"Há adolescentes em lágrimas à janela do meu carro a mostrar-me as costelas": novo problema em Gaza, agora com a GHF

CNN Portugal , MJC
4 jun 2025, 10:37
Fome em Gaza (Getty)

E o que é a GHF?, que fez?, que impacto tem? Ponto de partida: é uma organização apoiada pelos EUA e por Israel que tem como objetivo substituir a rede de distribuição de ajuda liderada pela ONU em Gaza

Os centros de distribuição de ajuda humanitária em Gaza estão encerrados esta quarta-feira. A Fundação Humanitária de Gaza (GHF na sigla em Inglês) anunciou terça-feira que iria suspender as operações de distribuição alimentar autorizadas pelas autoridades israelitas nos centros da Faixa de Gaza durante um dia para “trabalhos de atualização, organização e melhoria da eficiência”. A fundação tenciona retomar as suas atividades esta quinta-feira, depois de tomar algumas medidas de segurança.

A GHF acrescenta que está também a trabalhar para desenvolver orientações mais claras para os civis e melhorar a formação para apoiar a sua segurança. “A nossa principal prioridade continua a ser garantir a segurança e a dignidade dos civis que recebem ajuda.” Em comunicado, o grupo diz ter pedido às forças armadas israelitas que “orientem o tráfego pedestre” perto das fronteiras militares para reduzir os riscos de “confusão ou escalada”.

Na sequência, o porta-voz do Exército, Avichay Adraee, numa mensagem difundida através das redes sociais, disse que durante todo o dia vai ser proibido circular nas estradas que conduzem aos locais onde estão instalados os centros de distribuição. Na mesma mensagem, o porta-voz alerta que é "estritamente proibido" entrar nas áreas que estiveram autorizadas nos últimos dias e que são consideradas zonas de combate.

Lágrimas

James Elder, porta-voz da Unicef em Gaza, criticou a decisão da GHF de suspender a sua atividade esta quarta-feira, afirmando que só teve conhecimento da decisão ao início da manhã. Descrevendo a situação em Gaza na terça-feira, James Elder diz que as pessoas têm andado 15-20 km a pé para obter ajuda. “Há adolescentes em lágrimas à janela do meu carro a mostrar-me as costelas”, diz.

Além da pausa, há uma questão mais vasta sobre a forma como a ajuda está a ser distribuída em Gaza. "Dizem que estão a dar ajuda às pessoas, mas não é suficiente. Estamos a falar de uma mão cheia de locais de distribuição contra 400 durante o cessar-fogo."

Acrescenta ainda que as organizações de confiança continuam a ser impedidas de distribuir ajuda no enclave. "É isso que realmente falta, grandes organizações que deveriam estar a entregar 500-600 camiões por dia. Em vez disso estamos a falar de 500-600 caixas entregues a indivíduos por dia."

Pessoas andam quilómetros para conseguir comida em Gaza (AP)

Durante décadas, a Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (UNRWA) foi responsável por distribuir assistência humanitária em Gaza, com a ajuda de outras organizações não governamentais. Mas Israel acusou funcionários desta agência de estarem envolvidos com o Hamas e em março proibiu suas atividades no território. 

Depois de meses de bloqueio, Israel voltou a permitir a ajuda humanitária em Gaza, mas agora da responsabilidade da GHF. Registada em Genebra em fevereiro, a GHF não tem instalações nem representantes conhecidos na cidade. Pouco se sabe sobre o seu funcionamento. O seu diretor, Jake Wood, um antigo marine dos EUA, demitiu-se no dia anterior ao início da atividade. Terça-feira  foi anunciado que o americano Johnnie Moore, um líder evangélico conservador, será o seu novo presidente.

Sabemos apenas que GHF é uma organização apoiada pelos EUA e por Israel que tem como objetivo substituir a rede de distribuição de ajuda liderada pela ONU em Gaza. A 26 de maio, a GHF anunciou que tinha começado a distribuir “camiões de alimentos” aos habitantes de Gaza “em locais de distribuição seguros”. “Outros carregamentos" seriam distribuídos na terça-feira “e esse afluxo aumentará diariamente”. 

A organização utiliza empresas de segurança terceirizadas dos Estados Unidos e trabalhou com Israel para implementar um novo mecanismo de distribuição de ajuda em Gaza. De acordo com o novo sistema, os habitantes de Gaza são obrigados a recolher os mantimentos num pequeno número de centros situados em zonas sob controlo militar israelita e dotados de pessoal contratado por americanos armados. O Exército israelita revelou entretanto que quatros centros de distribuição de alimentos estavam a funcionar - três na região de Rafah, no sul de Gaza, e outro em Bureij, no centro.

Além de acusarem a organização de não ser neutral, os críticos dizem que o modelo faz com que as pessoas tenham de caminhar longas distâncias até aos locais e transportar caixas de 20 kg de volta para as suas casas ou abrigos. A concentração de muitas pessoas em poucos "centros seguros" faz com que o processo se torne rapidamente caótico e que aconteçam "distúrbios".

 "Há um sistema humanitário internacional testado e comprovado que respeita o direito internacional humanitário em todo o mundo. Isso não precisa ser reinventado. Poderia funcionar na  sua capacidade máxima para trazer ajuda, se fosse permitido, mas não está a ser", afirmou Jonathan Fowler, porta-voz da UNRWA, sublinhando que há 3 mil camiões das Nações Unidos com ajuda que continuam à espera de autorização para entrar no conclave.

"Carnificina total"

Pelo menos 50 pessoas foram mortas perto de pontos de distribuição de ajuda humanitária desde que a fundação começou a operar na Faixa de Gaza no início da semana passada.

Na terça-feira, pelo menos 27 palestinianos foram mortos por fogo israelita quando tentavam recolher ajuda perto de um local de distribuição em Gaza, disse um porta-voz. Mahmoud Basal, do Hamas, disse que os civis foram alvo de disparos de tanques, drones e helicópteros perto da rotunda de al-Alam, a cerca de 1 km do local de distribuição da ajuda.

O diretor do Hospital Nasser em Khan Younis, Atef Al-Hout, disse que muitos dos feridos chegaram com ferimentos de bala, enquanto um médico estrangeiro que trabalhava na zona descreveu o cenário como “carnificina total”.

As IDF admitiram que as suas tropas dispararam tiros mas só porque identificarem suspeitos que se deslocaram na sua direção “desviando-se das rotas de acesso designadas”. As forças de Israel disseram ainda que o incidente vai ser investigado. 

Este foi o terceiro incidente mortal num mesmo número de dias que ocorreu numa rota para um local de ajuda da Fundação Humanitária de Gaza (GHF). Alguns vídeos partilhados dos incidentes mostram os centros invadido por civis desesperados que pisavam as barreiras derrubadas; as pessoas recuavam quando se ouviam sons de tiros.

No entanto, Israel negou anteriormente ter disparado sobre palestinianos num incidente semelhante ocorrido no domingo, que, segundo o Ministério da Saúde dirigido pelo Hamas, matou 31 pessoas e feriu cerca de 200.

O principal porta-voz militar de Israel, Effie Defrin, disse em conferência de imprensa que os números fornecidos pelo Hamas eram "exagerados". Desde o início da guerra, Israel tem impedido a imprensa internacional de entrar no enclave de forma independente, o que dificulta a confirmação das informações.

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