ENTREVISTA || António Costa Silva considera que o acordo entre os Estados Unidos e o Irão é “muito frágil”, deixa “todas as partes zangadas” no Médio Oriente e pode “reforçar o poder do regime iraniano”. O antigo ministro da Economia defende que o regime iraniano não caiu, conseguiu o levantamento temporário das sanções ao petróleo, ganhou margem para desbloquear ativos e descobriu uma nova arma de negociação: o controlo do Estreito de Ormuz, “uma espada de Dâmocles sobre o funcionamento da economia mundial”. Engenheiro de Minas, especialista em petróleo e profundo conhecedor da economia do Golfo, avisa que os iranianos “são excelentes negociadores” e “estão a empurrar aquilo que não lhes convém para as calendas gregas”, nomeadamente a questão nuclear
O acordo começou pelo petróleo. Antes das inspeções, antes do urânio, antes dos mísseis e dos drones, surgiu a janela temporária para a venda de crude iraniano, a reabertura condicionada de Ormuz, os seguros, os pagamentos, os navios, os bancos e os mercados. A guerra falava em poder militar, mas a primeira urgência foi económica.
António Costa Silva lê esse sinal como uma das chaves da crise. Engenheiro de Minas, especialista em petróleo e antigo presidente executivo da Partex, trabalhou durante décadas em mercados energéticos internacionais, incluindo o Irão, a Arábia Saudita e o Golfo. Conhece a região pela geopolítica, mas também pelo que acontece nos campos, nos terminais, nos oleodutos, nos petroleiros e nos contratos. E a sua leitura é dura: o acordo pode baixar a temperatura imediata dos mercados, mas não resolve a instabilidade que a guerra abriu.
Para o antigo ministro da Economia, Teerão chega às negociações debilitado pelas sanções, pelos bombardeamentos e pela pressão interna, mas não chega derrotado. O regime sobreviveu, conservou parte da sua capacidade militar, obteve concessões económicas e mostrou que pode transformar o Estreito de Ormuz num instrumento de pressão sobre a economia mundial. O nuclear continua no centro político, mas o que mexeu primeiro foi o petróleo.
Na sua análise, os Estados Unidos quiseram sair depressa de uma guerra que começava a pesar nos preços, na inflação e na política interna americana. Trump, entende Costa Silva, deu ainda um trunfo ao adversário ao reconhecer que Washington não tinha “estômago” para uma guerra prolongada no Médio Oriente. O Irão, pelo contrário, joga longo, adia o que lhe é desfavorável e explora as divisões entre Washington, Israel, os países do Golfo e os próprios equilíbrios internos de Teerão.
A normalização, insiste, não depende apenas de um texto assinado. Depende da confiança dos armadores, das seguradoras, dos bancos e dos compradores; da desminagem do estreito; da recuperação de infraestruturas energéticas danificadas; da reposição das reservas comerciais e estratégicas; e de uma pergunta que atravessa toda a entrevista: quem vai controlar, na prática, o tráfego em Ormuz?
É nesse ponto que Costa Silva vê o maior risco. Se o Irão ficar com o controlo operacional sobre o estreito, ou se se abrir a possibilidade de cobrar portagens no futuro, a guerra terá produzido uma mudança estrutural. A qualquer momento, Teerão poderá voltar a ameaçar uma das artérias centrais do petróleo e do gás mundiais. O acordo, nesse caso, não seria apenas uma pausa. Seria o início de uma nova disputa sobre quem manda na geografia económica do Médio Oriente.
O acordo entre os Estados Unidos e o Irão já produziu, pelo menos, um efeito concreto: Washington abriu uma janela temporária para a venda de petróleo iraniano. Estamos perante uma trégua política ou, antes de tudo, perante um acordo económico para baixar a temperatura dos mercados, que já fervilhavam há muitos meses?
Sim, penso que é uma excelente questão. Basicamente, as duas partes estavam cansadas da guerra e a opção menos má para cada uma delas era fazerem uma trégua. Portanto, estabeleceram as bases para terminar o conflito.
Só que o acordo é muito frágil. Como estamos a ver, pode ser violado todos os dias e tem certas condicionantes que deixam o Irão numa situação em que pode usar o seu controlo do Estreito de Ormuz para voltar a bloquear a passagem se as negociações falharem.
Essa fragilidade vem apenas do texto do acordo ou também do momento político em que ele foi anunciado?
Acho que o Presidente Trump cometeu um erro na noite em que anunciou o acordo, no dia 14 de junho, porque foi dar uma entrevista à Fox News e afirmou que os Estados Unidos não têm estômago para fazer uma guerra prolongada no Irão e no Médio Oriente. De certa maneira, está a dar um trunfo ao adversário. E atenção: os iranianos são muito bons a negociar.
Conheço-os bastante bem, porque, quando estava no Instituto Francês do Petróleo a dirigir o Departamento de Operações e de Engenharia de Reservatórios, fizemos os dois modelos computacionais para dois grandes campos iranianos, Salman e Gachsaran. Portanto, eles são bons negociadores, aliás, como o próprio Presidente Trump reconhece.
Agora, o acordo deixa todo o Médio Oriente numa situação muito difícil, porque basicamente todas as partes estão zangadas. Dentro do Irão, há a ala mais radical, a começar pelo líder supremo, que fez uma declaração a dizer que não concordava inteiramente com o acordo. Vamos ver o que vai resultar.
Sabe-se que certas fações mais radicais da Guarda Revolucionária também não estão satisfeitas. Houve manifestações no país, quer contra o ministro dos Negócios Estrangeiros, quer contra o presidente do Parlamento iraniano.
Do lado dos Estados Unidos também há muitas críticas, inclusive no Partido Republicano. Por exemplo, o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, tem sido extremamente crítico, porque diz que, no fundo, o Irão vai continuar a ter a possibilidade de exercer o seu controlo do Estreito de Ormuz. Nada foi discutido relativamente aos mísseis e ao desmantelamento do programa de mísseis, nada relativamente aos drones. No fundo, o que o Presidente americano está a negociar é dar algumas concessões económicas ao Irão, o que vai reforçar o poder do regime iraniano.
E, como dizia muito bem, uma das coisas que já resultou é o levantamento das sanções ao petróleo iraniano. Nestes 60 dias, o Irão pode negociar à vontade o petróleo que quiser. O levantamento das sanções é uma vitória, digamos, para o regime iraniano. Mas isso também está ligado a outras coisas: o descongelamento dos ativos iranianos no exterior e o tal fundo de 350 mil milhões de dólares para a reconstrução do Irão.
Portanto, temos um regime que não caiu e que se mantém no poder, quando um dos objetivos enunciados no início desta intervenção era exatamente a mudança de regime. O regime não só se mantém, como sai deste conflito com um trunfo grande, que antes não tinha testado: a possibilidade de controlar o Estreito de Ormuz. E, a seguir a isso, com alguns benefícios económicos que vão permitir salvaguardar o regime nos próximos tempos.
Durante as últimas semanas, falou-se muito da guerra, da trégua, do nuclear e do equilíbrio regional. Mas o primeiro desbloqueio visível é o petróleo, são os seguros, o transporte, os pagamentos e o próprio Estreito de Ormuz. Isto mostra que, no fim, a economia se impôs ao calendário da diplomacia?
Não tenho dúvidas sobre isso. Repare: o próprio Presidente americano, que está a caminho das eleições intercalares, está numa situação difícil internamente. Há muita crítica, inclusive dentro do movimento MAGA, nas alas mais radicais dos seus apoiantes, pelos reflexos que a guerra está a ter nos Estados Unidos.
Ele partiu de um pressuposto, e esta guerra tem esse pressuposto como base de tudo, do ponto de vista económico e energético: a luta entre os Estados Unidos e a China para ver quem vai dominar a matriz energética mundial neste século.
Esse é o pano de fundo energético desta guerra? Uma disputa mais vasta entre modelos de poder?
Exatamente. Esta administração pensa que são os petroestados. E os Estados Unidos da América são hoje um superpetroestado. Não são só uma potência económica, militar e tecnológica; são também uma potência energética. Ainda na presidência de Obama houve a chamada revolução do shale gas [gás de xisto] e do shale oil [petróleo de xisto] nos Estados Unidos. Os Estados Unidos têm hoje três grandes bacias: Bakken, no Dakota do Norte; Permian [Bacia Pérmica], no Texas; e Eagle Ford, também no Texas. Cada uma delas equivale a um país do Golfo Pérsico a produzir petróleo e gás dentro dos Estados Unidos da América. Foi isso que mudou a geopolítica mundial da energia.
Portanto, o Presidente agarra-se a isso. É também por isso que interveio na Venezuela. Queria ficar com os ativos petrolíferos do Irão, para controlar completamente o sistema energético internacional. Com esta intervenção, os Estados Unidos e as companhias petrolíferas lucraram tremendamente, porque aumentaram muito a sua exportação. Repare: os Estados Unidos estão hoje a produzir 14 milhões e meio de barris de petróleo por dia, muito à frente da Arábia Saudita, e são também o maior produtor mundial de gás.
Só que, do outro lado do mundo, temos a China. E a China é um eletroestado, que está a apostar na eletrificação da economia, embora seja o maior consumidor de carvão e também de petróleo do mundo. Mas está a inverter a situação da sua matriz energética. É o país que mais investe em energias renováveis. Um terço da eletricidade mundial consumida hoje é produzida na China. Estão a eletrificar a frota automóvel, a produzir baterias, a produzir painéis solares e a exportar para o resto do mundo. E está aqui esta grande luta.
Mas os Estados Unidos já não dependem do Médio Oriente como dependiam antes. Porque é que a crise atinge tanto Washington?
Porque, apesar de os Estados Unidos não dependerem do Médio Oriente para produzir petróleo e gás, como referi, o mercado global do petróleo é um mercado líquido, que funciona no mundo todo, e, portanto, os Estados Unidos são atingidos através dos preços.
E o que é que se passa aí? Através da inflação. A inflação em maio foi de 4,2% nos Estados Unidos, muito acima do que era expectável quando ele foi eleito, exatamente com uma crítica devastadora ao Presidente Biden sobre a inflação e o descontrolo da inflação. E ele está a fazer o mesmo ou pior.
O segundo aspeto tem a ver com os preços dos combustíveis nas bombas de gasolina. Os americanos reagem muito quando o preço passa dos dois dólares, dois dólares e meio por galão. E atenção: é o galão americano, que é diferente do galão imperial britânico. O galão dos Estados Unidos são 3,75 litros.
O que se passa com esta crise? Em muitos estados, o preço já está acima dos quatro dólares. Nalguns chegou aos seis dólares; na Califórnia chegou aos oito dólares em alguns destes períodos. E agora está a começar a driving season [época das deslocações de verão] nos Estados Unidos. Os americanos vão de férias, pegam nos seus SUV, abastecem nas bombas de gasolina, e é um choque ainda mais brutal.
Portanto, a perceção de que o custo de vida está a aumentar é uma ameaça para o Presidente dos Estados Unidos. Ele tinha, de qualquer maneira, de terminar este conflito. Agora, não penso que o tenha feito nas melhores condições.
Interpreto das suas respostas que também considera que o Irão pode sair mais forte, ou pelo menos fortalecido, desta guerra, porque demonstrou que continua a ter capacidade para perturbar uma das artérias centrais da economia mundial, um dos chamados chokepoints. Por outro lado, também há quem veja o Irão mais fraco, por causa das sanções e da guerra. Esta autorização americana é temporária. Estes 60 dias significam receitas imediatas, mas mudam realmente a economia iraniana?
Tem toda a razão. Não são estes 60 dias que vão mudar tudo. Mas estes 60 dias são muito importantes e são uma trégua importante.
Para mim, o maior significado destes 60 dias é político: o levantamento das sanções ao petróleo iraniano que o Irão conseguiu na negociação. Porquê? Porque os iranianos têm uma perspetiva de médio e longo prazo. São negociadores muito astutos e jogam com as cartas todas.
O que estão a pensar? Com aquela declaração do Presidente Trump, em princípio, a opção militar ou um ataque militar ao Irão não está equacionado para já. Aliás, os Estados Unidos vão ter de retirar as suas forças armadas. Não sei se reparou nas últimas notícias: o Departamento da Defesa dos Estados Unidos está a pedir mais 80 mil milhões de dólares para financiar todas as despesas da guerra. Isso tem um impacto grande na dívida pública americana e nas despesas, e depois também no debate interno.
O Irão está a negociar com tudo isso. Já resistiu muito às sanções. O país está debilitado do ponto de vista económico. A guerra e os bombardeamentos, quer americanos, quer israelitas, destruíram múltiplas infraestruturas. Não sabemos, nesta altura, o grau dessa destruição. Mas o facto maior é que o regime aguentou e não colapsou, quando os Estados Unidos e o próprio primeiro-ministro israelita diziam que iria colapsar em 48 horas.
E não colapsou. Não só não colapsou, como revelou capacidade de atacar os seus vizinhos. Os iranianos fizeram seis mil ataques com mísseis e drones aos Emirados Árabes Unidos, sobretudo, mas também à Arábia Saudita e a outros países. Essa capacidade, ou pelo menos alguma capacidade, em termos de mísseis e drones, mantém-se.
Além disso, e como muito bem diz, descobriram com esta guerra que têm uma arma que, se calhar, na hierarquia das prioridades iranianas, muda tudo. Eles insistiam muito na questão nuclear. Mas, nesta altura, a questão nuclear está a ser sopesada com outra grande arma que têm e que foi conferida por esta guerra: a capacidade de fecharem o Estreito de Ormuz, uma espécie de arma de perturbação maciça da economia mundial.
Portanto, eles estão a jogar em todos estes tabuleiros. Parece-me que vão adiar ao máximo as discussões. É por isso que o Presidente Trump, que não tem muita paciência, faz declarações todos os dias — e às vezes as declarações que faz perturbam ainda mais as negociações. Os iranianos vão tentar adiar isto ao máximo, para obterem, provavelmente, ao fim de 60 dias, mais 60 dias, ou mais outro prazo de tréguas, se não conseguirem concluir tudo. E isto vai empurrar o Presidente americano para cima das eleições intercalares. Nessa situação, vai ter de decidir o que fazer.
Agora, não há dúvida nenhuma de que o regime iraniano está debilitado, e economicamente está muito debilitado. Mas, se conseguir todo este dividendo económico da negociação e das tréguas — o levantamento de sanções, o descongelamento dos ativos e o fundo de reconstrução —, é uma vitória económica para o regime iraniano. E eles precisam desesperadamente disso, até porque são uma ditadura teocrática, sanguinária. Assassinaram milhares de cidadãos no início deste ano. O grande desafio que se coloca hoje ao Irão é como gerir, economicamente, a situação interna e como conseguir parar a convulsão social que agita o país.
Há uma ideia simples, ou pelo menos simplista, que muitas vezes se ouve: basta assinar um acordo para Ormuz reabrir. Mas, na prática, para que isso aconteça plenamente, os armadores, as seguradoras, os compradores e os bancos têm de voltar a confiar naquela rota. Disse recentemente que normalizar a produção e escoar o petróleo não é como abrir uma garrafa ou uma lata de Coca-Cola. Onde está hoje o maior obstáculo para normalizar Ormuz?
Apontou bem para o tráfego no Estreito de Ormuz. É muito interessante acompanhar. Tenho acompanhado a International Chamber of Shipping [Câmara Internacional da Navegação], a BIMCO [organização internacional de armadores] e também a Intertanko [associação internacional de armadores de petroleiros], que representa os grandes petroleiros mundiais.
O que dizem os representantes destas associações? Exatamente na linha do que questiona: dizem que é preciso confiança e que é necessária a desminagem do estreito. Aconselham os proprietários dos navios e dos petroleiros a não se aventurarem no estreito até haver condições de segurança.
As condições de segurança são absolutamente necessárias. Se for ver, a Lloyd’s List, que regista o tráfego marítimo mundial e provavelmente tem a maior base de dados, diz que, durante estes 100 dias de conflito, mais de 46 navios foram atacados dentro do estreito.
Portanto, o que os armadores temem é que, se ninguém coordenar o tráfego no estreito — e o Irão está a oferecer-se para assumir completamente o controlo operacional do estreito —, isso crie uma vantagem adicional para Teerão. Espero que isso não suceda, porque alguém vai ter de ordenar toda a fila de espera dos navios. Há estimativas que falam em 800 a 1.000 navios acumulados. Como é que os navios vão passar? Como é que vão ser as manobras? Como é que vão evitar as minas? Onde é que as minas estão localizadas? Tudo isto vai demorar algum tempo a normalizar.
Estão aqui três fatores. O primeiro tem a ver com a restauração da logística das operações, quer dos navios, quer depois das infraestruturas energéticas. O segundo é a reparação dos danos causados nas infraestruturas energéticas. O terceiro é a gestão da procura mundial, porque os inventories [reservas comerciais] e as reservas estratégicas dos países estão em níveis muito baixos, a começar pelos Estados Unidos, e vão ter de ser repostos. Todos estes movimentos têm de ser encadeados.
E no lado da produção? O que é que acontece quando campos, poços, terminais e infraestruturas ficam parados durante semanas ou meses?
Em relação às infraestruturas energéticas, a minha estimativa é que cerca de 60% do petróleo possa normalizar até ao fim deste ano. É petróleo que ficou sobretudo confinado por esgotamento da capacidade de armazenamento. Quando o Estreito de Ormuz foi fechado e os tanques de armazenamento ficaram esgotados, tiveram de paralisar os campos de petróleo e gás, que são centenas, e os poços. Há mais de 10 mil poços a produzir naquela área.
É por isso que digo que a reabertura disto não é de um dia para o outro. Não é como reabrir ou fechar uma garrafa de Coca-Cola. Tem os seus procedimentos. Tem de se ver o equilíbrio dos fluidos no sistema, os mecanismos de proteção catódica, a injeção de inibidores de corrosão, parar todos estes sistemas e voltar a estabilizar a produção. Mas isso pode ser feito nos próximos meses.
Depois há os outros 40% de petróleo. É a minha estimativa. Metade está ligada a infraestruturas energéticas danificadas, mas com danos pequenos, que podem ser reparados: nos pipelines [oleodutos e gasodutos], nos ataques aos portos, quer em Ras Tanura, na Arábia Saudita, quer em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, ou nos próprios terminais iranianos. Portanto, as infraestruturas que foram danificadas de forma leve podem ser recuperadas, e talvez mais 20% do petróleo possa ser recuperado até ao fim do ano ou no primeiro trimestre do próximo ano.
O problema são os 20% remanescentes, que correspondem a infraestruturas críticas altamente flageladas. Quais são essas infraestruturas? Desde logo, na Arábia Saudita, o porto de Ras Tanura e o complexo petroquímico de Abqaiq, que é o maior do mundo. Processa oito milhões de barris de petróleo por dia para o mundo e foi atacado várias vezes. Também os pipelines sauditas foram atacados. Embora os sauditas digam que os danos não são muito profundos, pode levar algum tempo.
E há sobretudo o terminal de Ras Laffan, no Qatar. O terminal de Ras Laffan exporta 20% do gás natural liquefeito que o mundo consome. Têm 14 trains de liquefação [unidades de liquefação] e três ou quatro foram atacados. Os qataris dizem que, para repor estes trains na sua totalidade, vão demorar até três anos.
Estes trains são muito importantes porque fazem a liquefação do gás para ser exportado. É uma descoberta grande dos engenheiros: quando a temperatura do gás é baixada para cerca de 162 graus negativos, transforma-se em líquido e o volume que ocupa é 600 vezes menor do que o gás. É por isso que estes navios criogénicos conseguem exportá-lo para qualquer lado do mundo.
Há aqui uma série de variáveis. A questão principal, a meu ver, é a confiança: quem vai gerir esta fila de espera no estreito? Os iranianos vão empenhar-se ou não na desminagem? O Exército americano vai intervir ou não? As escaramuças que podem suceder vão acontecer ou não? Tudo isso está hoje em discussão.
Para a economia mundial, a dúvida maior talvez seja sobre quem manda — e isso é tão ou mais importante do que o texto assinado. Hoje, quem pode garantir o cumprimento do acordo e a livre circulação? É o Governo? É a Guarda Revolucionária? É o líder supremo? Certamente não são apenas os negociadores.
Essa é uma grande questão: quem manda dentro do Irão e quem manda no fluxo do tráfego no estreito.
Os dirigentes iranianos entendem isto muito bem. Há aqui uma espécie de teatro de sombras. Não há dúvida de que os negociadores estão a ser muito atacados, quer o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, quer o presidente do Parlamento. Já houve manifestações muito sérias, não só em Teerão, mas também noutras zonas do país, contra estas duas pessoas.
Depois houve a declaração do líder supremo, Ali Khamenei, que também não ajuda nada, porque diz que estava em desacordo com alguns dos pressupostos, mas deu ordem para ver um pouco o que se vai passar. E diz claramente que eles não confiam nos americanos.
O regime iraniano, com a liquidação da primeira e da segunda linha, ficou muito mais radical, porque o poder está hoje basicamente na Guarda Revolucionária e nos radicais da Guarda Revolucionária. Eles também têm muitas objeções e, sobretudo, não querem de maneira nenhuma que se discuta o direito do país ao enriquecimento do urânio. Isso vai ser outra questão. E o outro ponto que colocam é que ninguém tem o direito de discutir o controlo que têm sobre o Estreito de Ormuz e aquilo que querem fazer no Estreito de Ormuz.
Logo aí, em função destas várias posições, também vão jogar tudo isso no desenvolvimento das negociações. Os Estados Unidos têm uma posição, porque querem sair o mais depressa possível, querem terminar isto. Portanto, vão acabar por fazer um acordo que pode ser frágil e ameaçado, porque ninguém gosta do que está a passar-se ao nível dos poderes regionais.
E do lado dos países do Golfo? O que é que esta crise muda na forma como olham para os Estados Unidos, para o Irão e para a sua própria segurança?
Se falar com os vários dirigentes dos países do Golfo Pérsico, todos eles estão zangados, profundamente zangados: a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Bahrain. Porquê? Porque dizem que aconselharam os Estados Unidos a não intervirem na região. Não só os Estados Unidos não seguiram o conselho que lhes deram, como puseram em causa o modelo que aqueles países tinham para toda aquela região: o modelo de ser o paraíso na Terra do ponto de vista dos investimentos, das tecnologias, da segurança máxima, do turismo, do desenvolvimento das indústrias. Aqueles países estavam a fazer o seu caminho e todo esse modelo está agora sob tensão e sob grande ameaça. Portanto, estão a reequacionar o que vão fazer para o futuro.
Do lado de Israel, Israel também está muito desapontado com tudo isto. Vejo alguns jornais israelitas, mesmo jornais mais centristas, a criticarem muito o primeiro-ministro Netanyahu. Dizem que ele ia mudar o Médio Oriente e, afinal, mudou, sim, mas para pior. E que a posição de Israel hoje é a posição de um servo face aos Estados Unidos da América. Portanto, Netanyahu tem grandes dilemas dentro do país.
Neste cômputo geral, a reconfiguração do Médio Oriente é a grande questão. O que vai acontecer ao Médio Oriente pós-guerra do Irão? Os Estados Unidos vão sair, as tropas vão sair da região, mas o que os outros países estão a ver é que vão ter de lidar com o Irão.
Há duas fações, a meu ver. Há uma fratura clara que a guerra vai expor entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Atenção: isto foi exponenciado pela guerra, mas já vinha de trás. Houve altercações entre os dirigentes dos Emirados Árabes Unidos e o príncipe herdeiro saudita a propósito da guerra do Iémen, porque os Emirados apoiaram algumas milícias no Iémen que invadiram inclusive a Arábia Saudita. Há uma grande rivalidade e uma grande tensão entre os dois.
Os Emirados anunciaram a saída da OPEP e são o único país árabe que assinou os Acordos de Abraão. A meu ver, vai haver aqui duas linhas claras. Uma, liderada pelos Emirados, no Médio Oriente pós-guerra do Irão, provavelmente alinhar-se-á ainda mais com os Estados Unidos e reforçará essa ligação com Israel. Do outro lado, teremos a Arábia Saudita, que evidentemente vai preservar a relação com os Estados Unidos, mas não podemos esquecer que a Arábia Saudita já tinha um acordo com o Irão antes de a guerra começar, mediado pela China. Portanto, os sauditas vão provavelmente trabalhar com muitas das outras monarquias do Golfo para haver um entendimento com o Irão. Porque, se não houver esse entendimento, como é que a região vai funcionar? É essa a questão que está em aberto.
A questão das monarquias do Golfo e de Israel é muito interessante. A Arábia Saudita, os Emirados, o Qatar e Omã ganham com a estabilidade em Ormuz, mas também perdem margem se o Irão regressar desta guerra como uma potência económica. Não é um contrassenso que os Estados Unidos tenham atacado o Irão, que as monarquias do Golfo talvez esperassem uma mudança de regime, e que aquilo que podem ter agora seja um Estado teocrático reforçado estratégica, económica e energeticamente?
É um contrassenso, mas isso deve-se à má preparação desta guerra, ao mau sistema de decisão e ao falhanço estratégico que ela, no fundo, representa.
Atenção: o Presidente americano é especialista em retratar e reconfigurar os seus grandes falhanços estratégicos e vendê-los como grandes sucessos. Já fez isso durante toda a sua vida, desde as bancarrotas dos casinos, que foram vendidas como grandes sucessos, até à eleição presidencial que perdeu para o Presidente Biden em 2020, que reinventou como uma eleição roubada, nas suas palavras. E agora vai pintar e retratar todo este acordo com o Irão como um grande sucesso.
Mas, se dissecarmos o acordo, o regime iraniano não cai, quando ele disse que ia cair. Nas fases iniciais, dizia que só aceitava a rendição incondicional do Irão. Disse que ia obliterar todo o poder iraniano, incluindo os mísseis e os drones. Mas o Irão retém parte desse poder e ainda por cima está a negociar para obter algum dividendo económico.
Falo daquelas três questões máximas: o levantamento das sanções, o descongelamento dos ativos do Irão e o tal fundo para a reconstrução, que é muito dinheiro e muito superior ao dinheiro do acordo que o Presidente Obama negociou com o regime iraniano, na altura com a União Europeia, a China e a Rússia. Aí falávamos de 1,7 mil milhões. Aqui falamos de dezenas e dezenas de mil milhões de euros. É uma escala completamente diferente.
O que os países da região estão a ver é exatamente isto: então o regime iraniano, que era suposto ser mudado, que era suposto cair, que era suposto deixar de representar uma ameaça, não só fica reforçado agora do ponto de vista económico, se todas estas questões se consolidarem, como os Estados Unidos vão embora. Estes países apostaram nas bases americanas nos vários países do Golfo, e as bases não serviram para os defenderem. Vão ficar sozinhos perante a ditadura teocrática do outro lado.
E mesmo a questão nuclear — as inspeções, o enriquecimento, as garantias —, embora seja o centro político do acordo, fica para depois. Não fica resolvida agora neste memorando.
Tem toda a razão. As pessoas subestimam muito os iranianos. Os iranianos são excelentes negociadores. O Presidente Trump passa a vida a repetir isso.
Repare: eles estão a empurrar aquilo que não lhes convém para as calendas gregas, nomeadamente a questão nuclear. Mesmo agora, com esta discussão sobre os inspetores — se vão ou não vão, se podem ir ao país ou não —, os inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica, pelo seu próprio protocolo, não podem ir para um país sem convite desse país. Portanto, isso tem de estar sancionado no acordo e reconhecido por ambas as partes. Os iranianos vão fazer aqui um teatro de sombras e um jogo de adiamento, a não ser que os Estados Unidos encontrem armas para impor imediatamente a ida dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica.
E tecnicamente onde está a dificuldade? É saber quanto urânio existe, onde está e como pode ser verificado?
Mesmo aí, repare que a situação é muito complexa. Porque o Irão tem 9.900 quilos de urânio enriquecido. Não são só os 440 quilos que têm já um enriquecimento acima dos 60% e que, portanto, podem ser utilizados para fabricar bombas nucleares. É todo o resto do material. Ninguém sabe onde está esse material. Dizem que 80% a 90% está em Isfahan, onde há um dos reatores, mas estará noutras partes do país. Como é que isso vai ser identificado? E como é que vai ser tratado?
A meu ver, também aqui há uma mudança de prioridades na hierarquia dos iranianos. Eles vão jogar claramente com a questão nuclear. Desde logo, a Guarda Revolucionária não admite que seja discutida a capacidade de enriquecer urânio. O que é um sinal terrível para todas as monarquias do Golfo. Se eles ficam de mãos livres, ainda por cima com dividendos económicos, com recursos económicos, vão reconstruir toda a sua estratégia de defesa, os programas de mísseis e drones. E, se ficam com capacidade de enriquecer urânio, vai ser muito difícil.
Estou convicto de que o Irão usa a questão do urânio enriquecido para fazer a arma nuclear como uma espécie de chantagem em relação aos Estados Unidos e aos vizinhos da região. Porque não se esqueça que Ali Khamenei, o atual líder supremo, tem uma fatwa [decreto religioso] que proíbe o uso da arma nuclear. Isto é significativo, porque os iranianos obedecem ao que o líder supremo diz.
É evidente que isto não dá nenhuma garantia aos países da região nem aos Estados Unidos, porque eles de facto enriqueceram uma quantidade apreciável de urânio acima dos limites permitidos. Portanto, isto tem de ser tudo verificado. Mas, do ponto de vista iraniano, têm aqui um grande jogo de xadrez geopolítico e geoeconómico com a região.
Paradoxalmente, os Estados Unidos, com esta intervenção desastrada e com aquilo que estão a configurar neste acordo, estão a reforçar o regime iraniano, embora o regime esteja atingido duramente do ponto de vista económico. O próprio facto de se manter é uma vitória para os iranianos. Eles vão alegar isso. E é um grande incómodo para todas as potências regionais. É por isso que acho que os mediadores, provavelmente com o Paquistão, com a China, com outros países e com as monarquias, vão trabalhar para haver um entendimento regional que possibilite a convivência entre aqueles países e o Irão. Caso contrário, será extremamente difícil para o futuro.
O Irão passou anos a vender petróleo com descontos, por circuitos indiretos e sobretudo para a Ásia. A Ásia pareceu-me sempre um ator silencioso desta crise: China, Índia, Japão, Coreia do Sul, porque dependem muito dos fluxos energéticos que passam pelo Golfo. Esta negociação também mostrou que a segurança energética asiática condiciona muitíssimo a política americana no Médio Oriente?
Os países asiáticos foram os mais flagelados nesta crise, exceto a China. Mesmo a Índia, a Tailândia, o Vietname e as Filipinas foram duramente flagelados. Alguns deles já decretaram situações nacionais de emergência energética. Muitos começaram a comprar petróleo a outros fornecedores. Por exemplo, o Vietname comprava quase a totalidade do petróleo ao Kuwait e já diversificou para os Estados Unidos, para a Nigéria e para outros fornecedores mundiais. As Filipinas estão a fazer a mesma coisa.
Há um aspeto central nisto tudo: o papel da China. A meu ver, se analisarmos esta crise energética, há três países que estavam muito bem preparados para os seus efeitos: a China, os Estados Unidos e a Rússia.
Os Estados Unidos, pelas razões que já discutimos: têm reservas, sobretudo de shale oil e shale gas, e são um grande produtor mundial. Portanto, não precisam do Médio Oriente.
A China importava parte do seu petróleo do Médio Oriente, mas fez uma coisa impressionante ao longo das últimas décadas: construiu reservas estratégicas de petróleo que atingiram entre 1.400 e 1.500 milhões de barris. É cerca de quatro vezes mais do que as reservas estratégicas dos Estados Unidos e estão entre as maiores do mundo. Isto dá-lhes vários meses em que podem jogar com toda esta falta de crude.
Logo nos primeiros dias da crise com o Irão, fizeram uma coisa impressionante: limitaram a exportação de produtos refinados para a Ásia. Porquê? Porque são grandes compradores de crude, mas também grandes exportadores de produtos refinados, sobretudo para os países asiáticos. Isto deixou muitos daqueles países asiáticos ainda mais com a corda na garganta. É por isso que vimos o preço do petróleo, do crude e do jet fuel [combustível de aviação], nos mercados spot [mercados à vista], nos mercados físicos diários, dispararem para números colossais. Os países estavam muito inquietos com a questão do abastecimento.
A segurança energética da Ásia é posta em causa. Vamos ver qual é o papel que a China vai desenvolver no futuro relativamente a isso. A China eletrificou a sua economia. No ano passado, em cada dois carros vendidos na China, um já era elétrico. A expansão do mercado dos carros elétricos na China é brutal, aumentou cerca de 30%. Estão a apostar nessa eletrificação, na rede de alta velocidade, que tem mais de 50 mil quilómetros — mais do que todos os outros países do mundo somados. Estão a apostar nos vários setores das energias renováveis, da fotovoltaica, etc. Portanto, têm menor dependência dos combustíveis fósseis, embora ainda tenham uma dependência significativa. Mas estão preparados para lidar com isso.
A Rússia também beneficia muito, porque vai aumentando as suas exportações, exceto agora que está a ser atingida pela Ucrânia nas suas infraestruturas. Mas a segurança energética da Ásia vai estar sob grande tensão nos próximos tempos. Não propriamente a da China, mas a da Índia. A Índia foi também duramente atingida, sobretudo no LNG [gás natural liquefeito].
Não é por acaso que o Paquistão se assumiu como país mediador. Mais de 90% do seu gás natural liquefeito vinha do Médio Oriente. E não é só o gás natural liquefeito. Ali passavam também cerca de 30% dos fertilizantes e 50% do amoníaco, que é fundamental para a produção alimentar.
Tudo isto tem muitos reflexos naqueles países. É por isso que eles estarão também de olhos postos no Médio Oriente pós-intervenção americana. Aí há muitas ambiguidades. Acho evidente que vão movimentar-se para ver se há um entendimento entre o Irão e os outros países da região, pelo menos para estabilizar o Médio Oriente.
Nesta conversa falámos de tráfego real em Ormuz, quando ele existir; falámos dos volumes exportados pelo Irão, do preço do Brent, da reação do Golfo. Se eu tivesse de lhe perguntar a que sinais decisivos devemos estar atentos nas próximas semanas, quais escolheria?
Acho que, nas próximas semanas, há vários sinais importantes nos diferentes tabuleiros.
O primeiro é geopolítico: este acordo tem condições, tem pernas para andar, ou é uma espécie de semiacordo que vai ser interrompido continuamente? Há condições para isso suceder, desde logo pelo papel de Israel. Israel está profundamente desapontado com tudo isto que se está a passar, e é muito possível que mantenha os seus planos de atacar o Líbano.
Não há dúvida de que os iranianos são negociadores natos. Porquê? Porque conseguiram ligar a questão da abertura do Estreito de Ormuz à cessação das hostilidades no Líbano. Isto está ligado no acordo. Portanto, têm aqui uma carta para jogar. Se Israel atacar o Líbano, vão reagir.
Neste acordo, a questão dos chamados proxies iranianos, muitos deles grupos terroristas apoiados pelo Irão, nem sequer está a ser discutida. O Irão vai conservar alguns. É evidente que outros foram muito flagelados, mas consegue ficar com o Hamas, consegue ficar com os houthis, consegue ainda ficar com estas armas e vai usar tudo isto.
O primeiro sinal é esse: do ponto de vista geopolítico, como é que o acordo se vai processar.
O segundo aspeto é a questão da confiança ou da desconfiança. Nesta altura, a própria liderança iraniana diz claramente que não confia na administração Trump. Como é que duas partes que desconfiam profundamente uma da outra vão conseguir ter algo sólido? Se isto começar a descambar, podemos voltar às fases anteriores.
Só que com uma grande desvantagem para os Estados Unidos: o reconhecimento, pelo Presidente Trump, de que já não vai usar a opção militar e de que os Estados Unidos não têm estômago para uma ação militar prolongada no Médio Oriente. É no mínimo controverso declarar isso assim, porque é prescindir provavelmente de um trunfo, embora, com a sua liderança errática, ele possa regressar a essa opção.
E em Ormuz, concretamente, qual é o sinal mais importante: o número de navios, a segurança da passagem ou quem controla operacionalmente o estreito?
O terceiro sinal é o Estreito de Ormuz. O que é que se vai passar em termos do tráfego dos navios? Vamos ter incidentes? Vamos ter manobras imprevisíveis? Vamos ter controlo regular do tráfego no estreito? E quem vai ficar com esse controlo operacional?
Tudo indica que o Irão vai ficar com o controlo operacional. Se o Irão ficar com o controlo operacional, significa que teremos uma espada de Dâmocles sobre o funcionamento da economia mundial, porque a qualquer altura pode voltar a fechar o estreito e a asfixiar a economia mundial. Isto não acontecia antes da guerra. É a guerra que consagra esta vantagem que o Irão vem a ter: esta arma de perturbação maciça do funcionamento da economia mundial, que pode voltar a ser usada.
Ainda no tráfego do estreito, é muito importante estarmos atentos a um sinal crucial: pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, não se podem cobrar portagens nos estreitos. O que o acordo diz é que o Irão não vai cobrar nenhuma portagem nestes 60 dias. Não diz o que vai acontecer no futuro. Se os Estados Unidos abrem a perspetiva de o Irão poder cobrar portagens no estreito, acho que é uma questão sem precedentes no funcionamento da economia mundial e vai colocar muitos aspetos preocupantes para o futuro.
Depois há a própria relação do Irão com Omã. Na fase mais estreita do estreito, salvo a redundância, são 60 milhas. O Irão tem direito a 12 milhas pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Essas 12 milhas territoriais pertencem ao Irão e estão sob sua soberania. Omã tem as outras 12 milhas, mas o resto são águas internacionais. Portanto, o que o Irão vai tentar fazer é provavelmente desviar todo o tráfego de navios para passar junto das suas águas e, eventualmente, preparar-se para cobrar portagens daqui a 60 dias ou criar algum mecanismo para isso acontecer. Isso seria um precedente que não se pode aceitar.
E no lado das infraestruturas energéticas, que sinais é preciso observar?
O quarto e último ponto é perceber como é que as infraestruturas energéticas vão sendo reativadas. Já falámos das diferentes situações: aquelas que pararam por efeitos de logística e pelo esgotamento do armazenamento, e como é que vão ser reposicionadas; que danos foram realmente infligidos pelos bombardeamentos do Irão às infraestruturas energéticas daqueles países todos; e que danos foram infligidos por Israel e pelos Estados Unidos no bombardeamento das infraestruturas iranianas.
Isso vai começar a ser visível nos próximos tempos. Se tivermos notícias boas nestas várias frentes, talvez as coisas se encaminhem para uma estabilização. Mas há muitos escolhos que têm de ser transpostos para as coisas funcionarem bem.
