Uma estratégia "preparada há mais de 25 anos" e um segredo bem guardado dão ao Irão a inesperada resistência à "supremacia aérea" dos EUA

7 abr, 07:00
O cenário de destruição no Irão (Hassan Ghaedi/Anadolu via Getty Images)

Enquanto o mundo via apenas um regime isolado e tecnologicamente atrasado, Teerão construía, em silêncio, uma sofisticada estratégia de guerra que está a provar ser mais capaz do que se esperava. Agora, alia isso ao tempo, que começa a jogar a seu favor

Mais de treze mil missões de voo, doze mil alvos destruídos e com os ataques iranianos reduzidos em cerca de 90%. Cinco semanas depois do início da Operação Fúria Épica, os números avançados pelo Pentágono pareciam mostrar que os Estados Unidos tinham conquistado a supremacia aérea no Irão. Mas no dia 3 de abril, essa noção chocou com a realidade, quando as forças iranianas abateram um caça americano de quarta geração F-15. Segundo os especialistas militares, este desfecho não é obra de um acaso, mas o resultado de uma estratégia "preparada há mais de 25 anos", assente numa vasta rede impenetrável que continua a esconder do radar americano um arsenal letal.

"Apesar dos ataques [americanos], os sistemas iranianos continuam altamente protegidos. Eles conseguem acumular e esconder muitos recursos nas suas redes de túneis subterrâneos. É evidente que isto está a provocar uma erosão enormíssima na capacidade de destruição dos Estados Unidos", explica à CNN Portugal o tenente-general Marco Serronha.

Ainda não são conhecidos todos os dados acerca do abate do caça norte-americano F-15 que levou a uma complexa operação de resgate para recuperar com sucesso um dos tripulantes do avião. Mas, segundo as palavras da liderança norte-americana, este era um incidente que não era suposto ter acontecido. As forças norte-americanas insistem que a capacidade iraniana foi obliterada, citando uma redução de 90% nos lançamentos balísticos e a destruição de grande parte das fábricas de armamento. Ao longo dos quase 40 dias de operação, a capacidade de deteção iraniana foi severamente degradada. Alguns dos melhores radares do arsenal iraniano foram destruídos pelos ataques cirúrgicos americanos.

Mas a capacidade iraniana de contra-atacar pode ser bem superior à inicialmente avançada pelo almirante Brad Cooper. De acordo com fontes dos serviços secretos norte-americanos, em declarações exclusivas à CNN, estima-se que afinal o Irão continue a ter intacta mais de metade do seu arsenal de lançadores de mísseis balísticos e de drones kamikaze de longo alcance. A estimativa dos serviços secretos revela também que o regime dos aiatolas conseguiu preservar a vasta maioria dos seus mísseis cruzeiro de defesa costeira, mantendo a ameaça de ataques a todas as embarcações que tentem cruzar o estreito de Ormuz sem autorização iraniana.

Esta análise dos serviços de informações americanos contrasta com o discurso triunfal do próprio presidente americano, que na semana passada declarou que a capacidade do Irão de "lançar mísseis e drones foi drasticamente reduzida". E os números aparentam dar razão ao líder norte-americano. Segundo o Pentágono, o número de lançamentos de drones e mísseis por parte do Irão caiu 90% desde os primeiros dias do conflito.

Só que, segundo os especialistas militares, a diminuição do número de ataques pode não significar que as capacidades tenham sido destruídas ou que estejam inutilizáveis. As forças iranianas deixaram de realizar salvas maciças para se concentrarem em ataques esporádicos, precisos e letais, abrigando os seus ativos em complexas redes de túneis e instalações subterrâneas que escapam aos radares de satélite e resistem às campanhas de bombardeamento estratégico.

O segredo desta sobrevivência perante as munições mais avançadas do mundo reside na geografia. As bombas bunker buster norte-americanas não são potentes o suficiente para ultrapassar a realidade geológica do país. "O Irão é riquíssimo em montanhas com composições geológicas graníticas, que são muito resistentes. Se eles [iranianos] de facto perfuraram a esse nível, a 300 metros de profundidade, aquilo é praticamente impenetrável", garante o tenente-general Rafael Martins. Ao criarem múltiplas vias de acesso para estes ninhos subterrâneos, os engenheiros iranianos garantiram que a destruição de uma entrada não inutiliza o arsenal que está lá dentro.

É de túneis como os mostrados nas imagens abaixo, de um vídeo partilhado pelo Irão logo nos primeiros dias de guerra, que estamos a falar. É lá que está escondido ainda muito do armamento que continua a ser utilizado.

"A supremacia aérea é um conceito de poder aéreo em que há um domínio completo dos céus. O que os americanos têm é um elevadíssimo grau de superioridade aérea", sublinha Rafael Martins, que serviu na Força Aérea. O especialista nota que, mesmo com os radares principais destruídos, a resiliência iraniana permite contra-ataques pontuais e letais. "Isso não impede que, local ou temporariamente, os iranianos saiam das suas estruturas subterrâneas. Se o avião americano for apanhado numa rota estável por um soldado com um sistema portátil (MANPAD), eles agarram-nos", explica.

O Irão tem uma vasta quantidade de sistemas portáteis de defesa antiaérea, a começar logo pelo Misagh-3, de fabrico iraniano, mas baseado num sistema chinês. Este sistema, que pesa 17 quilos e tem um alcance de cinco quilómetros, pode ser operado por apenas um soldado. Apesar de não se saber se foi esta arma que esteve envolvida no abate do F-15, sabe-se que no final de março foi responsável pelo quase abate de uma outra aeronave, um F-18, junto à cidade costeira de Chabahar. Além disso, está longe de ser o único sistema portátil que a Guarda Revolucionária iraniana opera. De acordo com a Reuters, o Irão comprou mais de 500 lançadores portáteis e 2.500 mísseis antiaéreos à Rússia nos últimos anos.

A eficácia desta rede de atrito não se limita a ameaçar caças tripulados. Desde o início das operações, a coligação liderada pelos Estados Unidos tem sofrido perdas materiais significativas que os oficiais do Pentágono tendem a minimizar. Relatórios indicam a perda de cerca de uma dezena de drones MQ-9 Reaper, abatidos pelas defesas de médio alcance iranianas. Paralelamente, o Irão tem focado os seus ataques de retaliação em alvos logísticos de altíssimo valor nas bases regionais, tendo já destruído um avião radar E-3 Sentry e afetado várias aeronaves de reabastecimento KC-135.

O Irão construiu uma densa rede de defesa aérea em múltiplas camadas. No topo estão as baterias russas S-300 e os sistemas domésticos Bavar-373, desenhados para proteger instalações estratégicas. Mas é na camada intermédia que o Irão procura causar verdadeiros problemas para os Estados Unidos. Defesas totalmente móveis como o Khordad-15 e a vasta rede de lançadores Mersad podem reposicionar-se rapidamente após detetarem uma ameaça. É esta rede de médio alcance que dita a armadilha para os Estados Unidos. Para fugir aos radares destes sistemas, os aviões americanos são forçados a voar a altitudes mais baixas e isso coloca-os à mercê dos sistemas móveis portáteis.

Esta estratégia iraniana não passa por travar a Força Aérea americana, mas apenas sobreviver aos seus ataques. A liderança militar observou com atenção as lições das guerras do Iraque, Sérvia e Líbia, onde a estrutura fixa da Força Aérea do país foi completamente destruída nas primeiras horas de combate. A Força Aérea iraniana tornou-se altamente descentralizada. Isto permite que as estruturas de comando possam operar de forma independente, mesmo quando as comunicações estão cortadas. Isto tornou a defesa aérea iraniana menos letal, mas aumentou significativamente a sua capacidade de sobrevivência. As capacidades iranianas podem ser significativamente degradadas, mas eliminá-las por completo é praticamente impossível.

"O Irão tem capacidades para resistir e mais do que isso, acentua a sua defesa numa estratégia assimétrica. (...) O Irão tem uma estratégia assimétrica preparada para isto há mais de 25 anos, que incide na utilização de mísseis sobre Israel e sobre os Estados Unidos (...) para provocar erosão psicológica", refere Marco Serronha.

Isto coloca a Força Aérea norte-americana num constante estado de alerta. O custo desta guerra de atrito também é um dos pilares da doutrina militar iraniana, que utiliza armas mais baratas para esgotar os recursos militares americanos, que têm valores proibitivos. Enquanto os EUA disparam mísseis interceptores Patriot ou THAAD que custam milhões de dólares a unidade, o Irão responde com enxames de drones de fabrico nacional, cujo custo de produção se fixa entre os 20 mil e os 50 mil dólares. Esta disparidade colossal obriga Washington a suportar um encargo diário estimado entre um a dois mil milhões de dólares para manter as operações, o que pode tornar a operação americana insustentável do ponto de vista político e financeiro.

A escalada militar coincide agora com um ponto de rutura diplomático. No 38.º dia de guerra, a administração de Donald Trump estendeu um ultimato a Teerão, dando mais 24 horas para a reabertura do Estreito de Ormuz, sob a ameaça de ataques massivos às infraestruturas energéticas do país. Contudo, com o preço do petróleo Brent a estabilizar bem acima dos 100 dólares por barril e as bolsas globais a tremerem, a pressão internacional recai tanto sobre Washington como sobre Teerão. Países mediadores tentam desesperadamente um cessar-fogo de 45 dias, mas o regime iraniano recusa recuar sob fogo.

"Se eu me pusesse nos pés dos iranianos... a tática era esticar o tempo. Quanto mais o tempo passar, maior o prejuízo, maior será a tensão de credibilidade dos Estados Unidos. O tempo joga a favor do Irão. O Irão tem a vantagem de controlar o estreito. Tem ali uma arma que incomoda toda a gente, e toda a gente diz aos americanos: 'Parem lá com isto para ver se eles abrem aquela porta, senão vamos asfixiar'", defende o tenente-general Rafael Martins.

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