O caso surgiu depois de uma imagem captada na Cisjordânia circular nas redes sociais e volta a colocar pressão sobre o comportamento de militares israelitas no território ocupado. As Forças de Defesa de Israel dizem que os símbolos usados pelo soldado não são autorizados e garantem que a mensagem não representa o Exército
O Exército israelita anunciou que está a analisar a conduta de um soldado fotografado na Cisjordânia com emblemas não autorizados no uniforme, depois de a imagem ter circulado nas redes sociais. Num dos emblemas lia-se: “Acabem com o ódio, está na hora da violência.” Noutro, a expressão “caçadores do Hamas”.
Em comunicado, as Forças de Defesa de Israel sublinharam que o uso de símbolos não militares nos uniformes é estritamente proibido e que aquele emblema “não representa o Exército nem os seus valores”. “O Exército opera de acordo com a lei, condena a violência de qualquer tipo e encara com gravidade qualquer uso de símbolos que ponham em causa o seu caráter institucional”, acrescentou a instituição militar.
O episódio ocorre num momento de escrutínio crescente sobre o uso, por parte de soldados israelitas, de emblemas e inscrições não autorizadas com mensagens religiosas, messiânicas ou políticas, sobretudo na Cisjordânia.
A polémica cruza-se com um cenário mais vasto de denúncias contra colonos israelitas e contra a atuação de militares no território ocupado. Organizações de direitos humanos, responsáveis palestinianos e organismos das Nações Unidas têm acusado soldados israelitas de não travarem ataques contra palestinianos, mesmo quando estão presentes, e, em alguns casos, de participarem ou darem cobertura a essas ações.
A Human Rights Watch acusou o Exército israelita de ter participado ou de não ter protegido palestinianos de ataques violentos de colonos que levaram ao deslocamento de habitantes de 20 comunidades e ao esvaziamento total de pelo menos sete desde 7 de outubro de 2023. A organização investigou casos em Khirbet Zanuta, Khirbet al-Ratheem, al-Qanub, Ein al-Rashash e Wadi al-Seeq, descrevendo ataques em que colonos armados, por vezes acompanhados por soldados, terão bloqueado acessos, invadido comunidades, agredido residentes, roubado bens e gado, destruído casas e escolas e ameaçado palestinianos de morte para os obrigar a abandonar as terras.
A Amnistia Internacional também apontou episódios concretos. Em Deir Dibwan, a leste de Ramallah, vídeos verificados pela organização mostram soldados israelitas presentes enquanto colonos vandalizavam propriedade palestiniana. Numa dessas imagens, segundo a Amnistia, duas pessoas entram numa garagem e incendeiam um carro enquanto dois militares permanecem no local. Noutro momento, soldados observam colonos a montar um bloqueio numa estrada de acesso à aldeia.
A mesma organização recolheu testemunhos sobre ataques em Aqraba, a sudeste de Nablus, e em Kufr Malik, a nordeste de Ramallah, nos quais militares israelitas terão ficado parados perante a violência ou participado nela. Em Kufr Malik, a Amnistia diz ter verificado imagens em que soldados pontapeiam e detêm um civil ajoelhado no chão, acompanhados por um homem que aparenta ser colono israelita.
As Nações Unidas também têm endurecido o tom. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos apelou a Israel para pôr fim ao que descreveu como participação ativa e apoio de forças de segurança israelitas a ataques de colonos contra palestinianos na Cisjordânia, lembrando que Israel, enquanto potência ocupante, tem a obrigação de garantir a ordem pública e proteger a população palestiniana.
Mais recentemente, na aldeia de Umm al-Khair, perto de Hebron, dezenas de crianças palestinianas ficaram impedidas de seguir pelo caminho habitual para a escola depois de colonos terem colocado arame farpado no percurso. Moradores disseram à Reuters que soldados israelitas dispararam gás lacrimogéneo no local, provocando dificuldades respiratórias em várias crianças. O Exército israelita afirmou que os meios de dispersão foram usados contra adultos palestinianos que tentavam aproximar-se do perímetro de segurança de um colonato e disse que as crianças não foram visadas.
É neste ambiente, marcado por denúncias sucessivas, imagens verificadas e acusações de impunidade, que surge a fotografia do soldado com o emblema a declarar que “está na hora da violência”. O Exército israelita tenta agora separar a instituição da mensagem inscrita no uniforme. Mas a imagem chega num território onde, para muitos palestinianos, a fronteira entre quem deve impor a ordem e quem a ameaça se tornou cada vez mais difícil de reconhecer.