Trump está a perder poderes na guerra contra o Irão – e está a ficar encurralado

CNN , Aaron Blake
4 jun, 17:27
Presidente dos EUA, Donald Trump (Getty)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

ANÁLISE || A Câmara dos Representantes dos EUA aprovou uma resolução para limitar os poderes de guerra de Donald Trump no Irão. Quatro republicanos votaram ao lado dos democratas, o que deixou Trump furioso. A última semana mostra como a realidade política está cada vez mais claustrofóbica

Antes da votação na Câmara dos Representantes no Congresso dos Estados Unidos, esta quarta-feira, sobre a restrição dos poderes de guerra do presidente Donald Trump contra o Irão, o presidente da Câmara, Mike Johnson, apelou aos republicanos para que se opusessem à medida.

Numa entrevista com Manu Raju, da CNN, Johnson afirmou repetidamente que tal seria "perigoso" e minaria o poder de negociação de Trump para chegar a um acordo que pusesse fim à guerra.

E a verdade é que Johnson tinha razão. Tais votações sinalizam uma falta de determinação, mesmo no próprio partido de Trump, para continuar a guerra.

Mas quatro republicanos votaram a favor na mesma, permitindo que a resolução fosse aprovada por 215 votos contra 208 e infligindo a Trump uma das maiores rejeições legislativas da sua presidência.

Se a resolução fosse aprovada no Senado — onde 50 dos 100 senadores parecem apoiá-la —, Trump seria obrigado a retirar as tropas do Irão ou a obter a aprovação do Congresso para a guerra.

A Casa Branca, que deu a entender que considera inconstitucional a lei subjacente, poderia tentar ignorar a resolução.

Mike Johnson, presidente da Câmara de Representantes dos EUA. Foto de arquivo Julia Demaree Nikhinson/AP via CNN Newsource

Mas, no mínimo, a votação na Câmara foi um comentário marcante sobre o quanto os republicanos parecem estar a perder a paciência com Trump e a sua guerra politicamente prejudicial. Foi um sinal de que um número pequeno, mas claramente significativo, deles está menos disposto a dar-lhe tempo para tentar encontrar uma saída.

O resultado é que Trump está cada vez mais encurralado.

E essa está a tornar-se uma posição familiar para o presidente dos EUA, cujos números nas sondagens caíram para mínimos históricos. Com uma potencial derrota a pairar sobre o Partido Republicano em novembro e à medida que a guerra com o Irão caminha para um atoleiro, Trump está a perder o controlo do que se avizinha.

Recuo em relação ao Kennedy Center e ao fundo "anti-armamento2

A última semana mostrou repetidamente como Trump está a ser forçado a lidar com esta realidade política cada vez mais claustrofóbica.

Primeiro, houve a sua aparente recusa em controlar o Kennedy Center e, mais significativamente, a reviravolta da sua administração em relação ao fundo "anti-armamento" para compensar aqueles que alegam ter sido injustiçados pela administração Biden.

No que diz respeito ao Kennedy Center, Trump respondeu a uma decisão desfavorável de um juiz federal na sexta-feira sobre a presença do seu nome no edifício, sinalizando que deixaria o Congresso assumir o controlo do centro de artes performativas.

Essa é uma atitude muito pouco típica de Trump, se é que alguma vez houve uma. Trata-se de um presidente que muitas vezes governa como se desejasse que os outros ramos do governo federal simplesmente não existissem. No entanto, ali estava ele, a ser refreado pelo poder judicial e a sinalizar que iria simplesmente entregar as rédeas ao poder legislativo.

O exemplo mais significativo de Trump estar encurralado, porém, vem com o fundo "anti-armamento".

Além de outra decisão judicial desfavorável nesse caso, Trump viu os republicanos do Senado manifestarem-se quase em uníssono contra a ideia — de uma forma que poderia ameaçar as suas outras prioridades legislativas. Eles parecem temer que Trump utilize os 1,776 mil milhões de dólares como um fundo secreto sem prestação de contas para recompensar os seus aliados — incluindo os violentos arguidos de 6 de janeiro de 2021 que agrediram a polícia.

A situação faz eco do projeto de salão de baile de Trump na Casa Branca, em relação ao qual os republicanos do Congresso se recusaram a disponibilizar o dinheiro que Trump solicitou para o que consideram um projeto pessoal politicamente problemático.

Trump e aqueles que o rodeiam têm enviado sinais confusos sobre até que ponto abandonaram o fundo "anti-armamento", com o procurador-geral interino Todd Blanche a afirmar que a ideia está morta, mas Trump a parecer menos decidido.

Trump está a agir como se tivesse todo o tempo do mundo para deixar que o seu bloqueio sangre a economia iraniana e force os seus líderes a rastejar até ele para um acordo.

Mas não há dúvida de que o Congresso conteve Trump e limitou as suas opções de uma forma que raramente o fez — tal como aconteceu com os seus poderes de guerra contra o Irão.

Dado que Trump não se comprometeu pessoalmente a abandonar o fundo, fala-se mesmo na possibilidade de o Congresso votar para o impedir de alguma vez o levar por diante. Esse tipo de opção sempre esteve em cima da mesa, claro, mas é uma opção que os republicanos têm relutado em adotar, por receio de inflamar Trump.

Reveses políticos, de Pulte às primárias

A capacidade de manobra política de Trump também está a ser limitada de outras formas.

A escolha feita por Trump na terça-feira do diretor da Agência Federal de Financiamento Imobiliário, Bill Pulte, como diretor interino de inteligência nacional — apesar da sua aparente e total falta de experiência na área — caiu como uma bomba entre os republicanos no Capitólio.

E há rumores de que, devido às ameaças dos democratas, Trump poderá ser forçado a recuar na escolha de Pulte se quiser que o Congresso renove poderes cruciais de espionagem — a Secção 702 da Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISA) — que estão prestes a expirar e já estavam a causar dores de cabeça ao Congresso. (Serão necessários votos democratas para renovar a Secção 702.)

Trump também sofreu um revés significativo nas primárias de terça-feira. Depois de destronar três titulares de alto perfil no Congresso e uma série de senadores estaduais republicanos de Indiana nas recentes primárias, o governante viu o candidato que apoia, o deputado Randy Feenstra, perder as primárias republicanas para governador em Iowa.

E alguns desses titulares derrotados parecem agora ser um problema para Trump no Congresso, agora que não têm campanhas de reeleição com que se preocupar — e podem estar compreensivelmente desiludidos.

Um deles, o deputado Thomas Massie, do Kentucky, continuou a votar contra Trump ao apoiar a resolução sobre os poderes de guerra na quarta-feira. Dois outros, os senadores John Cornyn, do Texas, e Bill Cassidy, da Louisiana, estão a fazer comentários cada vez mais francos, com Cassidy, em particular, a dar a entender que poderá ser um verdadeiro espinho no lado de Trump nos próximos meses.

(Após a sua derrota no mês passado, Cassidy votou de repente a favor de permitir que uma resolução sobre os poderes de guerra prosseguisse no Senado.)

Não há boa saída para a guerra com o Irão

Tudo isto para não falar daquilo que mais está a encurralar Trump: a própria guerra com o Irão.

Nesta altura, simplesmente não parece haver uma boa saída para o presidente dos EUA.

Trump está a agir como se tivesse todo o tempo do mundo para deixar que o seu bloqueio sangre a economia iraniana e force os seus líderes a rastejar até ele para um acordo.

Mas há poucos sinais de que isso esteja a acontecer com a rapidez suficiente para Trump e as suas preocupações políticas internas. Há muitos motivos para duvidar que o Irão concordaria com qualquer coisa que Trump pudesse realmente vender como um bom acordo. E ele já fez tantas vezes "bluff" sobre reiniciar ataques militares em grande escala que Teerão parece já não levar essa ameaça a sério.

"Um cessar-fogo ali é muito diferente de um cessar-fogo noutras partes do mundo", disse Trump aos jornalistas na quarta-feira, enquanto tentava defender as negociações em curso no meio do mais recente troca de tiros. Ele chegou mesmo a sugerir que algum tipo de acordo poderia ser alcançado este fim de semana.

Claro que já sugeriu muitas vezes antes que um acordo estava próximo. E a Câmara dos Representantes aparentemente não acreditou nisso, com aqueles quatro republicanos a empreenderem um dos esforços mais marcantes para restringir Trump até à data.

Se o Senado seguir o exemplo, ele vai realmente ver-se encurralado.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Médio Oriente

Mais Médio Oriente