Minas, uma "ideia precursora" e perceções: como se fecha militarmente uma das rotas mais importantes do mundo

4 mar, 07:00
Marinha do Irão (Getty)

Apesar de ser um dos métodos com maior eficácia na interdição de uma determinada porção de água

os processos de bombardeamentos

com a intenção que procedam a uma volta de 180º e

 

Os especialistas militares da CNN Portugal, o tenente-general Rafael Martins e o major-general Agostinho Costa, explicam como pode estar o Irão a bloquear a travessia do Estreito de Ormuz. Entre minagem, lanchas rápidas e artilharia camuflada antinavio, a perceção, o medo e o risco podem estar mesmo a ser as melhores armas iranianas

Pela primeira vez na história, o Estreito de Ormuz parece ter sido efetivamente fechado. Os dados do Marine Traffic, site especializado na monitorização do tráfego marítimo, mostram uma queda abrupta no número de cargueiros e petroleiros que atravessam os 53,5 quilómetros de mar que separam o Irão dos Emirados Árabes Unidos e de Omã. As únicas embarcações que continuam a arriscar a travessia tendem a ter quase inevitavelmente bandeira iraniana, mas exalta-se a dúvida: como se fecha militarmente uma travessia marítima? E como podem EUA e Israel desenlaçar este corte numa das principais rota marítimas mercantes do planeta?

Rastreamento do tráfego de cargueiros e petroleiros no Estreito de Ormuz às 11:00 desta terça-feira (Fonte: Marine Traffic)

Em Ormuz, não existe uma cancela ou um portão que bloqueie o espaço entre a margem iraniana e a margem de Omã, pelo que minar as águas tornar-se-ia um problema a longo prazo quando o fluxo de navios fosse restabelecido e prejudicaria também as exportações iranianas, portanto, resta criar a perceção de que qualquer embarcação que se aproxime será um alvo passível de ser atacado. 

Do ponto de vista militar, explica o tenente-general Rafael Martins, "a minagem é uma das formas mais eficazes de fechar o estreito". Mas esta estratégia acarreta contratempos para o próprio Irão enquanto exportador de petróleo, apesar de, na análise do especialista militar, os petroleiros iranianos poderem estar a circular por pequenas rotas.

"Neste momento, aquilo que é a estratégia do Irão é a estratégia do tudo ou nada. Não é por acaso que estão capazes de disparar sobre cidades, embaixadas, refinarias e sobre os sistemas de produção de gás no Catar. Estão a disparar para todo lado", sublinha Rafael Martins, realçando que em todo o caso "é sempre um perigo enorme navegar em águas que estão minadas".

O Estreito de Ormuz é o canal, no Mar Arábico, que separa Omã e os Emirados Árabes Unidos do Irão, bem como o Golfo Pérsico do Golfo de Omã (Getty)

Ainda assim, alerta o tenente-general, a Guarda Revolucionária do Irão tem à disposição, para lá de uma variedade substancial de minas dos mais variados tipo, artilharia antinavio camuflada na margem iraniana e ainda um conjunto vasto de pequenas embarcações de difícil interceção e com capacidade de atacar os navios que arrisquem a travessia. "Uma panóplia significativa de instrumentos que constituem uma ameaça séria à navegação", resume.

Defesa marítima iraniana é a "ideia percursora" da tática ucraniana no Mar Negro

Para o major-general Agostinho Costa, o fecho iraniano foi feito de "forma seletiva", possibilitando a passagem dos petroleiros e cargueiros iranianos, e está assente numa "lógica de enxame de pequenas embarcações armadas" que o Irão tem em grande número. O especialista militar da CNN Portugal classifica esta estratégia de longa data iraniana como a "ideia percursora" do método de "controlo dos mares" que temos visto a Ucrânia aplicar no Mar Negro, onde as pequenas lanchas deram lugar a drones que são igualmente difíceis de detetar, rápidos e pouco dispendiosos.

"Na altura as pessoas achavam esta metodologia um bocado ridícula, mas é realmente fácil para os norte-americanos destruir a marinha iraniana quando estamos a falar de embarcações grandes e já o fizeram. Agora, quando se fala de lanchas rápidas, pequenas embarcações armadas e equipadas com mísseis, aí o desafio é muito maior. São difíceis de localizar através de satélites, são muito rápidas, é a mesma lógica que a Ucrânia utiliza com os drones. Os drones, na prática, são lanchas rápidas sem piloto", compara Agostinho Costa.

Estas pequenas embarcações, explicam ambos os especialistas, são similares às lanchas rápidas utilizadas pela GNR, Polícia Marítima ou até por narcotraficantes. A diferença mais significativa é que as embarcações do Irão estão equipadas com mísseis capazes de provocar danos consideráveis em navios de grande porte.

Militar da Marinha do Irão numa lancha armada no Golfo Pérsico (Getty)

O propósito iraniano: estrangular a economia e "pressão internacional"

Rafael Martins acredita que o objetivo primário é estimular "pressão internacional", sobretudo económica, de modo a que EUA e Israel sejam forçados pelos seus aliados a aliviar os ataques. "É uma tática que colherá alguns efeitos, mas não vai colher efeitos determinantes para além do tal impacto no comércio mundial e na economia", aponta.

Em caso de minagem, o tenente-general lembra que EUA e Reino Unido têm várias embarcações de deteção de engenhos marítimos explosivos e desminagem, mas sublinha que este "é um processo moroso e complexo", que só poderia ser iniciado depois de todas as ameaças costeiras iranianas terem sido eliminadas.

"É esta a complexidade, os iranianos são indivíduos sofisticados, calcularam todas estas capacidades que existem do lado oposto e têm as medidas calibradas para isso. Embora exista naturalmente superioridade do lado americano e ocidental, é a quantidade de equipamentos, a diversidade de minas e a ajuda que os iranianos possam estar a ter que acrescenta risco ao processo", explica.

Lancha iraniana nas imediações de um cargueiro no Estreito de Ormuz (Getty)

Ao contrário do método utilizado muitas vezes por grupos criminosos como os piratas da Somália, a Guarda Revolucionária do Irão não tem como modus operandi o assalto a navios, deter tripulações ou tomar o controlo das embarcações, destaca Agostinho Costa. Ao invés, dispara contra os cargueiros e petroleiros para que  abandonem o Estreito de Ormuz.

O major-general recorda, no entanto, que o passado recente demonstra que, em Ormuz, "basta a ameaça para que o estreito fique logo condicionado e os seguros subam". E é assim que se faz a lei no mar, porque "o domínio dos mares, fundamentalmente, é em interdição das rotas marítimas".

Quanto pode durante o conflito?

A grande questão é durante quantos dias vai o Irão conseguir perpetuar o bloqueio. Para Agostinho Costa, a resposta está nos números, ou melhor, em "quem tem o inventário esgotado mais cedo". E, se tivesse de apostar, "diria que não mais do que a guerra dos 12 dias" a que assistimos no início do ano passado entre os mesmo intervenientes.

"Estou convencido que vamos entrar no red line muito provavelmente no final desta semana ou no início da próxima", antecipa.

O major-general considera ainda que, mais uma vez, há um "problema" com especial destaque neste conflito, que é "a irritante superioridade do Ocidente em não levar a sério o que diz o adversário", "acaba sempre mal".

"Convém ouvir o que disse o adversário. Os iranianos disseram com todas as letras. Primeiro, isto não vai ser um conflito local, vai ser um conflito regional; cá o temos. Segundo, o Estreito de Ormuz vai ser fechado; cá o temos. Terceiro, que vai ser um protracted conflict - de longa duração -; vamos ver, temos dúvidas, mas mais de 12 dias, já é longo", argumenta.

O tenente-general Rafael Martins recorda que "na guerra é mesmo assim". O Irão "vai ter de usar todos os meios disponíveis" e EUA e Israel poderão até ter de "projetar novos meios que podem neste momento não existir em teatro, meios adequados para, de forma segura e eficaz, combaterem esse mesmo bloqueio" do Estreito de Ormuz.

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