Presidente norte-americano está a ponderar intervir, ao lado de Israel, contra o Irão. Mas estará preparado para as consequências de envolver os EUA - mais uma vez - num conflito no Médio Oriente?
"Donald Trump sabe que o envolvimento dos Estados Unidos na guerra entre Israel e o Irão é um risco enorme, ele foi certamente aconselhado sobre isso, e bem, e num primeiro momento a sua reação foi cautelosa". Esta é a leitura de Tiago André Lopes, especialista em Assuntos do Médio Oriente. Na terça-feira, porém, Trump começou a mudar o seu discurso. As ameaças ao Irão tornaram-se mais concretas. “A nossa paciência está a esgotar-se”, avisou, pedindo ao Irão uma "rendição total", entretanto já negada pelo Líder Supremo.
Questionado por jornalistas já esta quarta-feira sobre se tenciona atacar as instalações nucleares do Irão, o presidente americano recusou-se a dar uma resposta: "Talvez o faça. Posso não o fazer." "Provavelmente ficou galvanizado pela perceção de que a campanha de Israel estar a correr muito bem", diz o analista à CNN Portugal, lembrando que Israel é um aliado e Trump quer estar associado a essa eventual vitória. "Trump vê nesta aliança uma oportunidade para concretizar a expectativa que até agora está a ser gorada de ser adorado, quer capitalizar esta vitória militar."
Horas depois o Wall Street Journal avançava que os planos de ataque já foram aprovados pelo presidente norte-americano, faltando apenas a ordem final para que eles se concretizem.
Mas, tirando essa vaidade pessoal de Donald Trump, a primeira questão que se coloca é: porque hão-de os Estados Unidos envolver-se num conflito que não lhes diz respeito?
"A guerra não é um fim em si mesmo, a guerra é uma forma de impor ao outro a nossa vontade. O Irão não aceitava, à mesa das negociações, abdicar do seu programa nuclear, disse-o e tem-no repetido". Por isso foi necessária uma intervenção militar, explica o major-general Jorge Saramago. A justificação americana será, portanto, a necessidade de impedir que o Irão construa uma bomba nuclear para fins militares, algo que Israel alega que está muito próximo de acontecer.
"Mas Israel está a dizer isso desde 1992 e entretanto ainda não aconteceu", sublinha Tiago André Lopes. "Não há nenhuma prova de que a bomba nuclear esteja a ser construída. Já fizemos esta asneira em 2003", afirma o comentador, lembrando a invasão do Iraque, que foi também uma guerra para evitar a proliferação nuclear, na altura a mando de George W. Bush. Além de não terem sido encontradas armas nucleares - ou como lhes chamavam então, de destruição maciça -, a invasão americana desencadeou o caos e a guerra civil no Iraque e fez pender o equilíbrio regional de poder para o Irão, permitindo-lhe estabelecer novas milícias no país. Também levou à eventual ascensão do Estado Islâmico.
Em março deste ano, a diretora dos serviços secretos norte-americanos, Tulsi Gabbard, garantiu que, de acordo com a informação avaliada, “o Irão não está a construir uma arma nuclear e que o Líder Supremo [aiatola Ali] Khamenei não autorizou o programa de armas nucleares que suspendeu em 2003” com recurso a uma fatwa - uma lei emitida por um jurista islâmico - que impede esse cenário. "Porquê atacar um país que os próprios espiões americanos avaliaram - mesmo antes deste conflito - como estando longe de ter uma bomba nuclear, e que provavelmente está mais longe agora?", perqunta o analista da CNN Internacional, Nick Paton Walsh. "Porquê ser arrastado para um conflito com o único objetivo de impedir algo que a sua comunidade de informações avaliou que não está prestes a acontecer?"
O caos no Médio Oriente - os EUA outra vez envolvidos
Os analistas militares dizem que só os Estados Unidos têm os bombardeiros e as bombas que podem penetrar nas instalações nucleares iranianas mais profundas, especialmente a de Fordow. Mas não é garantido que a bomba lançada pelo avião americano GBU-57 consiga penetrar na central nuclear de Fordow, construída a dezenas de metros de profundidade, nem de que Israel, mesmo com a ajuda dos EUA, consiga destruir toda a insfraestrutura nuclear do Irão. "O programa de enriquecimento de urânio do Irão tem mais de 20 anos, está espalhado por vários locais na República Islâmica e emprega milhares de cientistas - três mil só nas instalações de Isfahan", sublinha Rosemary Kelanic, diretora do programa para o Médio Oriente na Defense Priorities. Depois de uma guerra, o Irão será provavelmente capaz de reconstruir rapidamente as suas instalações nucleares.

A única certeza que se tem é que o Irão iria certamente ripostar, como já ameaçou fazer, e os Estados Unidos iriam novamente ver-se envolvidos numa guerra no Médio Oriente, colocando em causa, desde logo, os cerca de 40 mil soldados americanos estacionados em várias bases na região, uma boa parte das quais suscetível a ataques de mísseis balísticos iranianos.
O Irão poderia atacar alvos americanos em todo o Médio Oriente - tais como campos de forças especiais no Iraque, bases militares no Golfo e missões diplomáticas na região. Há muitos alvos energéticos e de infraestruturas na região, quer dos EUA quer de países aliados dos americanos.
O envolvimento das Forças Armadas americanas começaria provavelmente com ataques aéreos, dada a grande dimensão do Irão e o seu terreno montanhoso e difícil. "Mas, como demonstrou a infrutífera campanha de sete mil milhões de dólares contra os Houthis, os ataques aéreos são exorbitantemente caros, implicam riscos significativos de baixas americanas e, de qualquer modo, é provável que falhem", lembra Rosemary Kelanic. A necessária campanha terrestre que lhe seguiria seria ainda mais desastrosa. "Talvez algo semelhante ao modelo afegão que os Estados Unidos utilizaram para derrubar os talibãs. Sabemos como é que isso correu", afirma Kelanic num artigo publicado no The New York Times.
O major-general Isidro de Morais Pereira está mais otimista: "Trump não se pode dar ao luxo de se envolver em operações ativas e trazer soldados norte-americanos de regresso ao seu país em sacos de plástico", diz o comentador da CNN Portugal, que está convencido que o presidente americano vai decidir pela intervenção militar no Irão. "A leitura que Trump faz é que, neste momento, a utilização do aparelho militar norte-americano contra o Irão, procurando auxiliar Israel em termos ofensivos, tem um risco praticamente mínimo porque Israel conseguiu ter supremacia aérea e o Irão está extremamente enfraquecido. Não se visualiza a possibilidade de uma intervenção terrestre e, por isso, o risco de baixas não é inexistente, mas é negligenciável."
A Rússia e a China poderão entrar no conflito
Seja como for, uma intervenção dos EUA significaria a passagem de um conflito regional para um nível global, antevê Tiago André Lopes.
"Ainda não conhecemos a posição da China, mas não me surpreenderia que a China e a Rússia viessem a jogo para defender o Irão, que é um aliado antigo. Deixar cair o Irão nesta altura poderia ter um custo muito alto", afirma o especialista em Relações Internacionais, sublinhando que os poucos sinais dados por estes países vão exatamente neste sentido.
Por outro lado, é provável que houvesse também "o levantamento de uma grande frente árabe que, não podendo combater, porque não têm homens suficientes, pode magoar o Ocidente com a questão energética", diz. "Já vimos isso acontecer nos anos 70."
Para a Europa este seria também um momento de definição: "A Europa continua a tentar validar o que Israel está a fazer, alimentanto uma espécie de culpa moral histórica que já não faz sentido", afirma Tiago André Lopes. "Mas é preciso entender que validar Israel é validar o que a Rússia está a fazer à Ucrânia - as razões são exatamente as mesmas. A partir daqui vai ser muito difícil travar na mesa negocial a agenda russa."
Mudança de regime no Irão é uma incógnita
E isto para quê? Netanyahu afirma que o seu principal objetivo é destruir a capacidade nuclear do Irão. Mas o que se subentende, quer das suas palavras quer das ações de Israel, é que o que verdadeiramente se quer é uma mudança de regime. O primeiro-ministro israelita disse ao “orgulhoso povo do Irão” que o ataque estava a “abrir caminho para que alcancem a vossa liberdade” em relação ao que chamou de “regime maléfico e opressivo”.
"No final da guerra, com este mesmo governo, o que o Irão vai fazer é reabilitar as suas estruturas, a sua enconomia, vai continuar a financiar os grupos terroristas que tem vindo a financiar e tem condições de reabilitar também o seu programa nuclear", avisa o major-general Jorge Saramago. Por isso, "a melhor coisa que poderia acontecer seria este governo cair".
"Mas a mudança de líder não é necessariamente uma mudança de regime", alerta Tiago André Lopes. O aiatola Ali Khamenei tem já 86 anos, é previsível que a sua sucessão já esteja tratada. "E arriscamo-nos que seja substituído por um aiatola ainda mais violento".
Apesar de o regime contar com uma grande oposição interna, o regresso da monarquia Pahlavi - que governou o Irão durante 54 anos, entre 1925 e 1979 - "dificilmente conseguira obter o apoio popular e sedimentar o seu poder", considera Tiago André Lopes. Derrubar o governo do Irão pode, portanto, abrir caminho a um vazio de poder e a uma guerra civil, à semelhança do que aconteceu no Iraque, na Líbia ou na Síria. "Essa não é uma situação que os EUA queiram repetir no Irão", diz o analista.
Consequências internas
Donald Trump foi um dos maiores críticos das anteriores guerras dos EUA no Médio Oriente, que duraram demasiado tempo, custaram muito dinheiro e colocaram as tropas americanas em situações com poucas hipóteses de sucesso. Se Trump decidir agora avançar para o Irão isso será exatamente o oposto daquilo que prometeu durante a campanha eleitoral, recorda Tiago André Lopes. "O movimento MAGA [Make America Great Again] é um movimento nacionalista, é o movimento do America First. As pessoas que votaram em Trump querem que o presidente se foque nos problemas internos e não que ande a fazer de polícia no mundo." E a verdade é que, desde que foi eleito, Trump parece andar mais ocupado com a política externa do que a resolver os problemas reais dos americanos.
O major-general Isidro de Morais Pereira concorda que "uma das questões prende-se com a base de apoio que elegeu Trump. A fação mais radical da MAGA é completamente contra toda e qualquer intervenção externa dos EUA, defende um regresso às doutrinas isolacionistas". Mas também existe "outra parte do Partido Republicano que é a favor da intervenção, porque considera que os Estados Unidos devem assumir as suas responsabilidades enquanto super-potência e não se pode alhear dos problemas do mundo".
Por isso, esta intervenção pode mesmo ter consequências políticas para Trump - se correr bem será uma mais valia eleitoral, se correr mal será usada pelos seus opositores. Na opinião do especialista militar, Trump "tem sido muito cauteloso" com as questões militares, e só irá intervir porque está certo que poderá "cavalgar a onda de sucesso que Israel está a conseguir" e chegar ao fim desta campanha como "o grande negociador, o homem que obrigou o Irão a abdicar do programa nuclear".