Quando a administração Obama fechou um acordo nuclear com o Irão, em 2015, que incluía o acesso a 50 mil milhões de dólares do próprio Irão que tinham sido congelados em bancos estrangeiros devido a sanções, Donald Trump não se escusou a criticar ferozmente esse acordo - referindo-se várias vezes aos "150 mil milhões de dólares" que os americanos teriam dado "em dinheiro vivo" ao Irão. Agora, parece ter mudado de ideias
O incipiente acordo do presidente Donald Trump com o Irão está repleto de problemas, que estão a ser apontados por muitos conservadores, mas o principal poderá ser a questão do fluxo de dinheiro para Teerão.
Numa entrevista à CBS News na manhã de segunda-feira, o vice-presidente JD Vance pareceu confirmar tacitamente a premissa de que o Irão poderia ter "acesso" a um fundo de reconstrução no valor de até 300 mil milhões de dólares (cerca de 259 mil milhões de euros).
Desde essa entrevista, o governo tem-se esforçado para esclarecer a situação, salientando que esse dinheiro não viria dos contribuintes americanos. Em vez disso, seria dinheiro de outros países do Golfo, que só estaria disponível se o Irão cumprisse o acordo de paz.
Vance disse na noite de segunda-feira à Fox News que "convidaríamos outros países — não nós, mas outros países — a investir no Irão". Reiterou-o na terça-feira, dizendo a Megyn Kelly que os EUA não permitiriam que os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, "investissem no Irão, a menos que os iranianos mudassem o seu comportamento".
É justo.
Só que estas são nuances que os republicanos — e Trump em particular — já ignoraram ou até criticaram duramente no passado.
E isto quando o valor em dólares era significativamente inferior a 300 mil milhões de dólares.
Quando a administração Obama e outros países fecharam um acordo nuclear com o Irão, em 2015, o acordo incluía o acesso do Irão a milhares de milhões de dólares. Neste caso, não se tratava de dinheiro de outros países, mas sim de bens do próprio Irão que tinham sido congelados em bancos estrangeiros devido a sanções. As estimativas apontavam geralmente para um valor de cerca de 50 mil milhões de dólares (43 mil milhões de euros).
Mas esta nuance esteve quase sempre ausente da retórica de Trump. Disse que a concessão equivalia a proporcionar ao principal patrocinador do terrorismo no mundo uma bonança financeira, chegando mesmo a afirmar falsamente que se tratava de "dinheiro vivo". Classificou a concessão como impensável e um sinal da fraqueza e da falta de capacidade negocial dos líderes americanos.
Estes comentários podem virar-se contra ele hoje.
“O Irão receberá uma quantia inesperada de 150 mil milhões de dólares (129 mil milhões de euros), que sem dúvida financiará o terrorismo em todo o mundo”, escreveu num artigo de opinião publicado no USA Today em setembro de 2015. Trump citava frequentemente o valor inflacionado de 150 mil milhões de dólares.
Nesse mesmo mês, em Oklahoma City, afirmou: “Estamos a dar-lhes 150 mil milhões de dólares para criar terror em todo o mundo”.
Num debate presidencial republicano em Dezembro de 2015, Trump classificou o acordo como “horrível, repugnante e absolutamente incompetente com o Irão, no qual recebem 150 mil milhões de dólares”, acrescentando: “São uma nação terrorista”.
“Simplesmente não compreendo como é que pudemos fazer um acordo em que damos 150 mil milhões de dólares a uma nação terrorista”, disse no mês seguinte, em Iowa City.
As situações não são completamente paralelas, dado que os ativos iranianos descongelados não são o mesmo que dinheiro de outros países. Mas ambas envolvem dinheiro que não vem dos contribuintes americanos, mas que está subitamente a ser disponibilizado ao Irão como incentivo num acordo. Em 2015, os republicanos argumentavam frequentemente que este dinheiro era "fungível" (que significa intercambiável) — ou seja, que mesmo que os fundos não pudessem ser utilizados diretamente para o terrorismo, poderiam ser utilizados para substituir dinheiro que poderia ser desviado para fins terroristas.
Trump retomou este argumento num momento de tensão com o Irão no final do seu primeiro mandato e durante a sua fracassada campanha de reeleição em 2020.
"Então pagaram 150 mil milhões de dólares — 150 mil milhões, pensem nisso", disse num evento na Casa Branca em setembro de 2019. "E como é que se pode fazer — como é que se poderia fazer uma coisa destas? Eles pagaram todo este dinheiro em espécie."
(Mais uma vez, os EUA não pagaram o dinheiro em numerário, e não foram 150 mil milhões de dólares.)
Acrescentou, após ordenar o assassinato do comandante iraniano Qasem Soleimani em janeiro de 2020, que “a administração Obama fortaleceu e encorajou o regime iraniano. Deram ao Irão 150 mil milhões de dólares, incluindo 1,7 mil milhões de dólares em dinheiro vivo. Conseguem imaginar?”
(Os 1,7 mil milhões de dólares - 1,5 mil milhões de euros - referem-se a um acordo assinado sobre 400 milhões de dólares em fundos iranianos que estavam congelados desde 1979.)
“O acordo nuclear com o Irão, assinado pelo presidente Obama, deu-lhes 150 mil milhões de dólares, e foi aí que começou o verdadeiro terror”, acrescentou Trump no dia seguinte, numa entrevista à Fox News.
E, no final da campanha de 2020, Trump previu repetidamente que, se Joe Biden ganhasse as eleições, seriam assinados acordos semelhantes. “Se Biden ganhar, dar-lhes-ão mais 150 mil milhões de dólares, como já fizeram”, disse Trump em agosto de 2020 em Yuma, no Arizona. “O negócio mais estúpido que já vi.”
“O Irão fará outro acordo louco, dando-lhes 150 mil milhões de dólares ou 1,8 mil milhões de dólares em dinheiro vivo”, disse em outubro de 2020 em Tampa.
Mesmo depois de perder as eleições de 2020, durante a campanha para os candidatos republicanos ao Senado na Geórgia, Trump alertou para uma repetição. “Acho que querem começar tudo de novo. Dá para acreditar?”, disse Trump em Valdosta, na Geórgia. “Será que vão dar 150 mil milhões de dólares? Mas não, vão dar 250 mil milhões.”
Agora, o próprio vice-presidente de Trump sugeriu que o Irão poderia ter acesso a um fundo com um valor ainda mais elevado.
