ANÁLISE || Preços atuais já caíram para menos de 90 dólares por barril, mas os mercados financeiros para contratos futuros antecipam que só se regresse ao nível dos 70 dólares lá para 2031. Estreito de Ormuz deverá abrir sexta, mas demorará dois a seis meses a normalizar o tráfego entre águas minadas
O presidente dos Estados Unidos tinha feito um acordo com o povo americano: a guerra com o Irão trará ganhos de segurança duradouros em troca de dificuldades financeiras temporárias. Está na hora de Trump cumprir a sua parte do acordo.
A previsão é de que um acordo sobre um quadro de negociação será assinado na sexta-feira — acordo que poderá eventualmente levar o Irão a desmantelar o seu programa nuclear —, o próximo passo será fazer com que os preços do petróleo e do gás voltem aos níveis em que se encontravam antes do início da guerra.
Repetidamente, Trump afirmou que os preços da energia irão "cair como uma pedra" assim que a paz for negociada e o Estreito de Ormuz reabrir.
Será uma promessa difícil de cumprir.
O novo "normal"
É fácil acreditar na previsão de Trump de que os preços irão "cair como uma pedra": não parece que o petróleo tenha muito mais para descer.
O "normal" — ou seja, o preço do Brent abaixo dos 70 dólares por barril, como antes da guerra — está a apenas cerca de 15 dólares de distância. Após o anúncio do acordo no domingo, o petróleo caiu abaixo dos 85 dólares e já desceu cerca de 25 dólares em relação ao pico recente atingido há um mês.
Mas o mercado está a contar-nos uma história diferente.
Os contratos de futuros, que se estendem até ao próximo ano e além, mal se alteraram, mesmo com o contrato para o mês mais próximo — o preço a que nos referimos quando falamos de "preços do petróleo" — a cair acentuadamente nas últimas semanas.
Apesar de os preços do petróleo do mês mais próximo terem caído abaixo dos 90 dólares pela primeira vez em meses, o mercado de futuros ainda não aponta para que o petróleo caia abaixo dos 70 dólares até ao final de 2031.
Isso deve-se ao facto de o mercado compreender os extraordinários desafios práticos que a indústria petrolífera está prestes a enfrentar. E também sublinha o problema com o conceito de regresso ao "normal": depende da sua definição.
"Vamos descobrir o que é o novo normal", afirma Dan Pickering, fundador e diretor de investimentos da Pickering Energy Partners. "Mas não vai ser gasolina a 2,85 dólares [o preço do galão nos Estados Unidos antes da guerra]."
Pesadelo logístico
Seria de imaginar que, quando o estreito reabrir — o que está previsto para sexta-feira —, os petroleiros que transportam 200 milhões de barris de petróleo, e que estão presos lá desde o final de fevereiro, partissem a toda a velocidade.
Não é assim tão simples.
O Irão minou o estreito, tornando a travessia possível apenas por duas passagens estreitas através de um corpo de água já notoriamente estreito: uma junto à costa do Irão e a outra ao longo da costa de Omã, no lado oposto do estreito. Isso criará um estrangulamento que impedirá o que, de outra forma, seria um fluxo intenso de tráfego a dirigir-se para a saída.
As embarcações precisam de ser extremamente cuidadosas ao navegar por canais tão restritos. Terão de garantir que mantêm uma distância segura para evitar colisões e encalhes, de acordo com Jakob Larsen, responsável pela segurança da BIMCO, a maior associação de armadores do mundo.
Pode demorar várias semanas a limpar o estreito de minas — um grande e literal obstáculo à reabertura total do tráfego no estreito, acredita Larsen. A Marinha dos EUA dispõe de tecnologia de desminagem, mas terá de passar pelo meticuloso processo de as localizar e desativar, o que levará um tempo considerável.
Uma vez concluído, o tráfego mais normal pelo estreito poderá ser restabelecido, permitindo que navios vazios comecem a regressar às águas para se abastecerem e transportarem o tão procurado petróleo para compradores que se debatem pela procura de crude.
Isso também poderá demorar algum tempo — várias dezenas de navios encontram-se nas proximidades e prontos para carregar mais petróleo, de acordo com Vikas Dwivedi, estratega global de petróleo e gás do Macquarie Group. Esse número é inferior aos cerca de 100 navios que normalmente permanecem no estreito à espera de chamadas para abastecimento. Dwivedi espera que esse número aumente significativamente quando o estreito reabrir, mas poderá demorar 30 dias a colocá-los em posição.
E tudo isto pressupõe que um acordo de paz se mantenha. As tensões têm o hábito de se intensificar na região, e o Irão respondeu ameaçando atacar os navios que tentassem transitar pelo estreito. Isso fez com que as taxas de seguro marítimo disparassem e deixou alguns financiadores e companhias de navegação receosos de desafiar o destino e navegar por águas turbulentas.
"Os armadores não avançarão em número significativo sem um cessar-fogo credível e estável, apoiado por ambos os lados do conflito", declara Larsen.
É por isso que poderá demorar cerca de dois meses a restabelecer o funcionamento normal do Estreito de Ormuz, afirma Niels Rasmussen, analista-chefe do mercado de transporte marítimo da BIMCO.
Essa é uma avaliação "otimista", segundo Kieran Tompkins, economista sénior de matérias-primas da Capital Economics, que prevê que uma recuperação total poderá demorar até seis meses.
Seja qual for o tempo que demore, fazer com que o tráfego marítimo volte aos níveis pré-guerra não é o objetivo final para restabelecer a normalidade no mercado petrolífero. Isso é apenas o começo.
"Não se sabe até se abrir a válvula"
Quando os navios vazios regressarem ao estreito, terão primeiro de retirar petróleo dos inventários terrestres que foram enchidos quase até à capacidade máxima — porque os produtores não tinham outro sítio onde o colocar.
Inventários mais cheios do que o habitual irão atrasar o regresso da produção de petróleo à capacidade total.
"Há tanques que estão 80% cheios — não há muito espaço para reiniciar a produção", afirma Dwivedi.
Os poços de petróleo do Médio Oriente foram em grande parte encerrados durante a guerra. Reiniciar a produção não é como ligar um interruptor. É um processo de engenharia complexo que pode demorar várias semanas.
E devido à natureza dos poços de petróleo, quando os desligamos, nem sempre obtemos 100% do que tínhamos quando os voltamos a ligar.
"Terá o mesmo abastecimento quando reabrir? Não se sabe até se abrir a válvula", afirma Pickering.
Reabastecer os tanques
Mesmo depois de resolvidos esses problemas de curto prazo, será necessário abordar os problemas de longo prazo. Será necessário realizar avaliações dos danos nas refinarias e noutras infraestruturas petrolíferas no Médio Oriente, e será necessário efetuar reparações — algumas das quais poderão demorar anos.
E as reservas mundiais de petróleo de emergência, que foram massivamente esgotadas, terão de ser reabastecidas para dar aos países uma almofada de segurança caso algo semelhante volte a acontecer.
Esse reabastecimento criará uma procura significativa de petróleo — mais de um milhão de barris por dia, até cerca de mil milhões de barris de crude que serão comprados independentemente do preço do petróleo, segundo Pickering. Essa procura global de crude irá, quase certamente, manter um piso elevado para os preços do petróleo e do gás nos próximos dois anos.
O mercado poderá inicialmente ficar com excesso de oferta, e os preços poderão cair temporariamente — mesmo abaixo dos níveis pré-guerra. Mas subirão rapidamente à medida que a procura regressar com força — particularmente devido à pressa em reabastecer as reservas de emergência, prevê Dwivedi.
"Vai ser atingido por uma enorme procura", diz Dwivedi. "É o que se chama de consequências indesejadas, certo?"
