o Irão simplesmente não cedeu à sua pressão. "Ele está curioso para saber porque é que não... Não quero usar a palavra 'capitular', mas porque é que não capitularam", referiu Witkoff à Fox News.
Witkoff continuou: "Porque é que, sob esta pressão, com a quantidade de poder naval e marítimo que possuem, porque é que não vieram ter connosco e disseram: 'Declarámos que não queremos armas, por isso eis o que estamos dispostos a fazer'?"
Eis uma possível razão. O Irão assistiu à queda brutal de ditadores que não possuíam armas de destruição maciça, como Muammar Kadhafi, da Líbia. Não é preciso ser nenhum génio para compreender que gostariam de manter armas para garantir a sobrevivência do regime.
A arrogância é um perigo agora, tal como foi em 2003.
Esperava-se que a guerra do Iraque fosse uma vitória fácil, com a promessa de "choque e pavor", e que as tropas americanas fossem recebidas como libertadoras. Mais de 20 anos depois, Trump mostrou que espera uma vitória tranquila no Irão, depois de desmentir os relatos de que Caine estaria a enfatizar a complexidade de qualquer guerra. "Se for tomada a decisão de atacar o Irão militarmente, ele acredita que será algo fácil de vencer", escreveu Trump no Truth Social, no início desta semana.
Estas palavras talvez valham a pena serem lembradas.
Que tipo de acordo pode Trump aceitar?
A diplomacia ainda não está morta, no entanto. Witkoff e o genro e conselheiro independente de Trump, Jared Kushner, lideraram as negociações de proximidade com as autoridades iranianas esta quinta-feira, mediadas por Omã.
O resultado da diplomacia pode depender de o Irão estar disposto a oferecer a Trump concessões que ele possa apresentar como uma capitulação significativa.
Teerão demonstrou alguns sinais de que pode ceder em relação ao enriquecimento de urânio ou aos stocks de material para armas nucleares. Mas os mísseis podem ser um obstáculo intransponível.
E Trump enfrenta restrições políticas internas. Dificilmente pode aceitar um pacto nuclear que se assemelhe aos limites impostos pela administração Obama ao programa nuclear iraniano, que descartou. Dito isto, é um mestre em transformar uma derrota numa vitória, como quando a Europa resistiu às suas exigências de ceder a Gronelândia em janeiro. Mas o Irão não se ilude. Afinal, qualquer desfecho do atual confronto que mantenha o regime no poder é uma vitória para Teerão.
É por isso que a ação militar pode ser tão tentadora para Trump, apesar da potencial perda de militares norte-americanos em combate e da possibilidade de um elevado número de baixas civis.
Se os EUA pretendem atacar o seu inimigo declarado, agora poderá ser o momento, com as redes terroristas regionais do regime desmanteladas nas guerras com Israel e com a instabilidade económica e política a alastrar dentro do Irão.
A erradicação dos programas nuclear e de mísseis do Irão não só pouparia Israel às ameaças de extinção da República Islâmica, como também poderia remodelar o Médio Oriente e impulsionar o desenvolvimento económico no Irão, no Golfo Pérsico e noutras regiões.
Este é um objetivo central da política externa de Trump. "Após tantas décadas de conflito, está finalmente ao nosso alcance alcançar o futuro com que as gerações anteriores apenas podiam sonhar: uma terra de paz, segurança, harmonia, oportunidades, inovação e realizações aqui mesmo no Médio Oriente", disse na Arábia Saudita no ano passado.
Destruir o regime iraniano cumpriria a promessa de Trump aos manifestantes, depois de afirmar que os EUA estavam "prontos para o combate" para os proteger. E privaria a China de mais um membro do seu eixo de influência, depois da cooptação da Venezuela pelos EUA.
Assim, embora os desastres militares dos EUA no início da década de 2000 ofereçam presságios sombrios, o presidente pode ainda aproveitar a sua oportunidade.
Poderá tornar-se o presidente que depôs os aiatolas, um feito que escapou aos presidentes Jimmy Carter, Ronald Reagan, George H.W. Bush, Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Joe Biden.
Este seria um legado e tanto para um comandante-chefe desesperado por um lugar na história.