ONU declara oficialmente fome em Gaza. Guterres lamenta "desastre feito pelo homem"

22 ago 2025, 10:33

Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos culpa diretamente Israel pelo que vai acontecendo naquele território

A Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC) declarou a situação de fome na Faixa de Gaza pela primeira vez, num relatório apoiado pelas Nações Unidas, e que marca um novo momento naquele território.

De acordo com o último relatório do IPC, a classificação de fome na Cidade de Gaza é, agora, de Fase 5, o mais alto e pior nível da escala de insegurança alimentar.

De acordo com o relatório de 59 páginas, a fome foi confirmada pelas autoridades da Faixa de Gaza, que falam em “condições catastróficas”, nomeadamente na Cidade de Gaza, mas que devem estender-se a Deir al-Balah e Khan Younis. Teme-se mesmo que a situação se agrave de forma considerável no próximo mês.

Em reação ao relatório, que foi prontamente negado por Israel, o secretário-geral da ONU afirmou que a fome na Faixa de Gaza é um "desastre feito pelo homem", numa clara referência à atuação de Israel naquela zona. "Não é um mistério", continuou António Guterres, mas antes um "falhanço da Humanidade".

"Não podemos permitir que esta situação continue impune", acrescentou António Guterres, que não tem palavras para descrever o "inferno que se vive em Gaza".

E se o secretário-geral da ONU não quis falar diretamente em Israel, houve na ONU quem o fizesse. O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que a fome na Faixa de Gaza é "o resultado direto das ações tomadas pelo governo de Israel".

"As mortes por fome em Gaza são classificadas do crime de guerra de homicídio voluntário", acrescentou Volker Turk.

A fome em Gaza “podia ter sido evitada” sem “a obstrução sistemática de Israel”, acusou em Genebra o responsável pela coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas, Tom Fletcher.

“Esta fome vai e deve assombrar-nos a todos”, insistiu.

Segundo o IPC, entre as várias pessoas que sofrem de malnutrição estão milhares de crianças: "A malnutrição ameaça a vida de 132 mil crianças com menos de cinco anos", pode ler-se no relatório, que aí se refere a uma janela temporal até junho do próximo ano.

Israel nega em minutos

Apenas minutos após ser conhecido o relatório, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel contrariou a informação, afirmando que não existe fome na Faixa de Gaza.

De acordo com o comunicado, mais de 100 mil camiões com ajuda humanitária entraram naquela zona desde o início da guerra, tendo-se intensificado a entrega de material nas últimas semanas.

Israel diz mesmo que “inundou” Gaza com comida, o que até causou uma queda dos preços. "Todo o documento do IPC é baseado nas mentiras que o Hamas lavou através de organizações vestidas de interesses", acrescentou o governo israelita.

Os números de uma guerra

Israel, que está envolvido numa guerra com o Hamas desde que sofreu um ataque em 7 de outubro de 2023, anunciou que planeia tomar a cidade de Gaza e outros bastiões do grupo extremista palestiniano.

Os especialistas consideraram que a intensificação da guerra vai agravar a crise alimentar.

A província de Gaza representa cerca de 20% da área da Faixa de Gaza.

Somando Khan Yunis (29,5%) e Deir el-Balah (16%), a situação de fome poderá abranger cerca de dois terços da área total da Faixa de Gaza, um território de 365 quilómetros quadrados onde vivem mais de dois milhões de palestinianos.

De acordo com especialistas da ONU, mais de meio milhão de pessoas em Gaza enfrentam condições catastróficas, o nível mais elevado de privação alimentar do IPC, caracterizado pela fome e pela morte.

O número, baseado em informações recolhidas até 15 de agosto, deverá subir para quase 641 mil até ao final de setembro, disse a AFP.

De acordo com o IPC, trata-se da deterioração mais grave da situação desde o início das suas análises na Faixa de Gaza.

Para o IPC, uma fome está em curso quando três elementos estão reunidos: pelo menos 20% dos lares (um em cada cinco) enfrentam uma escassez extrema de alimentos, pelo menos 30% das crianças com menos de cinco anos (uma em cada três) sofrem de desnutrição aguda e pelo menos duas pessoas em cada 10 mil morrem de fome todos os dias.

A situação é o resultado da escalada do conflito nos últimos meses, que provocou deslocações maciças da população, combinadas com o acesso restrito aos abastecimentos alimentares causado por Israel.

No início de março, Israel proibiu totalmente a entrada de ajuda humanitária em Gaza, antes de autorizar, no final de maio, o transporte de quantidades limitadas, provocando graves carências de alimentos, medicamentos e combustível.

Israel, que controla todos os acessos a Gaza, acusa o Hamas de saquear a ajuda humanitária, o que o grupo nega, e as organizações humanitárias de não a distribuírem.

As organizações humanitárias afirmaram que Israel impôs restrições excessivas e considerou muito perigoso distribuir a ajuda em plena guerra.

O ataque de 7 de outubro causou a morte de cerca de 1.200 pessoas e 250 reféns em Israel.

A ofensiva israelita em grande escala provocou mais de 62.190 mortes em Gaza, a maioria civis, de acordo com dados do Ministério da Saúde de Gaza, considerados fiáveis pela ONU.

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