Os especialistas concordam que o bloqueio vai ter consequências económicas no Irão, mas isso não significa necessariamente uma vitória na guerra. Para o Irão, não se trata de sustentabilidade económica - trata-se da sobrevivência do regime
"É uma batalha de vontades para ver quem é que aguenta mais" - é com estas palavras que Manuel Serrano, especialista em assuntos internacionais, descreve a "batalha" que os EUA e o Irão estão neste momento a travar no Estreito de Ormuz.
Depois de o Irão fechar o estreito à passagem de quase todos os navios, com exceção dos seus e de alguns poucos aliados, a 13 de Abril os americanos implementaram o seu próprio bloqueio, com o objetivo de interromper quase todo o comércio marítimo de Teerão. Donald Trump esperava assim sufocar a economia do Irão e forçar os líderes do país a reabrirem o estreito e a aceitarem os termos de rendição de Washington. Duas semanas depois, nada mudou.
"O bloqueio é um golpe muito sério para o regime. Lembramo-nos bem da brutal repressão aos protestos de janeiro, que se deviam muito à crise económica que o país já enfrentava. O bloqueio só vem piorar a situação económica, que já era má. E não podemos esquecer que muitas infraestruturas económicas também foram destruídas ou danificadas pelos ataques", explica Manuel Serrano à CNN Portugal. Na sua perspetiva, este conflito "evoluiu para uma guerra económica", "que não se pode ganhar no campo de batalha".
No entanto, alerta para o perigo de olharmos para o Irão esquecendo-nos que não é uma democracia. "O Irão está muito habituado a este tipo de situação e tem uma economia de sobrevivência", diz. "É uma economia de sofrimento. Os líderes iranianos estão disponíveis para passar os custos desta crise para a sociedade. Isto é uma ditadura, os líderes não têm de responder perante a sociedade e não têm problemas em que a maior parte da população viva com dificuldades." Para o Irão, não se trata de sustentabilidade económica - trata-se da sobrevivência do regime.
"É muito naïf pensar que um regime destes, que foi pensado para sobreviver, não se preparou para isto, e que um bloqueio de umas semanas vai fazê-los abdicar mais rapidamente", defende o comentador da CNN Portugal, antecipando que a resolução do conflito poderá ser mais demorada do que Trump previu. "A lógica do bloqueio exige um esforço cumulativo de paciência e sabemos como Donald Trump tem pouca paciência." Portanto, em vez de perguntarmos se o Irão vai aguentar, se calhar, devemos perguntar-nos se o presidente americano vai aguentar muito.
"O Irão fica sem uma fonte de financiamento importante"
Na opinião de Filipe Grilo, “o bloqueio veio tarde de mais”. “Se os EUA quisessem fazer algo mais sofisticado, em vez de um ataque militar, teriam feito o bloqueio mais cedo", argumenta. "A fragilidade do Irão é que depende muito do dinheiro que vem do exterior. O bloqueio ataca este ponto crítico", diz o professor da Porto Business School à CNN Portugal.
O estreito representa mais de 90% do comércio anual do Irão, avaliado em 109,7 mil milhões de dólares.
O petróleo e o gás a representam 80% das receitas de exportação e o Irão exporta aproximadamente 1,5 milhões de barris por dia, gerando cerca de 139 milhões de dólares diários, com base nas projeções de preços em tempo de guerra.
A perda desta fonte de rendimento é agravada pela redução das exportações petroquímicas (avaliadas em cerca de 54 milhões de dólares por dia) e de bens não petrolíferos (aproximadamente 88 milhões de dólares em remessas diárias), para os quais também não existem alternativas viáveis por via terrestre.
"O Irão fica sem uma fonte de financiamento importante, e isto afeta não só o Estado como as empresas iranianas. É extremamente grave. Uma grande parte do dinheiro que gera a economia iraniana vem do petróleo. Se eles não conseguem vender o petróleo, a economia vai-se ressentir", conclui Filipe Grilo. E vai afetar a economia em todos os seus níveis. "Há salários que não podem ser pagos, os preços vão aumentar, as pessoas vão ficar em dificuldades. E isso pode gerar alguma revolta dentro do Irão."
O professor considera que este bloqueio será muito mais eficaz do que as sanções económicas aplicadas até aqui. “Esta é uma sanção física. Está-se a evitar fisicamente a saída do petróleo. E isso é muito mais difícil de contornar, pelo menos no curto prazo”, diz. “Claro que o Irão poderá construir infraestruturas para escoar o petróleo por terra, mas isso vai levar algum tempo, será mais caro e não será tão eficaz.”
Neste momento, as infraestruturas fora do estreito não são uma solução. O terminal de Jask opera muito abaixo da sua capacidade prevista, com uma movimentação efetiva estimada em cerca de 70.000 barris por dia. O porto de Chabahar e as instalações do Mar Cáspio movimentam apenas uma fração dos volumes que passam pelos portos do Golfo Pérsico. Em conjunto, estas rotas poderiam substituir menos de 10% dos volumes atuais.
Se não conseguir escoar o petróleo, o Irão terá de fechar alguns dos seus poços?
Corina Lozovan, especialista em ciência política e relações internacionais, concorda que o bloqueio terá consequências económicas dramáticas para o Irão: "Neste momento a economia iraniana está realmente a sofrer porque Donald Trump foi à jugular do Irão, bloqueando os seus portos, ou, pelo menos, tentando fazer um bloqueio. E é verdade, o Irão já está habituado a viver com essas sanções durante tanto tempo, mas o facto é que esta pressão económica nunca foi tão forte", sublinhou na antena da CNN Portugal. "E, por outro lado, neste momento faltam alguns dias para que o Irão vá esgotar o seu armazenamento de petróleo na ilha de Kharg, e no momento em que isso acontecer os poços têm de fechar e sofrem danos irreversíveis. Pode ter um impacto permanente, que os iranianos também não querem."
É que, para além da perda imediata de receitas, o bloqueio cria um problema de armazenamento do crude. De acordo com alguns especialistas, o Irão possui aproximadamente 50 a 55 milhões de barris de capacidade de armazenamento de petróleo em terra, dos quais cerca de 60% já estão ocupados.Com apenas cerca de 20 milhões de barris de capacidade de armazenamento terrestre disponível e uma produção excedentária de 1,5 milhões de barris por dia, os tanques do país irão ficar cheios em apenas 13 dias, dizem alguns analistas.
No entanto, estimativas recentes sugerem que o país possui cerca de 90 milhões de barris de capacidade de armazenamento de petróleo, o suficiente para pelo menos dois meses de produção, antes de ter de realizar cortes na produção.
Uma vez cheios os tanques de armazenamento, o Irão não terá outra opção senão interromper a extração de petróleo de alguns dos seus campos mais antigos. Isto pode parecer temporário, mas pode causar danos duradouros no subsolo. Quando a produção pára, a água que se acumula naturalmente abaixo do petróleo pode subir para o interior do poço - um problema conhecido como “cone de água”. Quando isto acontece, torna-se muito mais difícil, por vezes impossível, voltar a extrair petróleo. O resultado pode ser uma perda permanente de produção. No caso do Irão, isto poderá eliminar até 500 mil barris por dia da capacidade de produção futura - o equivalente a cerca de 15 mil milhões de dólares de receitas perdidas a cada ano, que não poderão ser recuperadas.
Desvalorização da moeda e inflação galopante: os riscos para a economia interna
A economia iraniana já tinha sofrido uma série de golpes devido ao regime de sanções internacionais que se arrastava há anos. A situação agravou-se em 2025. A análise dos relatórios alfandegários mostra que, só na primavera de 2025, o valor das exportações não petrolíferas caiu 14,4%, enquanto o volume das exportações petroquímicas caiu quase 30%.
O economista Filipe Grilo recorda que "o Irão já vinha de uma recessão no último ano e os últimos dados registam uma inflação de 50%". No final de 2025 "houve uma desvalorização muito séria da moeda". Num ano, a moeda iraniana perdeu 69% do valor face ao dólar. As poupanças perderam valor, os alimentos e os medicamentos eram escassos e inacessíveis, e os cortes no fornecimento de água e energia tornaram-se cada vez mais frequentes.
"Quando isto acontece, tudo o que é produto estrangeiro fica muito caro e o custo de vida tornou-se insuportável para a população, o que motivou muitos protestos", lembra Filipe Grilo. O regime matou milhares de manifestantes que saíram à rua no início deste ano para protestar contra a crise económica.
No âmbito interno, o bloqueio está a empurrar uma economia já de si frágil para uma hiperinflação. O Irão recebe diariamente cerca de 159 milhões de dólares em mercadorias, incluindo insumos industriais, maquinaria e alimentos. A interrupção destes fluxos poderá levar a uma escassez e a um agravamento do aumento do preço de bens básicos.
Com o rial a cair a pique para 1,3 milhões por dólar e a inflação alimentar a atingir os 105% em fevereiro de 2026, a perda total de divisas estrangeiras deixa o regime com poucas opções.
Quanto tempo poderá demorar a destruir a economia do Irão?
Por outro lado, Filipe Grilo lembra que "o Irão se preparou para esta guerra e que não só recebeu muito dinheiro antes do bloqueio se concretizar como continuará ainda a receber dinheiro do petróleo que já foi escoado, dos navios que entretanto conseguiram passar o estreito. “Demorará ainda algum tempo até que o Irão sinta os efeitos do bloqueio. Quanto? Não sabemos”, diz.
Pedro Costa Mendes, especialista em direito internacional, também que acredita que o bloqueio do Estreito de Ormuz pode ser "o caminho para a vitória americana", mas avisa que essa vitória ainda pode demorar.
"Primeiro tenta-se a diplomacia e a diplomacia falhou. Depois vem a guerra militar e, por fim, a parte económica, com vista a amarfanhar e tomar conta do Irão e não deixar nenhum tipo de escapatória, a não ser depois chegar a um acordo nas conversações que vêm a seguir", explicou o especialista na CNN Portugal: "O que se está a fazer é cortar a linha de vida do Irão, precisamente com o bloqueio do Estreito de Ormuz, ou seja, o impedimento da comercialização do petróleo iraniano, que é o que canaliza divisas estrangeiras para a economia iraniana e para pagar o seu próprio aparelho militar. Esses fundos deixam de entrar." Este fator, aliado à deterioração das relações com os países vizinhos e habituais aliados e ao agravamento da situação da economia interna vai, certamente, colocar o país sob um enorme stress. "A inflação está a disparar para níveis nunca vistos, as exportações de outro tipo - militares, por exemplo -, que eram outra fonte divisas, também estão muito limitadas".
No entanto, isto não significa que o Irão vá ceder nas negociações com os EUA. "O Irão é um país muito grande, é uma potência económica da região, e não é em dois meses que se consegue destruir economicamente o país", avisa Pedro Costa Mendes.
Um colapso económico pode não significar um colapso político
Resta então perceber se este bloqueio, que terá consequências inevitáveis na economia do Irão, irá ou não determinar o futuro da guerra com os EUA. Jennifer Kavanagh, especialista em política de defesa dos EUA, considera que "é pouco provável" que o bloqueio funcione da forma que Trump espera. "Trump quer uma vitória rápida e decisiva, algo que um bloqueio não pode proporcionar. Um bloqueio pode impor custos à economia e à população do Irão, mas não irá desferir o golpe final que a administração Trump procura", escreveu há dias no The New York Times.
"Os bloqueios são concebidos para funcionar lentamente, com a pressão a acumular-se ao longo do tempo", explica Kavanagh, lembrando outras situações em que esta estratégia foi utilizada, como com Cuba e Venezuela. "O Irão pode revelar-se ainda mais resiliente. O bloqueio reduziu as receitas petrolíferas do país para uma fração dos níveis anteriores à guerra, mas é provável que demore algum tempo até que as consequências se tornem insustentáveis para o regime iraniano. A curto prazo, Teerão continuará a receber receitas petrolíferas provenientes de carregamentos que partiram dos seus portos há semanas, e pelo menos 34 petroleiros com ligações ao Irão parecem ter conseguido contornar o bloqueio. Estas exportações, bem como quaisquer outras bem-sucedidas no futuro, poderão ser vendidas a preços mais elevados, que poderão continuar a subir à medida que a guerra se prolonga."
"Teerão possui ainda reservas de alimentos e outros bens essenciais, bem como rotas comerciais terrestres que podem ser utilizadas, se necessário, para a importação de algumas commodities e até para a exportação de parte do petróleo", diz a especialista, concluindo, tal como Manuel Serrano: "É provável que o Irão consiga suportar o bloqueio americano durante meses sem enfrentar um colapso económico. Mesmo assim, os seus líderes podem optar por continuar a lutar em vez de aceitar os termos americanos."
Enfraquecer o regime do Irão não significa necessariamente derrubá-lo. Um colapso total poderá gerar ainda mais instabilidade, como ocorreu em países como Síria e Afeganistão.
"Numa disputa de vontades, Teerão tem a vantagem e uma maior tolerância à dor", escreve Kavanagh. "Com a sua sobrevivência em jogo, os líderes iranianos podem dar-se ao luxo de ser pacientes."