Trump quer "mandar a Europa para um ninho de vespas"

CNN Portugal , MFP
1 abr, 15:42
Presidente dos EUA, Donald Trump (Getty)

Ao fim de mais de um mês de guerra, o Estreito de Ormuz permanece fechado e Donald Trump parece estar disposto a deixar o problema nas mãos dos aliados. Segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, à Europa resta "esperar" que passe a "cortina de fumo" porque "acabar a guerra com o estreito fechado é algo que não pode ser interpretado como uma operação militar bem-sucedida" e Trump pode não estar disposto a correr esse risco

Um dia depois de admitir que a sua “coisa favorita” seria “tomar o petróleo do Irão”, Donald Trump parece estar a preparar-se para terminar o conflito com Teerão, mesmo sem garantias de que o Estreito de Ormuz venha a ser reaberto.

Um cenário que também não parece preocupar o presidente norte-americano, tendo em conta que, segundo ele, os EUA têm petróleo “em abundância” e até estão prontos para o vender “a todos aqueles países que não conseguem obter combustível por causa do Estreito de Ormuz, como o Reino Unido”.

“Comprem aos EUA, nós temos em abundância”, escreveu na sua rede social, Truth Social, encorajando os aliados a “ganhar alguma coragem tardia” para intervir na guerra e “irem buscar o seu próprio petróleo”. “Simplesmente tomem-no. Os EUA já não estarão lá para vos ajudar, tal como vocês não estiveram lá para nós. O Irão foi, essencialmente, dizimado. A parte difícil já está feita”, sublinhou ainda. 

Mas mantém-se a possibilidade de “tudo isto serem cortinas de fumo”, criadas pelo líder americano para incentivar a Europa a envolver-se na "trapalhada monumental que inventou no Médio Oriente", avisa Francisco Pereira Coutinho, especialista em direito internacional. E pode estar a fazê-lo, aplicando pressão sobre os aliados para que conduzam uma intervenção militar naquela passagem estratégica, tentando “abrir o estreito pela força”.

Para o comentador da CNN Portugal, Donald Trump tenta partilhar as responsabilidades do conflito com a Europa ao mesmo tempo que supõe que o fecho do Estreito de Ormuz só tem impacto sobre o velho continente e sobre a Ásia. Ao fazê-lo, diz, “está a tentar pôr-nos a discutir uma realidade que não existe”, numa altura em que o aumento dos preços dos combustíveis é generalizado e está a subir “em todo o lado, inclusivamente nos Estados Unidos”.

“Mesmo que Trump saia [do conflito], o mais provável é o estreito continuar fechado durante algum tempo e isso vai ter impactos também sobre os Estados Unidos. Isto definitivamente não tem adesão à realidade para ele simplesmente estar a dizer: ‘Eu já fiz a minha parte, agora vão lá vocês e façam a vossa’”, reforçou.

Além disso, uma retirada dos EUA neste momento “deixaria furiosos os seus aliados na região”, lembra Francisco Pereira Coutinho, reconhecendo que o fecho da rota afeta os europeus, mas é particularmente problemático para os países asiáticos e para os países do Golfo, que “não vão exportar petróleo sem pagar ao Irão”.

Na análise do tenente-general Rafael Martins, especialista militar da CNN Portugal, esta não passa de mais uma tentativa de Donald Trump “mandar a Europa para um ninho de vespas que a Europa não criou”, através daquilo que “pode ser apenas uma argumentação de pressão”.

“Neste momento, a Europa tem de ser muito serena, esperar até ao dia 6 e ver se é tudo um ‘bluff’ negocial, ou se é concentração de mais armamento e mais forças para operações de maior dimensão”, explica Rafael Martins, observando que uma retirada dos EUA do conflito seria uma “irresponsabilidade”, especialmente “sem deixar uma porta aberta para a negociação”.

Segundo Francisco Pereira Coutinho, há ainda uma outra leitura a fazer do discurso de Donald Trump - uma que se insere no contexto de eleições que se avizinha. “Ele está a tentar usar uma narrativa para dizer que fez o que podia e que foi tudo um grande sucesso”, aponta, “porque se sente acossado, ao ver o preço do petróleo subir, a ter impacto na economia mundial, americana e vêm aí eleições”.

A questão, sublinha o comentador, é que “acabar a guerra com o estreito fechado é algo que não pode ser interpretado como uma operação militar bem-sucedida” e os iranianos “sabem isto”.

“Se os EUA saírem e o Irão mantiver o estreito fechado, isto vai ter impacto sobre os Estados Unidos e toda a gente vai apontar o dedo aos americanos como responsáveis pela crise”, salienta, argumentando que dessa maneira Teerão “não tem nenhum incentivo para libertar a rota imediatamente”. 

Há uma vantagem para o Irão na reabertura de Ormuz

Por sua vez, Rafael Martins destaca o eventual pagamento de uma portagem para navegar através da passagem estratégica como a principal vantagem da reabertura do Estreito de Ormuz para o Irão. Isto num momento em que grande parte da infraestrutura iraniana foi afetada pelos ataques conjuntos dos EUA e de Israel.

“O Irão vai ficar extremamente debilitado no fim desta guerra, vai precisar de dinheiro para se reconstruir e para se reabilitar nas infraestruturas que já estão destruídas e naquelas que ainda vão ser destruídas”.

A fonte de rendimento que advém das exportações de gás e de petróleo, “se de facto se mantiver operacional e se os EUA não derem cabo daquilo”, pode não ser suficiente, considera o especialista militar.

Ainda que com um “elevado clima de tensão”, o tenente-general mantém-se otimista quanto a uma negociação entre o regime iraniano e os europeus, que “não foram tão ofensivos”.

“No fim, acho que vai haver um certo pragmatismo para passarmos à fase seguinte, uma fase em que o Irão se adapta a uma nova condição. Porque se não o conseguir fazer, aquilo vai ficar verdadeiramente mau com os seus vizinhos, porque a Arábia Saudita e todos os países que estão do outro lado do Golfo, não vão ficar de bem com o Irão e vão ver sempre ali uma ameaça emergente.”

Se, por outro lado, o Irão se mantiver focado nos EUA, pode não ser assim tão trabalhoso manter o estreito fechado, considera Francisco Pereira Coutinho. Mesmo depois de Donald Trump alegar que eliminou a Marinha e a Força Aérea iranianas, o especialista sublinha que o país continua a ter drones e isso “é o suficiente para atacar três ou quatro navios e ninguém passa sem autorização”.

À medida que alguns países europeus se tornam menos recetivos à instrumentalização do seu território para auxiliar os esforços de guerra dos EUA, ambos os especialistas estão de acordo quanto ao papel que a Europa está disposta a assumir no conflito: a discussão por via diplomática.

“A Europa não quer ir. Não quer, de forma belicista, avançar com meios aéreos e navais, que é o mais eficaz para já na fase inicial, e expor-se a uma realidade para a qual não está preparada, tendo outra frente ativa, que é uma frente leste da Ucrânia ainda por resolver”, indica Rafael Martins, acrescentando que os europeus não parecem estar dispostos a “apagar um incêndio que o próprio Donald Trump iniciou”.

E mesmo que a hipótese fosse viável para a Europa, alerta Francisco Pereira Coutinho, enviar tropas para o Médio Oriente “seria impensável”, já que “só é possível resolver a questão negociando com o Irão e pagando-lhe”.

E.U.A.

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