Exclusivo. Quase metade das munições israelitas lançadas sobre Gaza são "bombas burras", segundo os serviços secretos dos EUA

CNN , Natasha Bertrand e Katie Bo Lillis
14 dez 2023, 12:06
Faixa de Gaza (Getty)

Avaliação norte-americana diz que cerca de 40-45% das 29.000 munições ar-terra que Israel utilizou foram munições não teleguiadas, ou seja, sem precisão na forma como atingem os alvos

Quase metade das munições ar-terra que Israel tem utilizado em Gaza na guerra contra o Hamas desde 7 de outubro foram bombas não guiadas, também conhecidas como "bombas burras", de acordo com uma nova avaliação dos serviços secretos norte-americanos.

A avaliação, compilada pelo Gabinete do Diretor dos Serviços Secretos dos EUA e descrita à CNN Internacional por três fontes que a viram, diz que cerca de 40-45% das 29.000 munições ar-terra que Israel utilizou não foram teleguiadas. O resto foram munições teleguiadas de precisão, diz a avaliação.

As munições não guiadas são normalmente menos precisas e podem constituir uma maior ameaça para os civis, especialmente numa zona densamente povoada como Gaza. O ritmo a que Israel está a utilizar as "bombas burras" pode estar a contribuir para o aumento do número de mortes de civis.

Na terça-feira, o presidente Joe Biden afirmou que Israel tem estado envolvido em "bombardeamentos indiscriminados" em Gaza.

O porta-voz das IDF, Nir Dinar, disse à CNN Internacional: “Nós não falamos sobre o tipo de munições utilizadas.”

O major Keren Hajioff, porta-voz israelita, afirmou na quarta-feira que "enquanto militares comprometidos com o direito internacional e com um código de conduta moral, estamos a dedicar vários recursos para minimizar os danos contra civis que o Hamas forçou a fazer o papel de escudos humanos. A nossa guerra é contra o Hamas, não contra o povo de Gaza".

Mas, especialistas garantem à CNN Internacional que se Israel está a usar munições não teleguiadas ao ritmo que os EUA acreditam que estão, isso enfraquece a alegação israelita de que estão a tentar minimizar as baixas civis.

"Estou extremamente surpreendido e preocupado", afirmou Brian Castner, um antigo oficial do Explosive Ordenance Disposal (EOD) que é agora conselheiro sénior da Amnistia Internacional para a crise das armas e operações militares.

"Já é suficientemente mau utilizar as armas quando elas atingem os alvos com precisão. É um problema enorme para os civis se as armas não tiverem essa precisão e se nem sequer se puder dar o benefício da dúvida de que a arma está realmente a aterrar onde as forças israelitas pretendiam", acrescentou Castner.

Rutura crescente entre Israel e os EUA

O relatório sobre a avaliação surge num momento extremamente sensível nas relações entre os EUA e Israel, uma vez que a Casa Branca se debateu na quarta-feira para explicar o comentário de Biden de que Israel está envolvido em "bombardeamentos indiscriminados", ao mesmo tempo que afirma que Israel está a tentar proteger os civis.

O fosso entre os dois países tem vindo a aumentar devido à forma como as forças armadas israelitas estão a levar a cabo as suas operações em Gaza na guerra contra o Hamas, lançada depois do Hamas ter matado mais de 1.200 israelitas em 7 de outubro.

Biden afirmou, na terça-feira, que Israel está a perder o apoio da comunidade internacional à medida que o número de mortos aumenta em Gaza, onde mais de 18.000 palestinianos foram mortos nos últimos dois meses, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza dirigido pelo Hamas. Os EUA estão também a ficar cada vez mais isolados a nível internacional, uma vez que se recusam a apoiar os apelos a um cessar-fogo no conflito.

Esta quinta-feira, o conselheiro de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan, inicia uma viagem de dois dias a Israel, onde se encontrará com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e manterá "conversações extremamente sérias" com as autoridades israelitas durante a visita, disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, durante um briefing da Casa Branca na quarta-feira. Sullivan discutirá com os israelitas "os esforços para ser mais cirúrgico e mais preciso e para reduzir os danos aos civis", revelou Kirby.

Marc Garlasco, antigo analista militar das Nações Unidas e investigador de crimes de guerra, que foi chefe da secção de alvos de alto valor do Estado-Maior do Pentágono em 2003, afirmou que a utilização de munições não guiadas numa zona densamente povoada como Gaza aumenta muito a probabilidade de o alvo não ser atingido e de os civis serem prejudicados no processo.

Um funcionário dos EUA disse à CNN que os EUA acreditam que as forças armadas israelitas estão a utilizar as "bombas burras" em conjunto com uma tática chamada "bombardeamento de mergulho", ou seja, lançar uma bomba enquanto se mergulha a pique num avião de combate, o que, segundo o funcionário, torna as bombas mais precisas porque as aproxima do alvo. O mesmo funcionário disse que os EUA acreditam que uma munição não guiada lançada através de bombardeamento de mergulho é tão precisa quanto uma munição guiada.

Mas, Garlasco diz que os israelitas "devem querer usar a arma mais precisa que puderem numa área tão densamente povoada". Com uma munição não guiada, "há tantas variáveis a ter em conta que podem levar a uma precisão incrivelmente diferente de um momento para o outro", acrescentou Garlasco. Os EUA têm vindo a eliminar deliberadamente a sua própria utilização de munições não guiadas ao longo da última década.

Não se sabe ao certo que tipo de munições não guiadas os israelitas têm utilizado, embora os especialistas tenham referido que os militares israelitas têm utilizado bombas M117 que parecem não guiadas. A Força Aérea israelita publicou no X, em outubro, fotografias de aviões de combate armados com o que pareciam ser bombas M117, referiu Castner.

Os EUA também forneceram a Israel munições não guiadas, incluindo 5.000 bombas Mk82, segundo uma fonte familiarizada com as recentes transferências de armas à CNN, confirmando um relatório do Wall Street Journal.

Mas os EUA também fornecem a Israel sistemas que podem transformar essas "bombas burras" em bombas "inteligentes", incluindo o sistema de orientação Joint Direct Attack Munitions (JDAMS) e os conjuntos de bombas deslizantes da família Spice. Os Estados Unidos forneceram cerca de 3.000 JDAMS a Israel desde 7 de outubro, reportou anteriormente a CNN, e disseram ao Congresso no mês passado que planeavam transferir 320 milhões de dólares em kits da Família Spice.

Kirby disse na quarta-feira que Israel está "a fazer tudo o que pode para reduzir as baixas civis". Mas os EUA têm repetidamente instado Israel a ser mais preciso e deliberado no seu ataque aos combatentes do Hamas dentro de Gaza, informou a CNN. Ainda assim, a administração Biden não tem planos para colocar condições na ajuda militar que está a fornecer a Israel, como noticiou a CNN na quarta-feira. Isso apesar dos crescentes apelos de legisladores democratas e organizações de direitos humanos para que os EUA parem de fornecer armas, a menos que Israel faça mais para proteger os civis. Um funcionário dos EUA revelou que Biden acredita que uma estratégia de pressão silenciosa sobre Israel para mudar as suas táticas tem sido mais eficaz do que ameaçar suspender o fornecimento de armas.

Kevin Liptak e Michael Williams, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

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