ENTREVISTA || O memorando entre os Estados Unidos e o Irão ainda não é a paz. É um intervalo armado por 60 dias, com Ormuz, o nuclear, Israel, as sanções, a reconstrução e a sobrevivência do regime iraniano por resolver. O embaixador António Monteiro não vê uma vitória da diplomacia pura: “Se este memorando perdurar, será resultado de uma ofensiva militar contra objetivos iranianos que não conseguiu impor plenamente os seus objetivos e, ao mesmo tempo, de uma defesa autónoma do território iraniano que também não permite ao Irão sair vitorioso”. No meio, fica uma certeza: “A diplomacia é talvez mais necessária do que nunca”
A pergunta parece simples, mas não é. Quando se assina uma trégua depois das bombas, quem ganhou tempo? Quem perdeu força? Quem ficou apenas à espera da próxima ronda?
António Monteiro, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, antigo representante permanente de Portugal junto das Nações Unidas e diplomata envolvido na mediação portuguesa dos Acordos de Bicesse, começa por pôr o memorando no lugar certo: “O que temos agora não é um acordo de paz. Temos um acordo de tréguas, de cessar-fogo temporário”. A paz, se vier, terá de sobreviver aos próximos 60 dias.
A memória diplomática leva-o a Angola, não por nostalgia, mas por método. Em Bicesse, recorda, o acordo foi primeiro rubricado, depois testou-se o cessar-fogo, só mais tarde veio a assinatura formal.
Os calendários, na diplomacia, podem ser instrumentos de confiança. Mas aqui o relógio corre sobre uma região inteira. O que está em causa não é apenas o entendimento entre Teerão e Washington: é a segurança de Israel, a navegação no Golfo, o papel dos Houthis, do Hezbollah e do Hamas, a autoridade das Nações Unidas, a fiscalização nuclear, o petróleo, as sanções e os ativos congelados.
E há uma promessa de reconstrução que abre outra pergunta, talvez a mais material de todas: “O primeiro problema é: quem paga?”
O Irão chegou à mesa sob fogo, mas chegou. E isso muda a negociação. Em entrevista à CNN Portugal, António Monteiro não suaviza o regime — chama-lhe “duro, teocrático e tirânico” —, mas reconhece-lhe uma capacidade que muitos terão subestimado: “O Irão foi uma surpresa do ponto de vista da eficácia da sua própria defesa”. Esperava-se uma operação mais rápida, talvez a queda ou a erosão decisiva do poder dos aiatolas. Mas isso não aconteceu. Teerão trouxe para a mesa o peso de “90 milhões, ou mais de 90 milhões de pessoas”, uma capacidade militar maior do que se supunha e um trunfo que não precisa de falar: o Estreito de Ormuz. “A geografia tem sempre uma importância fundamental”.
É em Ormuz que a guerra se torna economia e a economia se torna diplomacia. Uma zona de águas internacionais, fundamental para o comércio global, transformou-se em instrumento de pressão iraniana. António Monteiro não aplaude: observa a eficácia. O Irão “joga com esse trunfo até ao fim” e consegue “uma saída não apenas honrosa, mas uma saída que até lhe pode trazer ganhos”.
Só que a regulação futura do estreito não pode nascer apenas de um entendimento bilateral. “A aceitação universal daquilo que for acordado tem de passar pelas Nações Unidas”, sustenta. Sem isso, qualquer solução será sempre estreita demais para um problema mundial.
Depois há Israel, a palavra que torna qualquer garantia insuficiente. Para os Estados Unidos, o Irão é uma ameaça estratégica. Para Israel, é outra coisa: “A questão vital para Israel é a existência ou não do Estado de Israel”.
Por isso, qualquer compromisso nuclear será lido em Jerusalém com desconfiança. “E qualquer garantia que lhe seja dada não vai neutralizar essa desconfiança.” O memorando fala no fim das operações militares “em todas as frentes”, mas os atores que rodeiam Teerão e Israel não desaparecem por decreto. “O Hezbollah, o Hamas e outros, em princípio, nada neste acordo os obriga a desaparecer.”
A conversa passa ainda pela Ucrânia, para recusar paralelos fáceis. O caso iraniano não oferece um manual para Kiev. A guerra russa, entende o embaixador, deixará Putin com uma Rússia diminuída: “Creio que esta guerra é o fim da Rússia como potência competitiva ao nível dos Estados Unidos”.
Mas também aí a paz será mais difícil do que uma assinatura. Crimeia, Donbass, garantias ou repetição da agressão: tudo ficará em aberto.
No fundo, seja no Golfo ou na Europa, a diplomacia regressa sempre ao mesmo ponto — precisa de segredo, paciência, interlocutores e tempo. Só que agora trabalha sob líderes que preferem o anúncio à construção, a ameaça ao silêncio, o palco à mesa.
O memorando entre os Estados Unidos e o Irão foi assinado eletronicamente, mas o texto conhecido tem 14 pontos e remete muitas das matérias mais difíceis para uma janela de 60 dias. Do ponto de vista diplomático, um bom acordo inicial não deveria resolver logo o essencial?
Pode dizer-se que isso seria o ideal. Mas, na maioria dos acordos a que se chega, há uma fase que tem de garantir a boa-fé daqueles que intervêm na negociação e, muitas vezes, há depois um prazo para a entrada definitiva do acordo em vigor. Portanto, para a execução desse acordo.
Repare, por exemplo, num caso que vivi e que é conhecido: a questão dos Acordos de Bicesse para Angola, que nós mediámos, no quadro da mediação portuguesa. O acordo foi rubricado primeiro, no dia 1 de maio, e depois de se garantir, a 15 de maio, que o cessar-fogo era respeitado, decidiu-se então que a assinatura formal se faria a 31 de maio. Portanto, houve um mês.
Aqui há 60 dias, mas a situação é também muito mais complexa. O que temos agora não é um acordo de paz. Temos um acordo de tréguas, de cessar-fogo temporário. O acordo de paz só virá, de facto, se for assinado dentro de 60 dias, se for formalizado o acordo que agora entrou em vigor.
Ou seja, nestas situações, a diplomacia tenta criar condições para que o essencial se torne negociável, em vez de resolver tudo logo à partida?
É negociar, mas é também dar um prazo e estabelecer alguns indicadores que garantam que há boa-fé de todos os interlocutores na assinatura e no cumprimento do próprio acordo.
Nesta questão, o mais importante não é muitas vezes o acordo em si. Até porque, em todas as situações de conflito, sabe-se à partida que aquilo que se quer é acabar com o conflito. Esse é logo o primeiro ponto. Mas, na realidade, o mais importante é perceber se há um ambiente e uma atitude séria no desejo de se chegar a entendimento.
Isso obriga a seguir alguns indicadores. Não me tranquiliza inteiramente que isto tenha sido feito desta maneira, porque é preciso garantir que todos os interlocutores — e nem são muitos, são essencialmente dois, ainda que haja o aspeto de Israel — têm condições para avançar. No fundo, é entre o Irão e os Estados Unidos, com Israel como elemento que pode influenciar aquilo que se passará. Por isso, este prazo é essencial.
O Irão chega a esta negociação depois de meses de guerra, sanções, bloqueios e pressão militar. Como é que um Estado sob pressão consegue, ainda assim, transformar a sua vulnerabilidade em poder negocial?
Volto a repetir o que já tinha dito: o Irão foi uma surpresa do ponto de vista da eficácia da sua própria defesa. Estava-se à espera de uma operação muito mais rápida e, eventualmente, depois do início da operação, de uma mudança de regime. Ora, isso não aconteceu.
Essa resistência alterou a perceção sobre o poder iraniano?
O Irão provou e utilizou argumentos fundamentais. O primeiro é a importância do seu próprio país: 90 milhões, ou mais de 90 milhões de pessoas, o que aconselha muita prudência em relação a qualquer tipo de guerra terrestre.
Depois, houve sempre uma capacidade militar que ultrapassou aquilo que se suspeitava. Isso também demonstra que o Irão é, de facto, um perigo do ponto de vista militar, porque dispõe de capacidades superiores àquelas que pensávamos que teria.
O Estreito de Ormuz aparece quase como uma espécie de negociador silencioso. Até que ponto, numa negociação internacional, a geografia pode valer tanto ou mais do que a força militar?
A geografia tem sempre uma importância fundamental. Basta ver nas duas guerras mundiais, sobretudo na Segunda Guerra Mundial, a repetição, para a Alemanha, daquilo que já tinha acontecido a Napoleão.
Neste caso há um elemento, para mim, um pouco surpreendente: o Estreito de Ormuz é uma zona de águas internacionais. Portanto, a atitude do Irão põe em causa a liberdade de comércio e aquilo que são direitos globais fundamentais. E, de repente, isso transforma-se num trunfo para o Irão, que joga com esse trunfo até ao fim e consegue uma saída não apenas honrosa, mas uma saída que até lhe pode trazer ganhos.
Isto é notável: um regime de aiatolas, um regime duro, teocrático, tirânico, tem ao mesmo tempo uma flexibilidade surpreendente na utilização de argumentos que, à partida, não seria óbvio que fossem aceites. Mas o que é certo é que consegue.
E consegue porque o Irão continua a ser o peso pesado da região?
Consegue também por outro motivo: nesta situação de conflito, o Irão é o peso pesado naquela região. A atitude e o futuro do Irão implicam também a atitude e o futuro de todos os países da região.
Por isso, penso que se está a negociar com o Irão por etapas. Primeiro esta, no fundo, que é acabar com a guerra; depois tentar entrar em entendimentos não só com outros parceiros árabes, mas sobretudo com Israel, que será sempre o elemento que desconfia destes acordos.
Porque esta questão é vital para Israel. Não é uma questão vital para os Estados Unidos; é para Israel. A sobrevivência do Estado de Israel depende de ultrapassar aquilo que tem sido constantemente marcado pelo Irão: o não reconhecimento do Estado de Israel. Teerão, até agora, não deu nenhum sinal de que mudará essa posição clássica, tradicional, que tem sido um dos elementos do Estado teocrático iraniano desde que se instalou.
Uma das questões que ficam para a frente é a administração do Estreito de Ormuz, envolvendo Omã e outros Estados do Golfo. Depois de uma negociação já difícil entre os Estados Unidos e o Irão, envolver todos esses atores parece um trabalho quase hercúleo para a diplomacia.
É verdade, concordo consigo. É um dos temas que vai estar sempre em cima da mesa e que é importantíssimo. E aí talvez apareça um dos ressurgimentos de uma entidade que tem sido pouco utilizada: as Nações Unidas.
Num futuro acordo, terá sempre de ficar estabelecida uma política de direitos, não apenas para o Estreito de Ormuz, mas para os estreitos que são fundamentais para o comércio internacional. Isso terá de ser negociado. E como? Só nas Nações Unidas é que isso pode acontecer.
Porquê necessariamente nas Nações Unidas?
Pode haver uma decisão unilateral dos Estados Unidos e do Irão a dizer que determinada situação termina. Mas a aceitação universal daquilo que for acordado tem de passar pelas Nações Unidas, que são o único órgão onde isso acontece. Não se pode, de repente, constituir uma empresa ou uma assembleia qualquer, em qualquer lado, para aprovar uma nova lei internacional que seja aceite por todos os países.
As Nações Unidas e a União Europeia acabaram por ter um papel discreto neste memorando. Como explica essa relativa ausência? Comecemos pelas Nações Unidas.
Tenho de dizer que, basicamente, tanto as Nações Unidas como a União Europeia são, por enquanto — e sobretudo no caso das Nações Unidas — organizações intergovernamentais. Quem manda nas organizações são os Estados-membros.
Na União Europeia também é assim, e agora debate-se a questão de saber se se poderá continuar com a ideia da unanimidade. Mas temos de lembrar que a unanimidade é um assunto que tem de ser encarado com cautela. Basta lembrar que conseguimos manter a questão de Timor à tona de água porque, na União Europeia, constituímos sempre um bloco contra o reconhecimento da integração de Timor na Indonésia. Fizemo-lo impedindo ou vetando qualquer tentativa de cooperação da União Europeia com a Indonésia. E mantivemos isso durante muito tempo. Só foi possível porque tínhamos a regra da unanimidade.
Se se passar para a maioria, assuntos que para certos países sejam nacionais e da maior importância poderão ser derrogados pela maioria de outros países. Daí a delicadeza deste tema.
E no caso concreto das Nações Unidas, o bloqueio está no Conselho de Segurança?
Nas Nações Unidas, a parte intergovernamental também é o que conta. E a estrutura das Nações Unidas, com um Conselho de Segurança onde há cinco membros permanentes que mandam, coloca um problema evidente. Temos nos P5 praticamente todos os países profundamente interessados no Irão: não apenas os Estados Unidos, mas também a Rússia, a China, o Reino Unido e a França. Se a vontade destes cinco não é comum, se não chegam a um entendimento, a questão morre ali.
Não há grande alternativa. Fazer tentativas, como aconteceu na Guerra da Coreia, de levar a questão para a Assembleia Geral e conseguir, excecionalmente, uma resolução das Nações Unidas, aconteceu uma única vez, na Guerra da Coreia, e com resultados que não foram brilhantes. Depois não se voltou a repetir exatamente porque não correspondeu àquilo que, na altura, as potências dominantes, com exceção da União Soviética, pensavam que devia ser feito.
A diplomacia tem hoje mais dificuldade em agregar posições? Os principais líderes mundiais, com Donald Trump à cabeça, dificultam o trabalho tradicional dos diplomatas?
A pergunta tem razão de ser e compreendo-a. Mas talvez não seja propriamente dificultar o trabalho dos diplomatas. Talvez seja uma tentativa de substituir aquilo que é a figura do diplomata.
Os diplomatas são negociadores. Quando se sentam à volta de uma mesa, têm de criar entre si um ambiente, primeiro, de tolerância, porque, se nem sequer se entendem a falar, não é possível depois discutir qualquer assunto com seriedade. A diplomacia é isso: diálogo.
É evidente que há muitas vezes um diálogo que é feito, como temos em português a expressão “puxar a brasa à nossa sardinha”. Há uma definição inglesa, muitas vezes citada, segundo a qual a diplomacia é a arte de levar os outros a fazerem as coisas da nossa maneira. Claro que, se isto é diplomacia, também é verdade que, com o uso da força, se desequilibra logo tudo. Já não se trata tanto de uma negociação; trata-se de uma imposição.
A força está a substituir a negociação?
O que estamos a assistir agora é que a parte diplomática tradicional não tem aparecido porque tem sido ofuscada pela condução política dos assuntos. Não é uma questão apenas diplomática, mas política, que é o que acontece com a atual administração americana e também, neste caso, com a iraniana. Porque nós não sabemos nada do que pensam os iranianos. Sabemos apenas aquilo que os aiatolas e o resto do regime decidem admitir.
De novo, temos o problema de uma diplomacia clássica.
E quando Donald Trump usa enviados especiais sem carreira diplomática e, ao mesmo tempo, intervém nas redes sociais durante as negociações? A diplomacia clássica desapareceu com ele?
Mudou, mudou. A diplomacia implica também outra coisa: muitos dos argumentos com que se faz o diálogo procuram surpreender um pouco a parte contrária ou até introduzir elementos positivos naquilo que se está a negociar.
Há uma parte que eu diria que é secreta. A argumentação estabelece-se depois de se definir se se quer realmente um acordo, se se quer um acordo limpo, se se quer um acordo favorável, mas com cedências aqui e ali. Tudo isso é guardado para ser utilizado depois na discussão.
Ora, o que acontece aqui, como referiu, é que, quando se vai para as redes sociais e se colocam nas redes sociais todas as exigências que vão ser feitas para que a negociação tenha êxito, está-se logo a matar o princípio da negociação. Porque isso só será possível de aceitar pelo outro lado se houver uma derrota.
Portanto, esta tentativa de impor e de dizer “isto é o que vamos fazer, este acordo tem de ser aceite e, se não for aceite, daqui a três dias recorremos outra vez à guerra” mostra o fracasso de tudo isso. Quantas vezes o Presidente Trump anunciou que teria destruído tudo o que havia de perigoso no regime teocrático? Já o anunciou dezenas de vezes, com dias e prazos que não se cumprem.
Neste aspeto, nada disto tem a ver com a diplomacia clássica.
Mas a diplomacia torna-se ainda mais necessária?
Claro que a diplomacia é talvez mais necessária do que nunca. Qualquer acordo que haja ali vai implicar, por exemplo, o relacionamento entre todos os países árabes, o que se passa entre eles próprios, o problema de Israel, e depois tudo o que está à volta: outros países, como o Líbano e a Jordânia, que em princípio deveriam estar fora, mas não estão, porque são atravessados por elementos muitas vezes mais radicais ligados ao próprio Irão. É o que acontece com os proxies, que não vão desaparecer.
O Hezbollah, o Hamas e outros, em princípio, nada neste acordo os obriga a desaparecer. E isso justifica esta atitude prudente de Israel, que tem aqui, como disse no princípio, uma questão vital. Talvez seja o único país que tenha ali uma questão vital de sobrevivência.
O memorando fala no fim das operações militares “em todas as frentes”, o que inclui o Líbano e a participação de Israel no conflito. Mas Israel não é parte direta do acordo. Um acordo bilateral entre Washington e Teerão, excluindo Israel, não acaba por condenar o próprio memorando?
A prazo, pode provocar a falência daquilo que pensamos que este memorando possa ajudar a fazer. O facto de Israel não estar e de ser um acordo bilateral entre o Irão e os Estados Unidos, com uma imposição a Israel, vai depender muito da atitude israelita.
Ou Israel acredita que isto é possível e faz ele próprio um acordo específico com os Estados Unidos, que corresponda àquilo que tem sido até agora a posição americana — isto é, defesa da existência do Estado de Israel e auxílio imediato em caso de perigo militar — ou as coisas podem complicar-se.
Mas isso também vai implicar, para Israel, que essa exclusão da elaboração do acordo traga qualquer coisa que os israelitas não tiveram até agora: o medo de ficarem ainda mais isolados. E isso não é bom. Cria um clima de tensão que poderá prejudicar muito a liderança israelita se esta for incapaz de segurar a relação privilegiada com os Estados Unidos, pelo menos aquela que anunciava a toda a hora e que agora não se verifica da mesma maneira.
E como reagirão os outros países da região?
Ao mesmo tempo, veremos a posição de todos os países da região e como se adaptarão à nova ordem que poderá surgir naquela zona. Porque sabemos que uma parte dos países árabes são profundamente contrários ao Irão e esperavam que houvesse uma mudança de regime. Isso não se verificou. Portanto, vão ter de viver, se este entendimento tiver êxito, com um regime de que se queriam ver livres.
Não era apenas Israel que combatia os Houthis. A Arábia Saudita estava até mais envolvida no caso do Iémen do que Israel. E todos os outros países da região continuarão em tensão. Acabou a ideia de que o desenvolvimento desses países os protegia da violência e dos conflitos. Não protegeu. Pelo contrário, agora certamente serão obrigados a pagar para ter uma paz que será sempre incompleta.
O memorando fala de petróleo, de Ormuz, de sanções económicas, de ativos congelados, mas também de um plano de reconstrução e desenvolvimento para o Irão. A reconstrução também faz parte da diplomacia, mas os diplomatas não negoceiam utopias. Quem paga essa reconstrução?
Esse é um dos assuntos que mais me fascinou: a ideia da reconstrução, com números e tudo. O primeiro problema é: quem paga? Quando é que isso vem? Será apenas o levantamento das sanções e dos ativos congelados? Será apenas daí?
Ou isso implicará um consórcio com outros Estados árabes e com Israel? Mas o que é que se vai pagar? Vão pagar-se os danos causados pela invasão ao Irão? Também se vai pagar, por exemplo, a Israel, que também teve danos físicos? E outros países? E o Líbano? E como é que fica a reconstrução da Faixa de Gaza, que já foi anunciada tantas vezes?
E quem controlaria esse dinheiro?
Há aqui uma série de questões em jogo. Quem vai conduzir essa reconstrução? Isto vai ter de ter uma entidade que a gira, uma entidade que defina quem dá, quanto dá, as regras e os princípios segundo os quais esses investimentos entrarão no Irão. E também determinar quem pode ir e quem não pode ir, quais as empresas que podem e não podem ir. Quem é que vai fazer essas regras?
Alguém me dizia ontem que isto também se passou com os americanos no Iraque, embora não fosse exatamente a mesma situação. No Iraque houve uma invasão, uma vitória militar, a queda de um regime, e depois os Estados Unidos criaram aquelas famosas equipas para os investimentos. Na altura, salvo erro, era Paul Bremer quem dirigia essa atividade, essa perspetiva de reconstrução do Iraque através de empresas privadas, obviamente americanas. Mas aquilo também foi um fracasso e não andou. Rapidamente se passou da folia da reconstrução para a realidade de uma reconstrução lenta e cheia de problemas.
Agora, no Iraque, a situação era mais simples: invasão, derrota militar, mudança de regime. Não é o que se passa agora no Irão. O que se promete é que, sem vitória militar e sem mudança de regime iraniano, os Estados Unidos propõem reparar uma invasão numa guerra que, para eles, é justa. A guerra contra os aiatolas era uma guerra justa, dizem. Mas vão pagar?
Levantam-se aqui imensas questões. Francamente, não acredito que o Presidente Trump, que também tem eleições intercalares importantes em novembro, prometa que serão os americanos a pagar. Se disser que os americanos é que vão pagar os 300 mil milhões, desconfio que mesmo os mais ferrenhos apoiantes mudarão a visão política. Os americanos são absolutamente pragmáticos e olham para aquilo que as políticas significam para o seu bolso.
É a velha frase da campanha de Bill Clinton contra Bush pai: “É a economia, estúpido”. É isso que conta.
A questão nuclear continua por resolver. O Irão reafirma que não produzirá nem adquirirá armas nucleares, mas essa é uma fórmula que Teerão já usava há décadas. Diplomaticamente, que diferença há entre uma declaração política e uma garantia suficientemente forte?
Há toda a diferença. E este talvez seja o assunto mais intrincado e mais importante para Israel.
Não esqueçamos o que Israel fez com o Iraque, quando o Iraque chegou mais ou menos ao estádio em que o Irão está neste momento — ou talvez até estivesse um pouco mais avançado. Israel não hesitou. Bombardeou e acabou, aí sim, com uma eficácia tremenda, com o programa nuclear do Iraque. Isso levantou muitos problemas e muitas discussões sobre quem podia e quem não podia agir, mas é certo que Israel não permitiu que o Iraque prosseguisse na aquisição de armas nucleares.
Este acordo deixa talvez como parte mais importante a negociar as garantias que terão de ser dadas para que a gestão do nuclear iraniano se possa fazer de maneira fiscalizada e monitorizada. Não haverá uma proibição que impeça o Irão de avançar para efeitos civis com uma parte do programa nuclear, mas nunca isso se poderá confundir com uma entrada direta na obtenção de armas nucleares.
Isto é extremamente complicado. Vai implicar monitorização e fiscalização permanentes por entidades credíveis. Mais uma vez, as Nações Unidas têm de entrar, porque a Agência Internacional de Energia Atómica tem de ser chamada a desempenhar aqui um papel, e vai tê-lo. Mas, para Israel, haverá sempre uma enorme desconfiança de que aquilo não é verdade.
A Agência Internacional de Energia Atómica chega para tranquilizar?
Israel estará sempre desconfiado. Qualquer garantia que lhe seja dada não vai neutralizar essa desconfiança, seja qual for o governo israelita. Não é apenas uma questão de um governo mais ou menos severo, mais ou menos favorável a negociações. Israel não vai mudar, porque a questão vital para Israel é a existência ou não do Estado de Israel.
Por isso, será um problema enorme. Vamos assistir a uma negociação longa nesse ponto. Penso que será sempre o mais difícil e poderá provocar exigências de outros países árabes da região. Poderá abrir portas, porque aqui entramos no problema da proliferação de energia atómica. Se vamos permitir ao Irão desenvolver, embora com todos aqueles condicionalismos de segurança, o programa que já tem, então veremos outros países a querer fazer o mesmo.
Os mediadores e os lugares da negociação — Paquistão, Qatar, Omã, agora a Suíça — dizem alguma coisa sobre a diplomacia contemporânea? O centro da negociação mundial está hoje menos ocidentalizado do que há 20 ou 30 anos?
Está, com certeza. Não é apenas, como disse, a necessidade que temos de manter as Nações Unidas — e creio que continuam a ser indispensáveis — como centro de uma negociação global, a única organização onde todos os países do mundo estão sentados e têm uma voz, mesmo que essa voz possa ser mais ou menos ativa.
Terá de haver aí um ponto de encontro entre os vários palcos onde se passará e discutirá uma diplomacia universal fragmentada.
Que outros palcos contam hoje mais?
Temos de reconhecer que um dos grandes polos da diplomacia, em todo o eixo asiático, é a China. E há todos os países daquela região, a gestão das ilhas do Pacífico, o futuro do relacionamento entre a China e o Japão, as Filipinas, a Indonésia, que também sobe no plano internacional e no plano da influência diplomática.
Também não podemos esquecer que há poder atómico em países como o Paquistão e a Índia. Não se fala disso, mas é uma realidade. E a ideia de que os países querem poder atómico militar para se defenderem não é verdadeira. Se decidirem usar armas atómicas, estarão a abrir uma caixa de Pandora. Seja para defesa, seja para ataque, o poder nuclear pode rapidamente avançar e acabar com a humanidade.
A diplomacia não tem também o caminho facilitado quando a coerção, e neste caso a coerção nuclear, já produziu efeitos? Ter à mesa países como o Paquistão e a Índia, gigantes nucleares, não acelera o trabalho diplomático?
De um ponto de vista prático, pode dizer-se que sim. Mas não do ponto de vista da realidade, nem da moralidade.
O único país que até agora lançou uma bomba atómica foram os Estados Unidos. Também quiseram sempre dizer que não era propriamente para se defenderem, mas para poupar a vida de soldados americanos numa invasão do Japão. Para eles, foi mais simples lançar a bomba sobre Hiroshima e Nagasaki e acabar com a guerra imediatamente perante aquela superioridade esmagadora que impuseram militarmente.
E o que é que isso deu? Durante anos, andámos todos, inclusive na própria América, a bater no peito pelo erro que foi a utilização da bomba atómica e pela desgraça que representou para a humanidade aquilo que se passou no Japão.
Essa coerção acabou a guerra, mas não resolveu a paz?
Não acrescentou grande coisa. Acabou a guerra mais rapidamente, de facto, permitiu eventualmente aos americanos pouparem vidas, mas seguiram-se anos em que o Japão viveu miseravelmente, praticamente sob comando militar americano. Os aliados mais importantes eram os americanos e eram eles que comandavam. Durante esses anos de subjugação, o Japão não conseguiu desenvolver-se, a não ser quando se libertou disso e quando os americanos perceberam que tinham de mudar de política, como se veria depois na Guerra da Coreia.
Na Coreia, os interesses eram muito diferentes entre China, Japão, a própria União Soviética e os Estados Unidos. Acabámos com uma guerra que nem foi ganha nem perdida, como muitas vezes acontece. E, como não foi ganha nem perdida, deveria passar-se à diplomacia. Sentaram-se, fizeram um acordo de tréguas, safou-se a situação, mas isso não significou a paz. Ainda hoje temos a Coreia do Norte e a Coreia do Sul nesta tensão política que se mantém.
Por isso digo que este é um palco, mas teremos outros. África também terá o seu plano, com a afirmação cada vez mais eficaz da União Africana — veremos se serão capazes. Haverá também outras partes do globo, como a América Latina, a perceberem que cada vez mais terão de viver por si e não apenas como uma espécie de esfera americana. E a própria Europa terá a sua política.
Estes vários palcos, em que a diplomacia será necessária para a conjugação de interesses e para responder a desafios, terão depois de ter um areópago global. Esse areópago continua a ser as Nações Unidas. As Nações Unidas são o mais parecido que temos com isso. Vimos que, até agora, as tentativas de minimizar as Nações Unidas, como a criação do Conselho da Paz, não servem para nada. Nem sequer chegou a reunir-se.
Se este memorando perdurar, poderá ser apresentado como prova de que a diplomacia ainda consegue travar guerras?
Penso sinceramente que este não será esse caso. Se este memorando perdurar, será resultado de uma ofensiva militar contra objetivos iranianos que não conseguiu impor plenamente os seus objetivos e, ao mesmo tempo, de uma defesa autónoma do território iraniano que também não permite ao Irão sair vitorioso.
Há outro ponto que acho fundamental e que está a ser pouco equacionado: no caso do Irão, ao caminhar para as negociações, sobretudo na parte nuclear, que será talvez a parte mais delicada e difícil de negociar, também temos de ver o que se passa com a população iraniana.
O que pode acontecer? Poderão fazer manifestações? Poderão, como já fizeram no passado, pedir a mudança do regime? Poderá, sem acontecer o mesmo que aconteceu no passado, uma rapariga tirar o hijab da cabeça sem lhe cortarem o pescoço?
O regime não mudou. Portanto, há a questão da tranquilidade interna. E, possivelmente, nos Estados Unidos também poderá haver uma mudança de atitude. Esses fatores poderão ser mais eficazes e mais capazes de provocar ou garantir o êxito deste memorando do que propriamente a forma diplomática como ele foi inscrito — se foi com caneta ou esferográfica, não sei.
E este memorando dá-nos alguma pista sobre o futuro da guerra na Ucrânia?
Não nos dá, porque na Ucrânia temos outro problema. É completamente diferente.
A guerra da Ucrânia custará a Putin, não tenho dúvidas, o fim daquilo que poderia ter sido um reinado positivo, uma espécie de novo czar republicano do país, e sobretudo a transformação da Rússia numa subpotência. Será o contrário do que ele imaginava.
A Rússia vai ter muitas consequências desta guerra. A principal é a sua incapacidade de ganhar uma guerra injusta. Putin sabe que isto é uma guerra de prejuízo, uma guerra de afirmação que não está a resultar, e que a Ucrânia já pôs em xeque.
Por isso, penso que isto pode representar uma mudança muito grande em termos geopolíticos. A Rússia será cada vez mais apenas uma potência pelo seu poder nuclear. Mas, se tivermos o poder nuclear controlado ao nível mundial, o que resta? A economia? A demografia? A capacidade de influência noutros países? Já nem sequer, ideologicamente, pode vender alguma coisa como vendia antigamente a União Soviética, com a ideologia marxista-leninista ou estalinista.
Creio que esta guerra é o fim da Rússia como potência competitiva ao nível dos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, representa para a Ucrânia uma afirmação de vontade de independência que também é normal num país que esteve tantos anos sob a União Soviética e que tinha tantas afinidades com a Rússia. Como é que esta identidade nacional se formou? Temos também de pensar, na Europa, que isto é uma grande afirmação de identidade nacional. Veremos como isso também se refletirá na Europa.
O caminho diplomático na Ucrânia parece ainda mais tortuoso e longo do que no caso iraniano. Se uma das partes não quer negociar, o caminho dos diplomatas fica muito mais difícil.
É evidente, tem toda a razão. Mesmo esta vitória apresentada por Macron no G7 é um pouco puxada pelos cabelos. É evidente que houve ali decisões muito importantes sobre a Ucrânia, houve um conforto muito grande em relação a quem está a fazer uma luta contra a invasão absolutamente admirável, mas não podemos esquecer que talvez o aspeto mais positivo tenha sido conseguir que Trump pusesse a sua assinatura ali e que, por uma vez, tivesse sido movido por esta pressão combinada europeia de apoio à Ucrânia.
E que paz seria possível depois da guerra?
Acredito que este caso será ainda mais complicado. Uma vez terminada a guerra, mesmo que haja um período de paz longo, as questões que se vão levantar continuarão. O que acontece com a Crimeia? Com o Donbass? Nada disso estará resolvido. Voltará a ser negociado, como foi negociado em 2014, com os resultados que conhecemos, nos Acordos de Minsk.
Vamos agora modernizar Minsk? Não é possível. Terá de ser criado outro tipo de paz que garanta, sobretudo, que a agressão não voltará a repetir-se. Isso será mais um fator de diminuição da capacidade, ou do potencial, a que a Rússia aspira. A própria Rússia ficará ainda mais condicionada.
